quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

O Mágico da Capa

Tenho a esperança de iluminar com meus relatos uma verdade desconhecida. Sempre começa com uma certeza eloquente de que minha jornada traz não só o entendimento do inexplicável como também a viagem ilusória do leitor, que faz com que e os mistérios mais primitivos sejam por fim revelados. Talvez esta crença seja falsa levando-me a ignorância extrema, mas os limites entre o real e o imaginário são tão hipotéticos que quando me perguntam se creio no inacreditável apenas respondo : O que poderíamos considerar realmente inacreditável? Mas vamos diretamente aos fatos. Era uma chuvosa noite na cidade portuária de Sant Ives no condado de Cornwal, Inglaterra. Esta localidade litorânea banhada pelo Oceano Atlântico tinha na pesca sua maior fonte de renda, visto que todo o comércio local ficava no arredores do velho porto Black Seal. Eu havia saído da igreja católica La Santa de La Cornualha onde com grande pesar despedi-me de meu velho amigo James Holffer. Empresário local que falecera prematuramente por conta de um acidente em uma de suas áreas de mineração. A data era 16 agosto de 1893 . Após a fúnebre despedida percorri as estreitas e tortuosas ruas do local até chegar a taverna Sloop In, onde pretendia esquecer aquele momento tétrico com algumas doses de Brandy. A taverna estava abarrotada pois era ponto de encontro de pescadores e demais moradores do vilarejo. Algumas jovens vestindo roupas típicas das mulheres camponesas atendiam alegremente os clientes. Logo ao entrar depositei meu corpo cansado na primeira banqueta que encontrei próximo ao balcão, e pedi ao taverneiro minha bebida, e enquanto aguardava observei um homem bastante magro coberto por uma capa na cor vermelha muito semelhante ao estilo usado pela realeza, toda ela coberta por pequenas pedras de intenso brilho. O tal homem no centro do salão fazia o deleite dos frequentadores com seus números de mágica e ilusionismo. Entre o desaparecer de um simples lenço até o completo domínio de algum voluntário através da hipnose o esguio artista recolhia aplausos e algumas moedas que lhe eram jogadas ao chão. Era sem dúvida uma singular figura, creio eu estar ele na casa dos cinquenta anos, tinha um ar circunspecto. Lembrei-me de imediato o que meu amigo Volteire disse-me certa vez: – O destino coloca mais rugas em nosso espírito do que em nosso rosto. Que segredos estariam encarcerados nas profundezas do espírito daquele mestre das ilusões? Pois bem, o homem de aparência minguada olhava com alegria a todos, tinha cabelos pretos e largas costeletas que cobriam boa parte do franzido rosto. Enquanto encantava a todos com seus truques girava sua capa exaltando a luminescência de seus incontáveis adornos, creio eu serem pedrarias de cores variadas que cobriam quase totalmente a veste chegando até o chão. Devo admitir que era uma indumentária digna dos grandes reis. Já era por volta de vinte e três horas quando adentrou a taverna alguns soldados chamando a todos a atenção pela balbúrdia que faziam, a princípio pareceu-me ser em número de sete e um deles que se destacava pelo uniforme mais ostentoso e com medalhas com lhe cobriam boa parte do peito, tinha um sorriso desmedido e até mesmo exagerado, era com certeza o comandante, ou algo assim. – Meu nome é Capitão Theodor e sou o Rei dos Mares. Disse o homem. – Meu navio está no cais e lá vai ficar até o fim desta pestilenta tempestade, por isto eu e meus homens queremos diversão. Dizendo isto se recostaram todos no balcão a beber e a dizer gracejos as taverneiras enquanto seu capitão tinha a atenção voltada ao velho mágico que havia interrompido sua apresentação devido a entrada triunfante dos marinheiros. – O que vais fazer para entreter-me? Velho decrépito. Perguntou com arrogância o lobo do mar enquanto apontava para a figura ao centro da sala. – O que posso eu fazer nobre senhor para agradar-lhe? Respondeu o mágico. O capitão vendo a submissão do artista caminhou até onde estava o servil ilusionista e retirando seu sabre da cintura colocou a ponta do metal no pescoço do assustado homem. – Quais truques ou perigos podes me apresentar moribunda criatura Disse o capitão. ---Que podes me apresentar que em minhas viagens já não conheça? Conclui ele enquanto empunhava o sabre com extrema altivez fazendo ajoelhar a seus pés o intimidado homem da capa brilhante. – Vejo que és um homem de coragem,meu senhor. Disse o velho. – E creio ter algo que tem a grandeza de vossa majestade. Os acontecimentos até então presenciados por mim fez-me concluir que o nosso valente capitão do mar passava por um total descontrole de moralidade, decência e respeito. Fato este que o levou a um desfecho deveras surpreendente. Enquanto o velho movia-se vagarosamente ainda com o fardo do metal do sabre em seu pescoço, lentamente tirou sua tão preciosa capa e ainda joelhos, como a implorar alguma indulgência, colocado-a sobre um dos braços e a ofereceu como presente ao seu opressor. Por alguns momentos notei que o silêncio havia tomado o ambiente, todos ali observavam o desfecho de tão inesperado episódio. Theodor fascinado pelo intenso brilho das pedras que cobriam toda capa tratou de guardar seu instrumento de tortura e com apenas um movimento jogou a capa sobre seus ombros, movimento este que trouxe uma cintilância ainda maior aos ornamentos do manto. O sorriso que já era detestável tornou-se ainda mais repulsivo. – Como rei dos Mares. Disse o marinheiro com soberba. – Tenho agora meu manto real. Enquanto falava com seu braço esquerdo desferiu vigoroso golpe no rosto do já amedrontado mágico, jogando-o por completo ao chão. – Saia de perto do rei sua escória humana! Naquele momento, para espanto de todos ali presentes a cena repugnante que assistíamos até então tomou um caminho que desafiaria o mais céptico dos mortais. O mágico caído ao chão apenas arrastou-se para longe sem tentar erguer-se enquanto Theodor ria debilmente com seus braços erguidos como se a comemorar vitória sobre o impotente adversário. E foi neste momento que a tão desejada capa, como a encarnar os dons mágicos e arrisco dizer diabólicos de seu antigo dono enrolou-se cobrindo por completo o audacioso Rei dos Mares. O brilhar de seus adereços fulguravam intensamente como a ofuscar nosso olhares e em alguns segundos o intrépido marinheiro transformou-se em uma incandescente tocha humana. A capa de labaredas levou-o rapidamente ao chão da taverna. O valente agressor debatia-se ferozmente mas nada pode ser feito para salvar-lhe a vida e entre os mais horrendos gritos de pavor nas chamas o intrépido Rei dos Mares foi queimado, derrotado por sua arrogância. Enquanto toda atenção era para o capitão o velho ilusionista desapareceu, e nunca mais foi visto em Sant Ives.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O Mistério de Monstro da Floresta

A data era 17 de Janeiro de 1887,Havia deixado a alguns dias a Inglaterra bordo da fragata Jesebell, atravessamos lentamente o Oceano Atlântico até a França, continuando minha longa jornada, cruzando a Europa, agora através da ferrovia,pela estrada de ferro Stokton &; Darlington, até chegar ao meu desejado destino. E a partir deste ponto que começo minha narrativa, sobre mais esta incrível experiência a qual presenciei, e que tenho o dever de relatar. Durante a maior parte da tarde, com meu cachimbo na boca e um jornal em cima dos joelhos, diverti-me ora a ver os anúncios, ora a olhar para a rua através dos vidros embaçados pela densa chuva, permitindo tão somente uma visão brumada da rua. À medida que a noite se aprofundava, aprofundava-se também o meu interesse pelas diversas situações que presenciava, porque não só se ia alterando o caráter geral da multidão, saindo das ruas aqueles que dela se utilizavam para ir e vir em seus afazeres diários, e tornava-se mais notório a presença daqueles que a usavam para buscar diversão, à medida que o adiantamento da hora tirava da toca novas espécies de boêmios e andarilhos. As centelhas dos bicos de gás, fracos primeiro, enquanto lutavam com o crepúsculo da tarde, tinham agora vencido e derramavam sobre todos os objetos uma luz brilhante e agitada. Com a fronte encostada aos vidros, ocupava-me assim a examinar o movimento despretensioso dos transeuntes, quando vi atravessar a rua meu esperado amigo Estebam Ramon, uma figura extremamente magra, de sessenta e cinco anos,uma fisionomia que chamava a atenção pela sua absoluta idiossincrasia, deixando pender a barba sobre o peito, que me fez lembrar de imediato a figura de Galileu. A noite chegara e com ela a chuva, que caía grossa, o ar resfriava, cada um tratava de se recolher apressadamente, a rua esvaziava-se. O gás dos revérberos continuava a brilhar, mas a chuva a cada minuto caía mais copiosamente e apenas de vez em quando se viam alguns transeuntes. No quarto onde estava,no Hotel Trinkete, uma antiga mansão no Vale de Baztan, na calma cidade de Elizondo, Espanha, tinha paredes brancas e sacadas com madeira rústica escura. Uma legitima obra de arte da arquitetura espanhola. Seus aposentos guardavam o estilo provincial, com véus de fina seda cobrindo as pomposas camas de madeira. A capital do Valle de Baztan reúne sob seus domínios locais que são distribuídos por colinas verdes nas cordilheiras do Atlântico, em ambos os lados do rio Baztán, que atravessa Elizondo, abundam edificações nobres, como casas e palácios. Onde o mais representativo é o Arizkunenea Palace, além do charmoso bairro de Beartzu. Fortalezas com enormes; torres são comuns no vale, que serviam como proteção durante a Idade Média, onde havia muitos conflitos fronteiriços. Meu amigo Estebam demorou-se por algum tempo até chegar ao meu aposento, um pouco pelo fato de estar no terceiro e último, andar do hotel, mas também, creio eu, pela debilidade do seu estado físico. Por fim, ao adentrar ao local onde eu o aguardava, pude ver que meu velho amigo estava deveras envelhecido, além da barba que lhe cobria o rosto e caia sobre o peito, sua fisionomia era de alguém extremamente enfraquecido. Um abraço prolongado foi o inicio para que ficasse a par do motivo pelo qual Estebam me pedira para vir da Inglaterra até Elizondo ao seu encontro. A Espanha entrava no período que se chamava a Era do Século de Ouro, entende-se a época clássica e apogeu da cultura espanhola. E Estebam, como escritor, dedicou-se a literatura investigativa, buscando desvendar mistérios até então ocultos naquele pais. Sentado em uma poltrona ao lado da minha, tratou imediatamente de tirar de dentro de um envelope,que trazia devidamente protegido na parte interna do seu paletó várias folhas com anotações escritas em completo desalinho,e feitas certamente, já a algum tempo. Apressadamente passou-me as mãos os papéis. ---Leia...para que depois entendas o motivo pelo qual chamei-te. Disse ele enquanto eu curiosamente começava a leitura das amassadas escrituras, e ao passo que fazia a leitura minha aguçada curiosidade ficava evidente. Os rascunhos referiam-se a existência de uma criatura que no local era conhecida como Basajaun, este monstro, se é que existe, seria um ser antigo de tamanho desproporcional e cabelo por todo o corpo, responsável por proteger a paz que reina na floresta, e as pessoas que por ela passam. Pouco se sabe ainda sobre a aparência do ser mitológico da floresta Basco navarra, mas existem depoimentos de moradores que garantem a existência de tal teratismo. Não tive a menor dúvida, que meu nervoso amigo, pois estava a balançar inquietantemente as pernas,havia dedicado seu tempo a desvendar este mistério. ---Que queres que eu faça? Perguntei a ele, apesar de já imaginar a resposta. E ela veio de imediato. ---Que me acompanhe na floresta...disse ele. ---Vamos encontrar o Basajaun.... Devo admitir que não fiquei muito tentado a aceitar o convite, mesmo vindo de muito longe para atender a um pedido de um velho amigo. Agora podia eu, entender a causa do estado catastrófico físico e mental em que Estebam encontrava-se, dedicando todo seu tempo a busca de algo que tampouco sabia da real existência. Outro fato que me fazia declinar do convite, era saber que meu velho amigo já a muito sofria da Síndrome de Dostoiévski, enfermidade que causa transes psíquicos que levam a sonhos, revelando acontecimentos ocultos em nossa consciência, que por isto poderiam transformar em realidade fictícia, aquilo que esta em nossa mente, no campo do inexplicável. A visão cadavérica de meu amigo e a sua inquietação exacerbada deixava notório o efeito que a busca desmedida e quase que obcecada pelo Basajaun havia feito. --Vamos...minha carruagem está lá fora...venha. Disse ele. E concluiu. ---Vamos descobrir isto juntos..se algo me acontecer..tu escreverá. Enquanto falava, levantou-se e caminhou até a porta, e realmente não sei por que motivo, mas com esta afirmativa me ergui em um salto de meu assento, e pegando minha capa, pois a chuva continuava a cair fortemente, acompanhei o tão entusiasmado escritor. Subimos em coche que estava na frente do hotel e por alguns minutos, em meio a intensa chuva, cruzamos por inúmeros vilarejos, estávamos agora creio eu,no bairro mais insalubre de Elizondo, onde todos os objetos têm o estigma horrível da pobreza misérrima e do vício incurável. À luz acidental de um revérbero sombrio apercebiam-se as casas de pau, altas, antigas, carunchosas, ameaçando ruína e em direções tão variadas e numerosas que mal se podia identificar, no meio delas, a existência de uma passagem que sabe-se lá onde iria levar-nos. Mas por ela adentramos. A trilha levou-nos até um imenso bosque, lá descemos da carruagem e penetramos a pé na escuridão gélida do local, a chuva ainda a cair fortemente não deteve nem por um segundo o meu determinado amigo, que seguia a minha frente como se certeza tivesse de encontrar a tão procurada criatura. A floresta estava em um silencio assustador, somente os pingos da chuva podiam ser ouvidos, além é claro de nosso passos. Após caminharmos por algum tempo paramos, Estebam agachou-se e fez sinal com sua mão para que eu fizesse o mesmo, a floresta fazia-me sentir um ar peçonhento, danoso, no breu da noite e com as roupas completamente ensopadas, totalmente congelado, já não tinha plena certeza de poder controlar meus pensamentos, e o medo trouxe um tétrico arrepio por todo meu corpo. Meu companheiro de aventura, com os joelhos encostados ao chão, ergueu seu braço esquerdo apontando para a escuridão sepulcral da floresta. ---Ele está lá...eu sei...ele está lá! Disse ele em voz muito baixa. Talvez tomado pelo devaneio do empirismo, uma teoria do conhecimento que afirma que o entendimento vem apenas, ou principalmente, a partir da experiência sensorial onde o imaginativo pode ser real, meu amigo tenha explicitamente tentado contatar algo que particularmente eu não havia visto. O vento se fazia cada vez mais forte, as árvores do bosque balançavam em um pernicioso balé macabro, a chuva que já era deveras forte agora vinha acompanhada de trovões. Os raios que se precipitavam no escuro céu jogavam fachos de luz no sombrio vale, estávamos em meio a uma nefasta tempestade. Mas nada abalava de Estebam sua convicção. ---Eu sei...eu já vi...ele está nos observando! Dizia ele. Aquela situação me deixava aflito, quantos morrem com o desespero na alma, convulsionados pelo horror dos mistérios que não querem ser revelados. Algumas vezes a consciência humana geme sob o peso de um horror tão profundo que só a morte pode aliviá-la desse macabro fardo, livrar-lhe deste maléfico destino. Creio que o pavor que tomara conta de minha alma fazia-me imaginar o lôbrego negrume do horrendo vale ainda maior. E aos archotes dos relâmpagos, imaginava eu, criaturas da escuridão a movimentar-se por entre as descomunais árvores. Era como o mais diabólico dos pesadelos. Estebam estava indiferente ao que se passava ao seu redor, parecia estar conectado espiritualmente com aquele ao qual buscava, tão forte era sua convicção que havia algo ali, fato este que eu já estava também quase a crer. Estaríamos nós passando por uma experiência espiritual? Que poder sobrenatural estaria oculto naquele vale? Seria talvez o momento em que o espírito eletrizado ultrapassa tão prodigiosamente as suas faculdades ordinárias que a ingênua e sedutora divisa de realidade e fantasia torna-se tênue e frágil. Segurei o velho amigo pelo braço na intenção de tirá-lo daquele tenebroso local, mas foi em vão, seu corpo tombou para trás deitando-se na molhada relva sem que seu braço deixasse de mostrar a escuridão a frente. Senti como se o espírito do velho amigo estivesse a enfraquecer, como a luz de um candeeiro prestes a extinguir-se. Deitado ao chão sobre as folhas molhadas pela chuva que ainda caía, seu braço esquerdo erguido seguia apontando para o fundo da mata. ---Não....não estou sonhando..esta ali....ele existe! Dizia ele. Seu decrépito corpo foi lentamente ficando sem movimento em meio as folhas soltas que voavam ao intenso vendaval, a vida se esvaiu como um sopro ao vento. Sem saber o que fazer, saí desesperadamente a correr para longe do vale, estarrecido e sem olhar para trás, mesmo podendo com infabibilidade dizer que talvez algo apavorante me seguia. Ainda assim retorno a Londres sem poder afirmar ser Basajaun uma lenda ou uma misteriosa criatura.

sábado, 23 de novembro de 2019

Chamas Mortais

Nesta narrativa o autor convida o leitor a participar de uma intrincada investigação no estado de Winsconsim nos Estados Unidos. Em uma pequena cidade de madeireiros o mistério, a crueldade humana e o inesperado são panos de fundo para mais esta obra. Colocado o contraditório da justiça feita com as próprias mãos em paralelo com o senso da justiça suprema. Asseguro que este relato se alonga devido ao fato que consideráveis detalhes devem ser por mim descritos enfatizando circunstâncias que até então presumia ser ficcional. Estávamos em julho de 1857, me encontrava a bordo do navio inglês HMS Majestic que durante vinte e três dias atravessou sete mil e duzentas milhas pelo atlântico norte navegando a trinta nós por hora. O majestic pertencente a frota inglesa tinha em torno de seiscentos tripulantes e cento e vinte metros de extensão, era o orgulho de seu capitão sir Willham Devemport. Achava-me em companhia do professor escocês James Grunier, membro da Royal Society de Londres que entre suas realizações havia aperfeiçoado o processo do motor a vapor, motivo da nossa tão longinqua viagem. Nosso destino até a cidade de Stevens Point no condado de Portage, Wisconsim nos Estados Unidos. Lá chegando deveríamos sondar o interesse dos madeireiros da região pelo motor a vapor, visto que este era um território de vasta exploração de madeira. Em meio a nossa jornada uma parada um tanto inusitada nos chamou a atenção, na costa da Irlanda do Norte atracamos, ou pelo menos tentamos atracar no litoral de Port Stewart, um local cercado por rochedos obrigando a tripulação a descarregar em botes o carregamento com fardos de mantimentos e levá-los a remo até a margem. Fatigados pelo balanço permanente da embarcação desembarcamos no vigésimo terceiro dia na Baia de Green Bay, já no estado de Wisconsim. O prefeito Burllei Folett, que também era proprietário do Jornal The Inteligence, o único informativo do local veio recebernos e acompanhou-nos até o Café Marine para um almoço, visto que já era entorno de meio dia. Juntamente com o capitão Devemport e Felipe que apresentou-se como sendo filho o prefeito dentramos ao local e nossa refeição foi, como por toda a viagem, a base de frutos do mar. A partir deste ponto penetravamos em um cenário ainda por mim inexplorado mas por deveras intrigante. Sendo eu, ronista literário do jornal matutino London Gazzete estava sempre a garimpar acontecidos que me fornecessem fundamentos suficientes para um bom artigo. Enquanto adentrávamos ao estaurante ao qual fomos guiados o nosso anfitrião indicou-nos com um aceno de mão a mesa ao qual seriamos servidos. Uma peça bem torneada em madeira clara e sobre ela alguns potes de condimentos para tempero e cinco cadeiras dispostas ao seu redor. Logo ao sentar-me recebi das mão do filho do prefeito um exemplar do The Inteligence com data do dia anterior, nele despontava como manchete principal a morte de um banqueiro de Stevens Point que segundo o jornal o fato vinha acompanhado de um terrível incêndio que teria destruído por completo a casa da vítima. ---O banqueiro era um dos homens influentes entre os madeireiros da região ! Disse Folett e acrescentou enquanto olhava para James. ---Isto poderia atrapalhar um pouco seus negócios,Sr. James. Meu colega de viagem apenas ergueu o olhar para sugerir algum interesse pelo comentário mas nada falou e cotínuou a folhar jornal. Nada mais foi dito sobre este assunto no restante do tempo. Observei que o prefeito usava um suporte de couro onde mantinha cautelosamente apoiado seu braço esquerdo junto ao corpo,e mesmo ele usando longas mangas de ma camisa de fina seda notava-se neste braço cicatrizes semelhantes as provindas de queimaduras. Breve foi nossa parada naquele localpois fomos de imediato encaminhados ao coche que era usado pelo jornal e que nos foi gentilmente cedido para levar-nos emfim,a Stevens Point. Seriamos acompanhados por Felipe, o jovem filho de Folett. Despedimo-nos então do capitão Devemport e do prefeito fazendo os evidos agradecimntos pela tenção e iniciamos nosso trageto que nos levaria a um mundo de crimes e mistério. Meu amigo James estava impaciente pela chegada e revisava minuciosamente sua papelada, fato que lhe era consiederado normal por carregar consigo a longo tempo a síndrome da Ego distonia, transtorno que fazia com que organizasse a mesma coisa por inúmeras vezes repetidamente. Felipe recostou-se a dormir em uma das janelas do nosso transporte. Enquanto eu tentava um colóquio com o cocheiro pois era o que apresentou-se de opção para a próxima hora e meia até nosso destino. ---Meu nome é Flinn. Disse o cocheiro. ---Trabalho com o Sr. Folett desde o começo do jornal e já se vão dez anos. ---Conheceo trageto até acidade de Steves Point muito bem então. Comentei a fim prolongar a conversa. --- Sim, mas só agora estamos distribuindo nosso jornal para lá, não é um local de pessoas boas, nãorespeitam quem não tem posses. Notoriamente o condutor o sr. Flinn já teria ultrapassado a casa dos cinqüenta anos e sua indumentária bastante humilde somando-se ao semblante taciturno indicavam um passado nada afortunado. ---Como disse ao senhor faz dez anos que trabalho no The Inteligence, ajudei seu dono a montar as prensas para rodar a primeira edição do Jornal, tenh muita admoração por ele, mas ee não gosta de opiniões de seus empregads. Disse o velho. ---Três vezes por semana teremos que ir a Stevens Point para entregar-lhes os Jornais, é o que estamos fazendo neste momento. --O Sr. Conhecia o banqueiro que morreu? Indaguei. Apenas uma única palavra foi a resposta. ---Não.! Respondeu o cocheiro. Perguntei sobre o que havia acontecido com o braço de seu patrão. ---A vida se mostra bastante dura com aqueles a quem reserva os maiores feitos. Foi a resposta que,sem sequer olhar a mim recebi do longevo homem. O restante do trajeto foi em silêncio até chegarmos ao hotel Linday House, um indo chalé em madeiras brancas as margens do lago Winebago,era realmente um local atraente. Ao mesmo tempo em que fazíamos nossos registros, Flinn e Felipe descarregavam os fardos do informativo que seria entregue no dia seguinte. Eu e meu colega James pernoitamos em quartos nos fundos do prédio, com a comodidade necessária para uma boa noite de sono. Enquanto Felipe e Flinn permaneceram no estábulo com o coche pois teriam que sair muito cedo para distribuição dos informativos. A noite sentia-me estar no éden, sem marinheiros beberrões a cantar inarmonicamente, os lençóis em um agradável perfume floral e sem o enfadonho balanço da embarcação. Até que quase ao amanhecer vigorosas e insistentes batidas em minha porta fizeram-me levantar de sobressalto. Achava-se parado em minha porta o jovem Felipe com os olhos arregalados e uma expressão de completo espanto. ---Sr. Lawford, houve outra morte e está uma confusão lá fora. Disse ele apressadamente. ---Avise o sr. James James e venham para praça.Dizendo isto saiu quase a correr para a praça que ficava localizada a poucos metros do hotel. Coloquei minhas vestes de um salto pois a curiosidade havia adentrado por completo em minha alma. Já na companhia de James saimos a rua e vimos uma aglomeração de pessoas que segurando tochas falavam todas ao mesmo tempo sem que se pudesse algo entender. Avistamos Felipe e Flinn próximo ao palanque da praça e fomos saciar nossa curiosidade. O xerife com cabelos grisalhos e um vasto bigode pedia calma a multidão desordenadae ordenava que voltassem para suas casas. ---Parece que o médico da cidade, sr. Eliott foi achado morto e sua casa incendiada igual ao que aconteceu com o banqueiro. Disse Felipe. Naquela região todas as construções eram de madeira, fato que deixava propensa a destruição pelo fogo mas as mortes seguidas da mesma maneira, isto já era um tanto quanto incomum. A singularidade dos fatos despertavam em mim uma intensa determinação de saber mais a fundo o que realmente se passava naquela cidade, talvez pelo meu senso investigativo ou talvez por simples prazer de conhecer um pouco mais das capacidades da alma humana e seus imensuráveis artifícios. Bem sei que devemos resguardar nossas opiniões pessoais e sempre trilhar os caminhos da razão porque talvez tenhamos mais curiosidade de saber do que capacidade de entender. Mas minha imaginação já me deixava inquieto sobre os fatos. James estava assustado com os incidentes. ---Lawford, vou retornar a Londres, não sinto-me seguro nem tampouco confiante para ficar nesta cidade. Desistiu dos negócios em Stevens Point pois os dois mortos eram na verdade, entre outras coisas, donos de grande parte do fornecimento de madeira da região. No dia seguinte partiu com Felipe e Flinn para Green Bay enquanto eu permaneci no Linday House por mais algum tempo apesar das insistentes tentativas de James para que eu retornasse com ele. Dois dias após o incêndio fui a paróquia de São Casimir próxima a praça central. Com o transcorrer dos anos percebi que em cidades pequenas os religiosos são uma inesgotável fonte de informação. O bispo Frederich não foi uma exceção e ao saber de meu interesse pelos mistérios que envolviam aquelas mortes conduziu-me até um pequeno cômodo nos fundos da capela que tinha sua construção toda em madeira escura com vitrôs em verde e laranja. Bastou apenas laguns passos para chegar ao local indicado pelo bispo, pois a capela tinha no máximo uns vinte metros em sua extenção. ---Sente-se, disse ele mostrando-me um poltrona ao lado de sua cama. ---Sei o que deseja saber, mas o que esta acontecendo agora pode nada tem a ver com episódios sucedidos no passado, mesmo assim pretendo ajuda-lo. ---O Sr. pode me dizer que episódios são estes ? Perguntei. Enquanto apoiava meus cotovelos nos joelhos para aproximar-me mais do Bispo que já havia sentado em sua cama, observei quando colocou a bíblia sobre seu colo colocando as duas mãos sobre as escrituras sagradas começando seu relato. ---A mais ou menos dez anos havia um fazendeiro polonês de nome Lechinski, ele tinha chegado a estas terras muito antes até mesmo da construção do povoado que hoje é a cidade onde estamos. A medida em que falava ele folheava vagarosamente o livro santo, como se estivesse a procurar algo. E prosseguiu falando. --- Mesmo após o falecimento da esposa, Lechinski continuou a tomar conta das terras com o auxilio de seu único filho e um homem que acredito ser um empregado. Os homens de mais posses do povoado tentaram por inúmeras vezes adquirir suas terras para fazer o cultivo da madeira mas Lechinski que cultivava milho nunca as vendeu. Fazendo uma pequena pausa o bispo Frederich tirou do livro um pedaço de papel já bastante envelhecido e entregou-me. No pequeno rascunho estava sobrescrito o nome Rouths e mais abaixo, quase ilegível , escrito Reserva de Schmeeckle. ---Vá a esta reserva e fale com o velho Rouths. Disse ele levantando-se e mostrando-me a saida do cômodo, ele certamente nada mais tinha a me dizer. Minha curiosidade ficava ainda mais aguçada. ---Os homens que morreram estão entre aqueles que queriam comprar as terras do Lechinski? Perguntei. ---Talvez sim, mas em mais nada posso ajudá-lo ! Terminou ele. Ao sair da capela fiquei tomado por pensamentos desconexos, mesmo que imaginado muitas coisas, o cair do pano , como em uma peça teatral, como um sudário a desvelar o que a crença ainda desacredita. Mas tudo era mera imaginação, sabia que a solução deste enigma passava indubitavelmente por uma visita a Reserva Schmeeckle. Rretornei a cidade e após alugar uma montaria segui meu caminho pela estrada Northbound os dezesseis kilometros que separavam a cidade da distante Reserva onde certamente encontraria Rouths. As margens do caminho numerosos pés de Ipê demasiadamente altos debulhavam flores de cor lilás por todo o trajeto.Era, era um sopro de calmaria e beleza no remanso e solitário caminho. Por alguns instantes entreguei-me a utopia de um universo ideal onde homem e natureza desfrutam da mais completa harmonia. Já quase ao final da tarde alcancei o acesso a reserva e cavalguei um curto caminho até chegar a uma pequena construção de madeira, a descoloração que o tempo impusera na velha casa era extrema. Após descer da montaria aproximei-me cautelosamente da porta que estava quase totalmente aberta, na verdade estava temeroso pois não sabia se seria recebido, ou se este Rouths realmente existia. ---Tem alguém em casa ? É a casa do Sr. Rouths?. Perguntei. Mesmo estando parado a entrada do minúsculo chalé percebi que seu interior era demasiadamente escuro, uma fraca e empalidecida luminosidade vazava pelas frestas das duas únicas janelas da desvalida morada que ainda assim permaneciam veladas. ---Sim...Respondeu uma voz rouca do fundo da casa de uma cômodo só. Uma de minhas dúvidas já tinha sanado, ele existia. ---Meu nome é Rouths,quem neste mundo de Deus esta a procurar-me? Ao pronunciar estas palavras ergueu-se sobre a fraca luz uma figura bastante sombria segurando-se em um ecosto da cadeira onde estava alojado. ---Se ainda não percebeste.Disse ele. ---Sou desprovido da visão e peço que diga-me seu nome e o que deseja. Por instantes o universo converteu-se em silencio mórbido, estava aquele velho refém de um terror sepulcral, uma maré negra, imperscrutável de miséria, a névoa indizível do mundo da escuridão. Aproximei-me e notei que algumas frutas quase apodrecidas estavam sobre uma pequena mesa e o lixo se espalhava por todo o chão da cabana. ---Sr, Rouths, venho como amigo. Respondi. ---Preciso de sua ajuda. Completei. Enquanto falava analisei o soturno local, pouco era o mobiliário e todos encostados nas paredes, os móveis desconfortáveis e bastante desgastados evidenciavam um mundo de privações para o penumbrante morador. ---Se encontrar uma cadeira...Disse ele enquanto tornou a sentar-se. ---acomode-se e diga o que veio fazer aqui. ---Preciso saber se conheceu o Sr. Lechinski ? A fisionomia do velho em nada alterou-se, seus olhos fixos em uma só direção não me permitia perceber o que vociferava sua obscurecida mente naquele momento. ---Por muitos anos esperei que alguém viesse aqui para fazer-me esta pergunta. Disse calmamente. ---Lechinscki era um homem bom, trabalhador, não queria vender suas terras pois queria ficar aqui onde foi enterrada sua esposa. --Ele morreu ? Como foi ?Perguntei. O velho, estático em minha frente respondia com extrema clareza o que lhe era indagado, estávamos no ponto mais intrigante da conversa e ele continuou sua narrativa. ---Com o surgimento do povoado e a chegada das carreteiras, homens malévolos vieram para cá tentaram sem sucesso adquirir as terras do valente polonês por preço bem abaixo do valor, até que em um cinzento dia de inverno dois pistoleiros chegaram a cidade e naquela noite toda fazenda de Lechinscki foi consumida pelo fogo, eu trabalhava na fazenda e foi tentando conter as terríveis chamas que perdi minha visão.
O que houve com Lechinscki e seu filho.? Perguntei E a resposta foi imediata. ---Após aquela horripilante noite, nem o polonês nem seu filho, tampouco os dois pistoleiros foram vistos. Comenta-se que os pistoleiros foram contratados pelos poderosos da cidade e que após incendiarem a fazenda mataram pai e filho e partiram. E os mandantes do crime finalmente tiveram as terras que tanto desejavam. A cada palavra dita pelo homem que a tudo presenciou minha intuição direcionava-me a múltiplas conclusões, era preciso saber mais. ---Quem são estes poderosos que se refere? Interroguei. ---Dois já estão mortos.Respondeu. ---Mas ainda tem dois vivos. Completou. Era quase impossível controlar minha tão grande ansiedade em conhecer os fatos. ---Quem são estes dois? Interpelei. A excessiva calma do homem sem visão mas com uma memória prodigiosa me deixava ainda mais férvido. ---O Xerife Sheldom e o coronel Bentley. Foi a resposta. Nossa conversa durou mais alguns minutos e o solitário homem disse não imaginar quem possa estar eliminando um a um os detentores das terras. Perguntei como sabia das mortes e ele disse que sempre que o bispo levava-lhe alimentos deixava-o a par dos acontecimentos.Com mais ninguém tinha contato. Mesmo sendo eu bastante resistente a sentimentos chocantes,o abandono daquela criatura era algo de desmedida perversidade, uma existência de escuridão e trevas. A miséria humana é tragicamente multiforme, a recordação do passado é invariavelmente a amargura de hoje. Uma fraca e nebulosa lembrança, indefinida mas permanente naquele homem. Estava já a entender o apetite por justiça do misterioso matador noturno e segundo minhas deduções parecia saber também quem poderiam ser as próximas vítimas. Por mais alguns dias estive a indagar pela cidade sobre Lechinscki mas tive a mais nítida sensação que todos desejavam ardentemente esquecer aquele nome ou o mistério que ele representava. Em uma das tácitas noites sentado solitário no contemplativo saguão do hotel,detia-me a observer o pêndulo do pesado relógio pendurado sobre a minúscula lareira, ele oscilava com um som vagaroso, cansativo,enquanto eu tentava colocar meus intricados pensamentos em uma vertente razoável. Já começara a alinhar pensamentos inquietos mas não tinha a cragem de procurar o prefeito ou o xerife pois certamete não seria bem recebido.q uando de súbito uma ideia pavorosa inundou meu coração como uma golfada de sangue escaldante. A morte do Polonês faz dez anos, Folett tem seu jornal em Green Bay também a dez anos. Eu precisa naquele momento organizar meus pensamentos de maneira direta, sucinta e sem especulações. A coincidência é o preceptor da descoberta, Folett tinha aquela cicatriz de queimadura na braço esquerdo, os crimes aconteceram casualmente quando o coche do The Inteligence estava a pernoitar na cidade. Seria Folett na verdade Leminscki, que sobreviveu ao incêndio? Seria Felipe,o filho de Lechinscki e estaria a vingar as atrocidades cometidas contra eles? Mas se isto fosse verdade seria muito lógico e nem sempre o lógico é a resposta certa, sentia que o raciocínio estava paralizado, pétreo sob a cintilância da pequena lanterna que emanava uma suave olência ao abrasar a citronela que a alimentava. Enquanto minhas múltiplas deduções se misturavam em um torvelinho de ideias Felipe e o velho Flinn irromperam na recepção do hotel, era a noite da distribuição dos jornais. Não hesitei em vislumbrar a possibilidade de tudo se esclarecer naquela noite, bastava que para isto minhas suspeitas estivessem exatas e Felipe deveria levar a cabo o seu maquiavélico plano de vingança. Com minha montaria percorri um longo trajeto pela noite a dentro e fiquei a espreitar o furtivo entregador, mas de nada foi proveitoso minha tão longa expectativa e acabei desapotado pelas minhas deduções voltando ao hotel. Permaneci por mais alguns instantes na recepção e preparava-me para recolher-me ao meu aposento quando escutei o titilar dos cascos do cavalos, o coche estava a sair novamente. Como havia feito anteriormente saí embusca de respostase observei ao longe o trajeto do coche, devido a distância que por segurança deveria eu manter não pude certificar-me quem o conduzia, porém depois de algum tempo alguém desceu com o corpo coberto por escura capa e ingressou alguns passos na mata ajoelhando em uma clareira onde a relva era límpida e verdejante. Esperei o estranho condutor partir e imediatamente caminhei até o local que trazia a ele extrema atenção. Um sepulcro era o motivo da noturna visita pequenas flores soltas sobre o túmulo revelavam visitas constantes, nenhuma lápide, apenas uma pequena cruz de madeira feita de forma bem rudimentar. Eu tentava aplacar o nervosismo que me dominava a cada instante, a solução do bárbaro mistério ficava ainda mais intrincada.
Mas o desfecho estava mais próximo do que poderia eu imaginar. O coche retornou a estrada certamente voltando a cidade enquant eu permaneci por alguns minutos a contemplar auqela misera cruz que o invés de ajudar-me a soluciuonar o enigma dixou-me mais confuso. Então seria melhor voltar ao hotel pois nada mais havia para fazer naquele local, ao aproximar-me da praça central já de retorno ao povoado vislumbrei ao longe as luzes da tochas e o alvoroço que o incêndio que estava a acontecer no escritório do xerife trouxera novamente. Não foi necessário acercar-me muito da praça para inteirar-me do acontecido, o xerife Sheldon ficara preso entre as chamas e estava morto. Agora só faltava um. Dando em retorno com minha montaria fui o mais rápido possível até o hotel, desmontei quase a cair do cavalo e surgi como um fantasma a luz das trevas no celeiro do hotel. O coche estava lá como eu previ que estaria e o adorador de sepulturas estava a apear cuidadosamente. Nem todas as minhas deduções estavam erradas. ---Felipe.Gritei. ---preciso falar-lhe. Mesmo com as costa virada a mim pude perceber que algo estava oculto pela capa, em suas mãos enrolado em jornais. O jovem pareceu não me ouvir. ---Quem esta no sepulcro ? porque foi lá ? indaguei. Movido por um impulso de momento fui até ele e puxei-o pelo braço. O meu espanto foi descomunal poi caiu aos meus pés um machado coberto de sangue e envolto em jornais, a cabeça do vingador noturno foi erguendo-se aos poucos e por baixo do capuz da capa o mistério se desvendara quase por completo. ---Sou eu ...Flinn. Falou ele. A tão inusitada descoberta deixara-me calado enquanto Flinn continuou a falar. ---O sr. Lawford se mostra muito esperto mas precisa saber a verdade.Sou irmão de Lechinscki, o túmulo que me viste contemplar é de meu irmão e seu filho, enterrados; juntos, enterrados por mim. Quando os pistoleiros levaram os dois para serem mortos na floresta não perceberam que eu havia ficado escondido no estábulo, então segui-os até o vale mas quando cheguei já estavam mortos. --- Estas cruelmente matando toda esta gente por vingança? perguntei. Enquanto falava, Flinn sentou-se a borda do coche. --- Quando encontrei os dois mortos fiquei apavorado e fugi. Depois de muitos dias cheguei a Green Bay,e fui trabalhar com Folett que estava a montar seu jornal, não havia motivos para lembrar tudo isto até o dia que Felipe pediu para eu o acompanhar nas entregas semanais dos jornais. Aí todo cenário remontou-se em minha mente e não podia ficar prostado frente a estes assassinos. As declarações de Flinn me fizeram rever tudo o que até então havia mensurado em minhas deduções, seria ele um criminoso impiedoso que mutila e queima suas vitimas? Ou seria ele o instrumento usado por Deus para expurgar da terra os infames que reverenciam o mal. Flinn agachou-se e segurou novamente o machado ensangüentado, ergueu-se do coche e falou calmamente. ---Serei enforcado se me entregares então de-me o direito de morrer dignamente. Dizendo isto afastou-se lentamente até a porta lateral do estábulo que situava-se as margens do lago Winebago, do local onde eu o observava paralisado, e me fe testemunhar o irmão de Lechinscki em seu derradeiro momento encostar o seu ensanguentado instrumento de vingança junto ao peito e deixar-se cair de costas nas profundas águas do lago. Ainda confuso com o desfecho o caso, sem saber de Flinn era assssino ou vingador subi até meu aposenos e o restante da noite foi de acentuado estarrecimento, permaneci até o amanhecer em meu quarto sem saber ao certo o que fazer perante tão monstruosa revelação . Mas a resposta estava a bater a minha porta. ---Meu cocheiro parece que exagerou na bebida a noite passada e caiu no lago, esta morto! Disse o Jovem Felipe quando abri  minha porta. --- Preciso que o senhor volte comigo a Green Bay. O meu silêncio suponho ser o mais correto a fazer do que qualquer outra indagação. Na mesma manhã iniciei minha viagem de retorno. <

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

O Assassino de Cameron

A Inglaterra em 1906, assim como hoje, é cheia de lugares com histórias que fazem-nos pensar, mas poucas se comparam ao singular bairro de Holloway ao norte de Londres. Este aparentemente pacífico local possuí histórias tão ricas quanto um tesouro, mas muitas destas histórias escondem terríveis segredos. Mesmo sendo um bairro de atividades rurais ele tinha em seus prédios uma legítima arquitetura vitoriana, os nobres locais deliciavam-se com o surgimento da cinemateca Odeon localizada no Park Tufnell. Era também onde residia seu cidadão mais ilustre, o escritor e poeta Eduard Lear. Um local de muitos atrativos mas também de muitos mistérios. Henrick Dupra era americano e mantinha uma clínica nos fundos de sua casa na Totman 1023, uma charmosa rua com chalés brancos e belos jardins, o sr. Dupra era um morador bastante conhecido na comunidade, um conceituado médico homeopata que parece ter levado muito a sério quando ouviu a frase ”até que a morte nos separe” pois segundo a Polícia local o jovem médico abriu o crânio de sua esposa Edna Dupra com um golpe de machado. Edna era uma cantora lírica que se apresentava como Edna Bella. E infelizmente o” felizes para sempre, infelizmente não aconteceu para este casal. Alguns casamentos são longos e outros nem tanto, mas todos repletos de promessas. O problema é que aqueles em quem confiamos podem ser os piores traidores, confiar na pessoa errada pode ser o último e fatal erro. Após o cruel assassinato o médico teria ocultado o corpo de Edna no porão de seu chalé e fugido da cidade embarcando em um navio comercial chamado Braduck. Segundo os boatos que correm mais rápido que o rio que corta Londres ao meio, ele estaria acompanhado de sua amante Rose de Levingne, uma garçonete em uma taverna nos arredores da cidade. Para a Polícia, que já conhecia a garçonete, aquela senhorita Levingne era igual a uma maçã envenenada, linda por fora mas com um conteúdo mortal. Com o sumiço repentino do casal os vizinhos estranharam as janelas sempre fechadas e chamaram a Polícia local. Após uma testemunha ter afirmado ver o médico nas proximidades do cais londrino na noite do assassinato, o inspetor Thormann ficou como responsável pela investigação do caso e tomou providências necessárias e os dois amantes foram capturados dias depois em Quebec, no Canadá, enquanto tentavam passar através do rio Sant Lorence. Henrick foi levado a prisão estadual de Cameron, no condado americano de Moure, Carolina do Norte, sua cidade natal onde aguardaria julgamento. Sua encantadora amante Rose foi enviada de volta a Inglaterra onde seria julgada pela corte inglesa. Mas ainda não havia provas do seu envolvimento no assassinato de Edna. Eu e o inspetor Thormann decidimos ir até Cameron para interrogar Henrick e saber o motivo do brutal assassinato de sua mulher e até onde a garçonete estava envolvida. O inspetor Thormann estava em seu último ano de trabalho na Scotland Yard pois sua aposentadoria esta por chegar a qualquer momento, eu já havia completado setenta e dois anos e sentia-me bastante cansado, mas não poderia recusar o convite de um amigo tão chegado como o inspetor. Então partimos para aquela que poderia ser nossa última investigaçao oficial. Depois de uma longa viagem chegamos já ao entardecer e a escura noite adensava rapidamente. Fomos diretamente a Goodmann Street 1007, onde ficava o pequeno hotel Dewberry,se fazia necessário um descaço e um bom banho quente. Dewberry era um hotel simples mas com conforto suficiente para passarmos a noite depois de uma fatigante viagem. Pretendíamos sair pela manhã até a distante Burke Prision na estrada Carthage Roout para o interrogatório com o sr. Dupra. A partir daquela manhã fomos levados por um caminho bizarro e bastante confuso, pois surgiram dúvidas e muitas especulações, mas pouca cosa foi realmente esclarecida. Já estava amanhecendo quando saímos no dia seguinte e após algum tempo viajando em um coche cedido pelo hotel desviamo-nos da estrada principal e adentramos em um estreito caminho secundário, que ao fim de uma meia hora se embrenhava em um bosque espesso que cobria toda área onde os olhos alcançavam. Percorremos certamente cerca de duas milhas através dos atalhos que já se tornaram úmidos e por vezes escuros,e encobertos por imensas árvores com seus troncos repletos de uma ramagem verde, podíamos sentir a fétida lama pisoteada pelos cavalos. Após algum tempo surgiu ao longe a penitenciária, estava situada em uma clareira e demonstrava ser uma construção muito antiga, muito prejudicada pela ação do tempo e a julgar pela sua aparência de vetustez e abandono a muito não recebia nenhum reparo em sua estrutura. Não havia fazendas no entorno, nenhum tipo de plantio, nem sequer o menor sinal de alguma atividade ao redor, tampouco o latido de um cão sugerindo que aquele disforme local era habitado por humanos. Mesmo sendo ainda dia, creio eu que era próximo de meio dia, aquele fétido local tinha uma bruma escura como se uma sombra nimbosa encobrisse tudo. Um sentimento aflitivo e angustiante se apossava rapidamente de nós. Thormann usou o chicote para apressar a marcha dos cavalos, era imperativo sairmos daquele terrífico caminho. Um local dantesco e medonho ao extremo. As celas tinam suas pesadas portas de ferro diretamente voltadas para o pátio e somente uma pequena abertura com grades permitia a entrada de um minúsculo facho de luz. Toda a construção era com enormes blocos de pedras e no interior da cela o mau cheiro era quase insuportável além de ratos que circulavam livremente por toda parte. No centro do imenso pátio havia uma enorme guilhotina montada, era a visão mórbida e assustadora da justiça dos homens. Dentro de uma cela fétida o assassino de Cameron, como ficou conhecido já estava a nossa espera. Fiquei surpreso ao ver que Dupra era um homem franzino, muito magro e imediatamente questionei com Thormann se teria ele realmente força suficiente para desferir tão pesado golpe que levou sua esposa a morte. O rosto extremamente pálido, os cabelos grisalhos e longos totalmente desalinhados. Seus olhos circundados por profundas olheiras deixavam evidente que pensamentos terríveis lhe haviam tirado o sono. Dupra afirmava nada ter a ver com a morte de Edna e somente queria deixá-la devido a pouca atenção que ela dedicava a ele e por brigarem diariamente por ela não suportar o seu vício com a bebida e jogos de azar, afirmou que jamais a mataria. Ele realmente pretendia partir com sua nova companheira e dois dias antes da morte de sua esposa havia passado todos os seus bens para o nome de Rose de Levigne. Afirmou ainda não ter motivos para querer a morte de sua esposa pois nada mais pertencia a ela a não ser a casa onde moravam e que ele deixará no nome da falecida esposa. Segundo dizia o filósofo Renê Descartes, a paixão frequentemente nos faz acreditar que algumas coisas são muito melhores e desejáveis do que realmente são, então quando tivermos tido muito trabalho para adquiri-la e no caminho tivermos perdido a oportunidade de possuir bens mais genuínos, sua posse nos mostra seus defeitos e daí vem a insatisfação o arrependimento e remorso. E creio eu, este pensamento tem muito a ver com o que esta acontecendo com o sr. Dupra, que aos sessenta anos entregou seu coração e seus bens a jovem garçonete. Era necessário voltar ao local do crime pois precisávamos de indícios que pudessem auxiliar na elucidação deste caso que a princípio parecia tão lógico e agora já era um completo mistério. Retornamos a Londres no dia seguinte e após um breve descanso saímos em busca de respostas. Ao chegarmos a casa dos Dupra já era quase noite, adentramos a casa e fomos de imediato a sala de jantar onde Thormann tratou de acender as velas do suntuoso lustre dourado que pendia sobre a pesada mesa de madeira escura, as inúmeras tapeçarias que ornamentavam as paredes ondulavam ao sopro de uma leve brisa de final de tarde vindas dos estreitos e altos corredores do chalé. As velas tremeluziam e esfumavam ao serem tocadas pelo vento. Todos os cantos do belíssimo chalé foram vasculhados mas na verdade não tínhamos a certeza do que estávamos procurando, e nada que pudesse despertar uma maior atenção foi encontrado, a casa estava toda arrumada, sem desordem, nem rastros ou qualquer coisa que pudesse levar a algum ponto de investigação. Nossa infrutífera busca não levou-nos a lugar algum, o Sr. Dupra ainda era o principal suspeito. Talvez pela nossa experiência adquirida em outros casos, não estávamos totalmente convencidos da culpa de Henrich pela morte da esposa e surgiam em nossa mente uma série de medidas que ao final eram desapropriadas aos nossos objetivos e afastavam-nos cada vez mais da solução do mistério. Seria o homeopata realmente inocente? E se fosse inocente tudo seria ainda mais complicado, pois quem seria então o culpado por um crime tão brutal? E qual o benefício disso para o assassino? O caso tornou-se público e todos queriam respostas mas nós também só tínhamos perguntas. Em uma tarde sairmos do distrito policial fomos abordados por um homem velho que empurrava uma carroça de quinquilharias. Era um mercador de nome Abdul que circulava pela cidade vendendo tapetes, caixas de ébano, bolas de vidro colorido, imagens das mais variadas origens e uma infinidade de outras extravagâncias. Segundo o que disse o velho mercador um homem de cabelos claros bastante forte com aproximadamente 1,80 de altura e usando longas botas de borracha, como as botas usadas em pesqueiros e embarcações, saiu rapidamente da casa dos Dupra no dia do crime. Abdul disse que o homem estava muito apressado e subiu em um coche que estava a sua espera um pouco mais abaixo na mesma rua e foi em direção as docas. Imediatamente o inspetor ordenou aos policias que rumassem para o porto para buscar mais informações sobre o navio Braduck, onde Dupra e sua amante foram pegos. Porem os marinheiros pouco sabiam ou não queriam falar. Mas uma informação que nos chegou através do dono de um bar da zona portuária caiu como uma luz na nossa ainda nebulosa investigação. O capitão do navio Braduck, Kriss, tinha uma irmã, e para nossa surpresa descobrimos que ela trabalhava em uma taverna fora da cidade. Não foi necessário muito esforço para ligarmos os pontos, era um quase perfeito crime, para livrar-se de Edna, a esposa indesejada e também do amante Henrick que seria considerado culpado e condenado a morte, ou na melhor das hipóteses uma prisão perpétua, se é que dá para considerar uma prisão perpétua como melhor hipótese. Parece que o mortal triangulo amoroso esta se transformando em um surpreendente quadrado. O nome do capitão do Braduck foi facilmente descoberto por Thormann e não por coincidência tinha Kriss o mesmo sobrenome de Rose Levigne. Isto ficou ainda mais claro porque Henrick contou-nos quando de nossa visita a prisão que foi sua namorada que providenciou tudo para a fuga e que após esperar por quase uma hora no cais emfim ela chegou acompanhada do capitão. Tudo parecia sair como planejado, porém os planos de Rose e de seu irmão não incluíam Henrich. Novamente me veio a mente a mesma pergunta: Quem tiraria alguma vantagem com a morte de Edna e a condenação de Henrick? Mas tudo era apenas suposições e não havia provas, a descrição feita por Abdul batia com dezenas de marinheiros do porto de Londres. E os dias foram passando, semanas, o caso não era mais o principal assunto dos mora/dores do local. Henrick estava por ser condenado por um crime que segundo ele não havia cometido. E naquele momento eu e Thormann também tínhamos dúvidas quanto ao autor do assassinato. O tempo passou e a polícia acabou liberando Rose por falta de provas do seu envolvimento com a morte de Edna. Seu irmão Kriss deixou o barco em que trabalhava em um porto canadense e não foi mais visto. Um ano depois do crime,Dupra foi julgado e condenado a prisão perpétua e trabalhos forçados pela morte de sua esposa Edna Dupra. Após ter novamente sua liberdade Rose não retornou a taverna. Em 1862 seu irmão Kriss, agora usando o nome de Debruhá foi encontrado morto em um porto em Londres esfaqueado em frente ao armazém Ocean Bleu. * A injustiça que se faz a um homem é uma ameaça que se faz a todos. – Barão de Montesquieu - 1689/1755

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Assassinato no Cais

Estávamos em 1862, o cais londrino era entre muitos lugares da cidade um dos pontos mais frequentados durante a noite. Suas tavernas e clubes noturnos traziam diversão e prazer a quem por ali passasse. Mademoiselle Nina era uma dessas lindas e encantadoras jovens que por descuido do destino nascera em uma família muito pobre. De origem polonesa, aos dezoito anos foi parar no Club Le Chat Blanc, uma das mais finas e frequentadas casa noturna da cidade. Entre aqueles muitos que tinham em Nina sua principal razão para frequentar o Le Chat Blanc estava o Sr. Debruhá, um homem grisalho, alto, na casa dos sessenta anos e muito rico. Ninguém sabia ao certo de onde ele viera e nem tampouco a origem de sua fortuna. Se dizia agnóstico, ateu, herege, ou como você queiram chamar aqueles que descreem de tudo a não ser em seu próprio dinheiro. Sarcástico ao extremo dedicou boa parte da vida a cultivar inimizades graças a sua atitude arrogante, e sentia prazer ao despejar veneno a granel com seus comentários. Tinha boa aparência, o nariz reto, sorriso irônico e uma testa larga de onde surgia o cabelo comprido penteado para trás passando por trás das orelhas e indo até o colarinho do casaco em veludo. Usava bigode mas sem costeletas, carregava no bolso esquerdo de seu colete um fino relógio de ouro com um brasão que se julgava ser de sua família. Sempre segurava com maestria uma bengala de madeira escura digna dos mais nobres cavalheiros londrinos, com o cabo também coberto do mais puro ouro. Era sem dúvida um símbolo da nobreza londrina. Naquela fria noite de inverno não foi diferente, Debruhá bebia ao lado de Nina e fazia questão de ser notado por todos enquanto sorria ao ver sua acompanhante ajoelhar a seus pés para que moedas fossem por ele jogadas no decote de colorido vestido. Porem aquela seria a noite fatal para o presunçoso fanfarrão. Após frequentar os aposentos da jovem por um longo tempo, o homem desceu ao salão para mais uma taça de champanhe, enquanto Nina sentava-se ao seu lado no canto da sala. Da porta de entrada do salão um homem acenou discretamente para a jovem que apenas balançou a cabeça afirmativamente. O homem a porta chamava-se Kominski e era o irmão mais velho de Nina. Um marinheiro bêbado que circulava pelo porto a noite a procura de alguém para lhe pagar uma bebida e muitas vezes detido pela policia londrina por pequenos furtos em armazéns do porto. A noite transcorreu como todas as outras, muita músicas, damas encantadoras circulando pelo salão e cavalheiros apaixonadamente embriagados deixavam suas moedas de ouro caírem nos amplos degotes de suas acompanhantes. Já passava de três da manhã quando Debruhá saiu a porta do Le Chat Blanc encaminhando-se até onde deveria estar sua carruagem, mas naquele horário as ruas do cais ficavam desertas e perigosas. Talvez o efeito das incontáveis taças de champanhe degustadas por Debruhá ou quem sabe sua arrogância fez com que o pomposo nobre penetrasse na nevoente noite sem qualquer preocupação. Kominski, que certamente já estrava a espreita á algum tempo esgueirou-se pelas sombras aguardou o melhor momento para executar seu propósito e vindo rapidamente em sentido contrario não hesitou em esbarrar bruscamente arremessando Debruhá contra a porta de um dos armazéns. Não houve tempo para qualquer reação pois usando sua faca com grande habilidade encostou a lâmina ao pescoço do homem fazendo com que ficasse imobilizado. Certamente o susto devolveu a Debruhá o raciocínio rápido, e pensando ser um assalto tratou de meter as mãos nos bolsos do fino paletó e jogar suas moedas aos chão para que o ladrão as pegasse, mas infelizmente para ele aquilo não era um simples roubo. Kominski sorriu ironicamente vendo sua vítima transpirar de pavor e desferiu certeiro golpe no pescoço do abonado boêmio. Sem qualquer tempo para reagir o homem foi escorregando de contas pelo paredão do armazém da companhia Ócean Bleu enquanto seu agressor introduzia cada vez mais fundo sua afiada lâmina. Kominski retirou o relógio e recolheu as moedas jogadas ao chão, mas não havia dúvidas que o motivo da morte não era um simples roubo, toda a humilhação que era imposta aos que rodeavam o requintado cavalheiro fizeram dele pessoa não grata para muitos. Após alguns segundos o irmão da jovem Nina afastou-se do local e o ensanguentado e agora já não tão prepotente Debruhá permanecia jogado ao chão ao lado do armazém. Uma agonia aguda, mortal parecia espraiar-se do rosto já ensanguentado tocando cada fibra de seu corpo e membros, que tremiam descontroladamente. Seu coração que antes batia intenso de repente pareceu estar a ponto de sair-lhe pela boca. Sentir o peito expandir em convulsões e em supremo desespero seus pulmões sorveram uma enorme e última golfada de ar. Com a expressão de total desespero soltou com um grito agudo, antes de ficar totalmente imóvel,caído sem vida em um escuro e sujo beco de Londres. Circunstância que por si só já era suficientemente estranha para ficar retida em minha mente. Eu já não visualizava nada exceto aquela cena, um cenário extraordinário e fantasticamente terrível. Quem a minutos atrás zombava do seu semelhante agora ensopava suas roupas no próprio sangue em um cais imundo. Mas o assombroso episódio ainda não havia acabado. Do alto do armazén onde me encontrava, quando olhava através do telhados via-se uma sombra gigantesca que parecia uma estranha fumaça umbrosa descendo na direção do corpo já sem vida. Certamente algo cujo significado era maligno, pois o cais envolto na escura noite emitia ruídos singulares, incompreensíveis entre os quais, gritos de tormento que jamais ouvira. A maléfica sombra talvez enviada pelo próprio demônio cobriu Debruhá totalmente e sua imagem, como se a sair do próprio corpo esvaiu-se em meio a escura nuvem.

sábado, 10 de agosto de 2019

A Morte no Nevoeiro

Estávamos no inverno de 1857, após haver saído de Londres pela ferrovia National Rail até o Condado de Doncaster, dirigi-me até a estalagem próxima a estação onde tratei Imediatamente de alugar um coche, pois meu destino era a pequena cidade de York, no vale que levava o mesmo nome. Pelas informações que tinha coletado com alguns amigos que conheciam a região, antes de chagar ao Vale passaria ao lado do rio Ucre que acompanha por grande parte da estrada e chegaria a vila de Runswick, onde a peculiaridade são as casas perigosamente construídas a beira das falésias(escarpas), misturando beleza e perigo ao local. Todas as informações a mim passadas estavam extremamente precisas e o coche e seu condutor me conduziam ao encontro do meu amigo e prestigiado médico psicanalista francês, dr. Frontin Lebranc. Segundo o que o médico me havia relatado por carta, meu nobre amigo teria desenvolvido métodos revolucionários para controle da mente, entre eles a Psicastenia, que utilizava a hipnose individual para controle da histeria. Quanto mais distante ficávamos dos vilarejos locais mais a neblina cobria nosso caminho que agora já era através de uma estreita estrada entre os charcos e pântanos, certamente pouco usados pelos agricultores nos cultivos da região. Pela janela do coche, que balançava fortemente devido as condições inóspitas do trajeto a visão dos charcos entre o intenso nevoeiro que a tudo cobria no cair da noite era, sem dúvida, algo assustador. Depois de atravessarmos os charcos e a névoa que permanece dia e noite no local, entre solavancos da carruagem chegamos ao vale de York, mesmo sendo já escuro devido ao adiantado da hora pois a noite já havia chegado não foi difícil ao cocheiro encontrar a estreita bifurcação que levava a cidade de York e ao Sanatório San Juan, meu destino final. Meu velho amigo agora com 65 anos era diretor da clínica e ali desenvolvia métodos não muito convencionais e até mesmos contestados para estudo da mente humana, pois além de eletrochoques e imersões em água extremamente gelada ainda incluíam seu conjunto de ferramentas incisões cirúrgicas para estudo da massa encefálica e também o hipnotismo, motivo de minha visita já que a muito tempo alentava relevante interesse pela metodologia. Enfim, após transpor o gigantesco portão de ferro que tinha em sua parte superior, distinta em letras grandes o nome da instituição, fui recebido pelo meu anfitrião e de imediato convidado a conhecer o incomum local. Conheci o dr. Frontin em 1860, a dois anos, quando estive na Clínica Psiquiátrica Londrina para escrever uma matéria sobre o mundo dos alienados e posteriormente publica-lá no London Gazette. Já naquele período o médico declarava seu interesse em abrir sua própria clínica, onde ficaria mais a vontade para trabalhar com seus métodos, longe da correria londrina e dos críticos. Ao adentrar no saguão da clínica já percebi que construção era muito antiga, toda em blocos de pedras escuras, era um local extremamente grande, com pilares grossos espalhados pelas laterias mas com apenas dois andares e sua ala principal ficava no térreo, sem quartos e com camas Colocadas encostadas nas paredes laterais, pois não haviam naquele gigantesco salão paredes divisórias, alguns pacientes, que sempre estavam aos cuidados dos enfermeiros ou de algumas freiras que também auxiliavam no local, permaneciam amarrados as bordas de ferro de seus leitos, certamente para sua própria segurança e outros perambulavam como sonâmbulos pelo corredor central, talvez pelo efeito de alguns sedativos. Mas no geral aquele local era uma imagem depressiva, muito distante do que eu havia imaginado. Apenas poucas janelas deixavam o ar fluir para dentro do degradante local, impregnado com o cheiro pestilento de excrementos humanos. Devo admitir ser aquilo um hórrido cenário. A alienação humana exposta em seu grau mais assustador. Seguimos nossa caminhada um tanto espantosa para mim até o fundo da extensa ala onde uma escadaria nos levaria aos porões. Naquele local permanecia em condições sub-humanas e bestiais pacientes com elevado grau de demência, assassinos condenados a morte, todos encarcerados em minúsculas jaulas aguardando o momento em que eram levados a condição de cobaias humanas e assim cruelmente fornecerem sua contribuição, mesmo que não seja espontânea e consciente para os experimentos de Frontin. Ali tive consciência da total agonia que a mente humana pode chegar, o extremo da alienação incontrolável. Gentilmente Frontin conduziu-me até onde seria meu quarto no andar superior da clínica, durante o trajeto dois pacientes despertaram minha atenção. Um deles já me era conhecido, tratava-se de Robert Roster, um jovem de Swuan Valey, que após matar a própria irmã Catarine Roster afirma ser atormentado pelo espírito da falecida, o segundo caso é uma paciente chamada Charlott Dolms, uma jovem aparentando 25 anos que segundo o médico tem total liberdade para transitar pela ´clínica, segundo Frontin a jovem esta sempre a dançar usando um retalhado figurino de bailarina. Passado dois dias da minha chegada mantinha minhas atenções concentradas na leitura das anotações sobre os experimentos em Psicastenia cedidas pelo médico, mas outros episódios despertaram minha curiosidade, um deles o fato de haver um cemitério em uma ribanceira bem próxima nos fundos do manicômio e durante a noite cadáveres eram arrastados para lá pelos enfermeiros, isto aguçava minha imaginação. Outra situação intrigante era a noite quando de minha janela no segundo andar podia testemunhar o dr. Frontin, iluminado apenas pela luminescência da lanterna que carregava em uma das mãos abrir o pesado cadeado que enclausurava todos que ali estavam permitindo a jovem Charlott, com seu desgastado traje propalar-se em meio a noite nebulosa. Os motivos daquelas saídas noturnas e para onde ela iria ainda era um mistério para mim, pelo menos até aquele momento. Recordo-me da primeira noite na clínica quando circulava pelos corredores do segundo andar para conhecer o local e passando pelo gabinete de Frontin notei que havia a fraca iluminação da lanterna que ficava em sua mesa, observando pelo vão da porta que não estava totalmente fechada percebi que Charlott estava lá, totalmente despida a jovem dançava freneticamente rodando por toda sala enquanto o velho médico admirava a cena recostado em um divã. Naquele momento pensei quem naquela sala seria mais insano. Percebo agora que alguns favores tinham seu preço até mesmo no mundo irracional dos loucos. As saídas noturnas de Charlott e o cemitério nos fundos da clínica eram situações inquietantes para mim, mas deveria ter cuidado, pois não poderia de maneira alguma me indispor com Frontin, afinal ele estava me dando toda oportunidade de estudar e observar o trabalho Hipnótico realizado por ele. Ao completar a primeira semana no sanatório achei-me com coragem para investigar, então aproveitei uma noite chuvosa e fria e avancei furtivamente pelo corredor até a cozinha, onde pela porta lateral tive acesso à ribanceira do campo santo onde as inúmeras ossadas por mim descobertas em meio a lama que escorria com a forte chuva eram uma imagem aterradora, mas meu objetivo era outro, queria saber onde se dirigia todas as noites a paciente preferida do diretor. Tentei por várias noites seguir a paciente predileta do doutrinador de mentes, mas foram noites infrutíferas. O seu desregrado trajeto repetia-se a cada noite em frente a tavernas e na área mais miserável da cidade, até que entre os casebres e populaças e encoberta pela odiosa névoa eu a perdia. Só a reencontrando na manhã seguinte na clínica. Não sei dizer porque mas aquilo tornou-se para mim uma obsessão, era imperativo descobrir qual o motivo daquelas saídas noturnas, e porque ela voltava todas as noites. Os dias foram se passando até que em uma sombria noite após seguir a jovem por logo tempo e novamente perdê-la de vista resolvi tomar outro percurso de retorno fazendo um trajeto em meio aos charcos. Certamente mais uma noite desperdiçada, naquele local o nevoeiro era ainda mais intenso, mas para minha profunda surpresa eu estava no caminho certo. Escutei ruídos vindos dos charcos e vultos a movimentar-se na escuridão, primeiramente senti um medo petrificante, depois agachei-me e fui silenciosamente até onde os ruídos me levassem e encontrei Charlott em meio aos charcos e a neblina, uma cena digna da mais implausível lenda animalesca, vi jovem ajoelhada ao lado do corpo de um corpo, entre um som que mais parecia um grunhir de um animal a vagante bailarina sugava ferozmente as golfadas de sangue que jorravam do pescoço ferido de um homem. Eu estava vivenciando naquele mórbido e terrífico momento algo que jamais esqueceria. Tão demonicamente estava a sorver sua presa que minha presença por detrás das árvores e encoberta pela nefasta neblina que cobria aquele lugar infernal não foi por ela notada. Depois de alguns segundos fugi apavorado e enquanto tentava correr desesperadamente por entre os pegadiços charcos não saia de minha mente a imagem da face de Charlott com suas mãos e sua veste cobertos de sangue. Retornei aos meus aposentos com as roupas enlameadas e tremendo quase descontroladamente, não tanto pelo frio que era intenso naque noite, mas principalmente pelo pavor que tomava conta de mim. Não sabia ao certo o que fazer, se falasse o que presenciei ao dr. Frontin poderia na noite seguinte juntar-me aos inúmeros corpos jogados na ribanceira. Se aquela monstruosidade em forma de mulher desconfiar que sei seu segredo eu poderia ser sua próxima vítima. Eu não tinha dúvidas que a situação em que me encontrava naquele momento era deveras preocupante. Após das roupas enlameadas e tomar um banho tentei descansar em minha cama, mas isto não foi possível porque dormir naquele momento era algo improvável. Até que ao amanhecer alguém bateu a minha porta. ---Sr. Lawford, o dr. esta chamando para um café em seu escritório. Normalmente o café era no refeitório juntamente com os seus colaboradores e com as freiras. Mas naquela manhã eu teria uma interpretação dos fatos pela ótica de Frontin. Logo ao entrar em seu escritório fui recebido por Frontin, que com seu jaleco branco e sua camisa xadrez e a usual gravata borboleta na cor preta. – Sente-se Lawford, você já esta há alguns dias conosco e ainda não tive o tempo necessário para expor por completo meus métodos e objetivos na clínica. Farei isto enquanto tomamos nosso mais reservadamente. Sente-me a frente de sua mesa, onde uma bandeja com biscoitos e um bule de café estava a nossa disposição. ---Como você sabe Lawford, os métodos convencionais nunca poderão entender oque se passa na mente de uma pessoa desajustadas, isto porque o seu objetivo e conter a crise e não identificar a causa. Aqui, como já pode observar trabalhamos do modo inverso, incentivamos o desequilíbrio para estudar sua origem. ---Mas isto não seria um ato desumano, levar ao sofrimento para estudar sua causa? Perguntei. Frontin apenas sorriu enquanto tomava seu café. – Veja bem Lawford, não identificar as causas e deixar que futuramente outras pessoas tenham os mesmos distúrbios sem uma possibilidade de cura apenas porque meu senso ético não permitiu que prosseguisse. Isto sim seria uma desumanidade e uma covardia. – Vendo desta maneira me parece que o sr. tem razão, mas existe algum limite para estas análises, creio eu. O médico levantou-se calmamente o foi até o ármário que estava em um canto da sala, retirando uma chave do bolso do jaleco abriu a porta e retirou uma pasta de papel facha-o novamente depois. Retornou a sua mesa e colocou a pasta a minha frente. – Com todo respeito amigo Lawford, eu tenho observado que tem um interesse especial por este caso, inclusive levando-o a se arriscar pela noite para investigar. A pasta que o médico me passou as mãos era de Charlott Dolms. ---Sei que esta surpreso com muita coisa que esta vendo aqui, mas tudo tem seu propósito. Disse o médico.--- esta jovem mulher sofre de um transtorno clínico chamado ´´ Síndrome de Renfield``, que os leigos chamam vulgarmente de vampirismo, que além da necessidade incontrolável de ingerir sangue tem a pele muito sensível quando exposta a luz solar, fato que chamamos clinicamente de ``Porfírea Eritropoiética``. – Peço que me desculpe se tomei alguma atitude que não lhe agradou doutor, mas minha ignorância quanto a estes detalhes me fizeram tomar atitudes precipitadas. Frontin apenas sorriu levemente com meu pedido de desculpas, e fechou a pasta que estava sobre a mesa. ---Não se preocupe Lawford, em seu lugar eu também agiria da mesma forma. Mas agora que já esta a par de tudo , ou quase tudo, eu o convido para me ajudar nas pesquisas e quem sabe dar a ciência uma boa contribuição. – Certamente doutor, estou a sua disposição.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

O Refúgio Sagrado

Seguia em minha montaria a tortuosa e extremamente perigosa estrada de Derbyshire para chegar a cidade do mesmo nome, na região Oriental da Inglaterra. Estávamos no rigoroso inverno de 1890, ano em que as plantações em toda Inglaterra foram seriamente castigadas. Me dirigia a Clínica Psiquiátrica Real onde meus préstimos como esculápio seria de grande valia visto quer havia um surto de febre tifoide naquela região e certamente no mundo dos enfermos e necessitados minha aparência bem incomum não seria empecilho para trabalho humanitário. Tenho meus particulares motivos para ir a um lugar tão distante para fazer a caridade, minha face não tem um agradável aspecto pois as cicatrizes deixadas pelas chamas durante o terrível incêndio que destruiu a capela da Aldeia de Kemble deixaram meu rosto e minhas mãos miseravelmente deformadas. Embora evite os lugares com aglomerações de pessoas devo me acostumar com a reação delas, olhando-me como a um animal em um circo de horrores. Sem falar certamente, nas terríveis lembranças daqueles assombrosos acontecimentos. Mas a noite estava chegando e o céu em um breu assustador,encobria as nervosas ondas do rio Derwent que se precipitam nos rochedos ao longo de toda estrada tocadas pelo vento que a cada momento parecia ficar cada vez mais forte. O seu aspeto inspirou-me verdadeiro terror e ao parar meu cavalo senti um forte desejo de voltar atrás. No entanto, imediatamente me envergonhei da minha fraqueza e continuei, saltei de minha montaria e procurei proteção na murada de pedras, mas era praticamente inútil. Naquele momento era necessário encontrar um abrigo o mais rápido possível pois uma tempestade estava por chegar com toda sua fúria. Raios precipitavam-se furiosamente como flechas de fogo no céu. Olhei pela borda do penhasco e vi uma vasta extensão de mar cuja cor escura e o vento que bramava violentamente me recordou imediatamente o quadro de Pierre August intitulada ``A Tempestade´´, mas verdade era a morte que aproximava-se e lançava sua negra sombra sobre tudo. Sem dúvida era o panorama mais espantosamente desolador e assustador que a imaginação humana poderia por ventura conceber, o ruído mais forte do vendaval que abraçava a muralha de pedras soava como um uivo de uma criatura diabolicamente feroz e assustadora. Fui fustigado pela fúria indomável do vento que fez minha montaria retornar em desabalada carreira. Ao meu lado um imenso precipício de granito luzidio e negro, por nada do mundo eu deveria me aventurar próximo a borda pois seria sugado pela força do vendaval, eu estava tão profundamente confuso e agitado pela situação perigosa daquele momento que me deixei cair a todo o comprimento no solo e encostei-me a alguns arbustos pensando ser ali meu derradeiro a minutos quando a frente avistei uma construção a frente, pensei imediatamente fugir daquela terrível tempestade. Uma luz anunciava que próximo estava de algum abrigo, ou, pelo menos, assim me parecia. Ao aproximar-me constatei que a construção era como um velho castelo medieval mas em menores proporções, sua entrada era em forma de arco que cobria toda estrada, sobre ele uma abóboda com vitros coloridos, parecia ter dois andares sobre o majestoso arco e três pequenas janelas onde uma delas, com uma pequena luz deveria ser o indício que encontraria um local seguro a um viajante apavorado. Toda a estrutura era com enormes pedras que cobria toda estrada tornando impossível seguir viagem sem por ali passar, como se a túnel fossemos obrigados a passar para entrar em Derbyshire. Iniciava ali a aventura mais extraordinária que jamais ouvira relatar algum ser mortal, ou pelo menos tão extraordinária que homem algum pôde a ela contar e as cinco horas seguintes que passei naquele refúgio despedaçaram-me a alma e despertaram lembranças e traumas a muito adormecidos no fundo do meu ser. Aproximei-me do inusitado local enquanto toda estrada tremia em sua base e o rochedo mexia-se perigosamente. Deitei-me de bruços num excesso de agitação nervosa e encostei-me a parede de pedras junto ao portal de presumi ser a entrada daquela majestosa construção, mas meu pavor era tamanho que já não bastava a vontade de viver, era imperioso rogar por uma ajuda que esteja além do que possa ver. Lembrei-me que no domingo da Sexagésima de 1885, o padre Antônio Vieira,de Portugal, presenteou-me com o livro Semen est verbum Dei (S. Lucas, VIII, 2) ``A semente é a palavra de Deus´´, então de Joelhos ao chão e com as vestes completamente encharcadas pela forte chuva retirei de meu alforje o livro e cruzei os braços segurando-o fortemente contra o peito, coloquei meu rosto quase ao chão como a implorar ao senhor um perdão imperioso, pois não queria perecer naquela tempestade como um excruciante pecador. Permaneci não sei dizer quanto tempo a suplicar pela minha bida até que através de uma pequena janela um homem vendo meu intenso desespero abriu a porta que dava entrada a estranha construção e aproximou-se, mesmo com o vento arrastando quase tudo que encontrava pela frente o homem parecia não temer a fúria dos ventos e chagando até onde eu estava ergueu-me pelo braço para levar-me até a porta, carregou-me para dentro e tratou de fechar rapidamente a porta, então pude ver melhor quem havia saído em meio a uma tempestade para salvar um desconhecido. Vestia-se como a um nobre aristocrata Londrino, com uma vasta capa escura e na mão portava uma bengala com cabo de prata em formato de cabeça de um cão. Ninguém poderia imaginar a mescla de sentimentos que me invadiam naquele momento entre a alegria e o espanto, surpresa quando me sentou a uma poltrona próxima a uma das janelas e serviu-me uma taça de vinho. Lá fora a tempestade bramia furiosamente mas meu anfitrião não mostrava qualquer preocupação. Enquanto eu ainda aturdido bebia o vinho o homem abriu a porta lateral de uma estante e pegou algumas roupas colocando-as no braço da poltrona. – Troque suas roupas molhadas no quarto ao lado. Disse ele ---Lá também encontrará sapatos secos. Ele parecia não se importar, ou, pelo menos, não deixava transparecer que notara minha aparência horrenda devido as queimaduras. Retornei a sala já com roupas secas e tentando ficar calmo, mas mantinha minha cabeça baixa, o que para mim já era de costume. De dentro do castelo se podia observar as águas em convulsões frenéticas, ofegando, borbulhando, assobiando, voltando-se em gigantescos e inumeráveis turbilhões, que certamente buscavam alcançar as portas de meu refúgio. Permaneci sentado a poltrona com as vestes secas mas ainda um sentimento de pânico dominava por completo meu corpo. Gelava-me o sangue só em pensar no perigo que passei. Observei que a sala era apenas uma das alas da construção e que as janelas ocupavam assim três lados do estranho refúgio, a porta por onde fui conduzido a entrar estava situada no quarto lado e havia pelo menos seis janelas. A mesa achava-se esplendidamente servida para um banquete, mas não havia mais ninguém na casa. Estava coberta de louça lisa e sobrecarregada de inúmeras espécies de iguarias, jarras com vinho, pequenos lampiões pendurados nas laterais da sala faziam uma fraca a alentante iluminação. Observei sobre uma pequena mesa um Quinetoscópio, uma caixa com um pequeno visor na parte superior inventada por Willian Kennedy, com a ajuda de Sir. Thomas Edison, neste inovador aparelho era possível reproduzir imagens em movimento através da gravação em uma película. Mas tudo para mim era muito vago, mas aparentemente seguro. Rompendo a diafanante teia de algum sonho era uma visão de extraordinária magnificência, uma manifestação de sofisticação e nobreza em meio aos caos. Após alguns cálices de vinho em uma taça de prata genuína com uma cruz templário gravada na parte externa e uma esplêndida refeição o estranho anfitrião identificou-se como sendo o Almirante Berthmor da real marinha inglesa, mas preferia de ser chamado pelo título herdado de sua família, Lorde Berthmor. Durante o decorrer da noite, enquanto lá fora a impiedosa tempestade jogava suas águas nos coloridos vidros das pequenas janelas fui relatando, incentivado pelo Lorde, detalhe das atrocidades por mim cometidas no passado, e a calma e a altivez,com que lorde Berthmor ouvia minhas palavras me deixava um pouco desconfortado, permanecia sentado em uma poltrona frente a mim apenas escutando, em nada dizer. – O Lorde tem algo a dizer? Perguntei --- Prejudica minha visão examinar o acontecido com fato isolado, pois examinando assim enxergarei um ou dois pontos somente, e ao fazê-lo perco de vista uma compreensão do todo, continue sua narrativa sr. Lawford. Respondeu ele. Ao confidenciar episódios de meu obscuro passado ao estranho Lorde sentia-me ao mesmo tempo desafogado de meus remorsos, sentia-me mais leve. Uma conversa inesperada, com um alguém desconhecido e entre trovões e relâmpagos que clareavam o ambiente trouxe a lembrança de fatos que devo admitir, nada tenho a orgulhar-me em deles ter participado. Mas afinal que teria eu a perder em contar algo a homem que talvez jamais volte e ver-me. – Aproveite o momento Lawford! Disse o Lorde enquanto apreciava calmamente seu vinho.---- Nunca sabemos quem mais esta a escutar nossa conversa. arrependa-se sinceramente de seus pecados e quem sabe ao sair desta casa seguindo seu caminho poderás estar perdoado de seus mais terríveis atos, sua alma livre de todas as culpas, e ainda suas cicatrizes no corpo e no espírito curadas. E sem mesmo entender o interesse de Berthmor por minhas irrelevantes aventuras fui repassando uma a umas minhas nefastas atitudes assegurando ao Lorde delas estar arrependido. Já quase ao amanhecer, quando a tempestade já havia passado e deixado como rastro apenas um imenso charco na estrada, Berthmor, creio que já exausto de ouvir minha confissão e lamúrias, ergueu-se de sua poltrona e colocou sua mão em meu ombro. – Meu nobre inesperado amigo, sua parada aqui não foi em vão pois limpaste teu coração, tua alma e teu espírito, e após descansares iras também limpar teu corpo. Amanhã certamente entenderas que nada acontece por acaso. Dizendo isto me alcançou uma almofada que havia sobre o assento de sua cadeira. – Durma um pouco e amanhã serás um novo homem, mas lembre-se, siga em frente, complete sua jornada e não retornes por esta estrada. E assim o fiz, recostando-me a poltrona que estava sentado me deixei dominar pelo cansaço e pelo excesso de vinho ingerido durante a conversa. Sem dar maior importância ao comentário feito por ele a respeito de não voltar mais pela mesma estrada e somente seguir em frente. Berthmor fechou as cortinas das pequenas janelas e retirou-se do salão, sua aparente calma me deixara apreensivo no começo mas agora já a julgava bastante normal para quem ali vivia a muito tempo. Ao acordar o sol já havia assumido seu lugar e brilhava intensamente sobre os rochedos, a tempestade tinha se dissipado. Caminhei até a janela para abri-la e meu espanto deixou-me perplexo pois ao segurar o ferrolho da fechadura para abri-la notei que minhas mãos, que até então estavam deformadas pelo fogo eram novamente normais, sem o menor sinal de cicatrizes, imediatamente fui até a mesa da sala e ergui o cálice de prata ao qual degustei vinho durante boa parte da noite e vi refletido minha face, perfeita como se a um milagre fosse eu submetido. Todas as cicatrizes sumiram como em um passe de mágica. Impossível descrever a felicidade que tomou conta de meu corpo que outrora tremia de pavor. Agora entendia porque não podia mais voltar atrás, pois naquela tempestuosa noite, ao redimir-me de meus pecados, do meu passado, recebi a graça de voltar a ser uma criatura de aparência normal. Deus fez o homem a sua imagem e semelhança, deveria eu agraciado pelo acontecido, seguir meu caminho até a Clínica Psiquiátrica Real, meu primeiro destino e lá dedicar-me a fazer a obra do meu Criador. Abri a porta do refúgio sagrado e encontrei minha montaria atrelada a um dos pilares da construção, montei imediatamente e segui meu caminho, eu tinha uma missão a cumprir. Após alguns quilômetros percebi que fui egoísta em sair da casa sem agradecer ao homem que tornou possível minha transformação de uma monstrosidade para um homem normal, resolvi retornar a dizer-me grato por tudo. E para meu espanto, ao retornar ao local onde tudo aconteceu, nada encontrei, da majestosa construção nenhum sinal.

Filosofia Patrística

A Patrística, Escola Patrística ou Filosofia Patrística, foi uma corrente filosófica cristã da época medieval que surgiu no século IV. Receb...