sábado, 23 de junho de 2018

A Dama da Ponte

A noite estava extremamente gelada, a neblina inclemente cobria toda a  London Bridge. A madrugada, juntamente com o inverno inglês, traziam a gigantesca ponte que cortava Londres ao meio, sobre o rio Tamisa, um ar melancólico e abandonado. Era quase impossível ver as águas do rio, a névoa era intensa. Porem eu já me acostumara com aquele cenário, minha residência era no numero 123 da St. Tooley, e atravessava todas as noites a portentosa London Bridge para chegar a St. Lower Thames, local onde se amontoavam tabernas e casas de jogos, meus passatempos favoritos. Naquela noite em particular, fui surpreendido por algo que jamais esqueceria, e que, com certeza, me levaria no mínimo a refletir sobre a relevância que cada um de nós atribui a si próprio. Já passava das quatro horas da manhã, havia eu erguido a gola de meu sobretudo, na inútil tentativa de proteger-me do vento que não era forte, mas envolvia-nos como em uma geleira gigantesca, quando avistei sobre um dos paredões de pedras na lateral da ponte uma fisionomia corporal que a princípio me pareceu ser de uma mulher, fato que se confirmou após minha cautelosa aproximação. Sentada sobre o muro de pedras estava uma jovem, ou assim me parecia, que ao me perceber chegando apenas virou o rosto para observar quem era o noturno transeunte, e depois retornou a fixar seus olhos nas águas do Tamisa, cobertas pela quase assustadora neblina. A poucos metros da estranha contempladora das águas observei por alguns instantes aquela cena. Uma mulher que a analisar pelos traços de seu rosto,deveria estar na casa dos trinta anos, cabelos longos escuros soltos sobre os ombros, um vestido de longas mangas na cor lilás que cobria até os pés, e sobre os ombros um imenso xale de renda preto .Não havia colares, pulseiras, tampouco brincos. Sentada com os pés na parte externa da murada e as mãos respectivamente apoiadas no colo, parecia serenamente apreciar algo em meio noite escura. Quem seria esta dama da ponte? Estávamos em 1862, a Inglaterra passava por uma crise financeira muito grande, e muitas operárias das fábricas após a demissão se aventuravam pelas noites londrinas para buscar algum dinheiro para sobreviverem. Mas a falta de adereços e o rosto sem maquiagem me lavaram a pensar que a sorte havia esquecido a figura noturna da London Bridge. – Boa noite Senhorita...posso ajudá-la? Perguntei, – Creio que não. Disse ela sorrindo. Enquanto respondia a minha indagação, mudou lentamente sua posição na murada e girou seu corpo colocando os pés ao lado de dentro da ponte, Fato que me deixou, admito, mais tranquilo. – Não pensei encontrar alguém a esta hora, neste lugar tão deserto. Disse eu, enquanto recostava-me próximo a ela.. – Nasci neste local.  Disse ela. E continuou.... – Minha mãe deu a luz embaixo desta ponte, cresci pelas vielas de Londres comendo as sobras nas portas das tabernas. – Mas estas bem-vestida, a vida com certeza legou sorte em seu caminho. Argumentei… – Recebia presentes de um distinto cavalheiro, em troca de alguns favores.. Respondeu ela...rindo de maneira discreta, quase imperceptível. – Mas isso foi a muito tempo, homens com dinheiro querem mulheres mais novas! Concluiu. Não havia dúvidas que a mulher de longo vestido lilás tinha passado uma vida de agruras e submissão. São personagens e dramas que só a noite traz, e durante o dia não encontramos. Um ser pensante mas sem ambição alguma,apenas passando pela vida, é no desprezo pela ambição,que reside – Podes dizer-me teu nome? Perguntei – Se eu falar-te meu nome como saberás que não estou mentido? Disse ela enquanto sorria, um sorriso melancólico . – Tudo termina onde começa, no espetáculo da vida o palco acaba sempre no escuro, no nada, no breu! Prosseguiu ela... ---Um pesadelo nascido dos meus temores mais profundos pegou-me vulnerável. Vestígios sussurrantes liberados pelo impiedoso tempo e pela infinda distância, pela vida miserável daqueles que para a sociedade são invisíveis. Enquanto falava,abriu lentamente seu xale, uma mancha de sangue estava estampada em seu vestido na altura do tórax. Ela estava ferida, mas parecia não se importar com o ferimento que sangrava. E contínuo…. ---A alma,quando solta é tocada por todos, mas nunca é acalentada por ninguem. Trilhando seu caminho guiada por uma mão imperceptível. O meu futuro não trarme-a nada além do meu insignificante passado refletido de volta para mim mesmo, como já disse, tudo acaba onde começa. Busquei aproximar-me, preocupado que estava com o sangue que se expandia pela frente do vestido. Mas erguendo sua mão direita aberta em minha direção a desconhecida mulher sinalizou para que eu não prosseguisse. Naquele momento pude ver entre os dedos de sua mão, enrolado, um pequeno rosário com uma cruz de madeira presa a ele. Seria possível, no momento de maior martírio daquela alma, existir algum alento divino que pudesse aplacar aquele sofrimento? Sem baixar a mão ela continuou a falar. ---Quando estou neste local sinto-me em casa, nasci aqui entre os pilares, enfrento todos os dias verdades que não posso negar, e como sempre as enfrento sozinha. Até que finalmente chego ao fim, ao meu fim, volto para casa. Dizendo isto, sem que pudesse eu fazer qualquer movimento, deixou-se cair de costas nas águas nevoentas do Tamisa. Corri imediatamente para borda da ponte, mas o que pude ver foi apenas o lilás de seu vestido desaparecendo lentamente, e ouvir o som de seu corpo de encontro as águas.  Permaneci ali por mais alguns minutos, o silencio abraçava a escuridão, os longínquos lampiões mal iluminavam seus próprios mastros, então segui meu caminho até o numero 123 da St. Tooley. Jamais esqueci a dama da ponte, e jamais fiz saber a quem quer que fosse, o que se sucedeu naquela noite.   

quinta-feira, 22 de março de 2018

O Caso da Família Hoster

Uma cidade pequena, chamada Swuan Valley, Por ela passa uma estrada, cortando ao meio o que deveria ser um próspero local para morar, parece-me mais um local onde o tempo passa vagarosamente, nela existe alguns comércios, uma cafeteria, uma minúscula igreja, uma loja de ferramentas, o escritório do xerife, o hotel Chickerien, e todos os tipos de pessoas, andarilhos, jovens, fugitivos, fanáticos religioso, e aposentados. Pois foi neste acolhedor local, se assim posso dizer, que me encontrava em fevereiro de 1893 vindo a convite de meu amigo de muito tempo,o Dr. Rosenwood. Ele tinha um instituto psiquiátrico em Baltimore, que levava o seu nome e teria vindo a Swuan Valley a fim de conhecer a Srta. Caterine Roster, uma jovem que segundo dizia seu irmão Robert na carta  que escreveu  para meu amigo passava por terríveis distúrbios mentais. De chegada fomos diretamente ao hotel Chickerian, ficando com o aposento de número 23, ao lado, no 24,estava Rosenwood. Deveríamos descansar da longa viagem de quase três horas, pois no final da tarde iríamos conhecer a família Roste, ou o que restou dela visto que os pais morreram em um terrível acidente. A comodidade do estabelecimento é que faz escolhermos este ou aquele local, mas será que o objetivo não é tornar os lugares mais comuns? pois o senso prosaico faz-nos sentir em casa. No quarto do hotel havia um velho sofá com tecido de gosto duvidoso, certamente quando novo deveria ser de cor alaranjada, uma escrivaninha de clara madeira com puxadores em cobre escuro e as paredes eram recobertas por antigo papel de parede floral em tons amarelados. Cobrindo quase todo o chão tinha um tapete, também bastante velho e o que chamou a atenção era uma mancha bem próximo a porta. No canto do quarto apenas uma pequena lamparina que com certeza seria minha única luz quando irremediavelmente a noite chegar. Não sei bem porque mas os hotéis das pequenas cidades me parecem um tanto quanto misteriosos. Quantas  pessoas já passaram por aqui? Quantos segredos se revelaram entre estas paredes? quantos ainda podem estar ocultos? Acho que minha imaginação criativa esta a passar dos limites, como sempre. Tratamos de acomodar-nos de acordo com o que havia de disponível e aguardamos o horário das dezenove horas, o qual tinha  o Sr. Robert marcado para receber-nos em sua fazenda ao norte de Swuan Valley. Com a carruagem disponibilizada pelo hotel, chegamos no horário marcada a fazenda dos Roster, a casa principal ficava a poucos metros do portão de entrada, Era uma construção no estilo vitoriano, uma vigorosa porta em madeira trabalhada com entalhes em forma de animais chamava a atenção de quem se aproximava da mansão, a fachada, que tinha três andares era coberta por inúmeras janelas, todas com cortinas em renda branca, e bem acima, uma pequena janela que presumi ser o sótão. Recebeu-nos a porta uma senhora com cabelos grisalhos amarrados para trás, usava  um uniforme preto com bordados azuis claro na gola e nas longas mangas, fomos por ela então encaminhados a biblioteca onde seriamos recebidos por Robert, fato que aconteceu poucos minutos após nossa chegada. A informação que tinha sobre o Jovem fazendeiro era por intermédio do Dr. Rosenwood, segundo o médico o proeminente jovem tinha aproximadamente 25 anos, era ex- aluno da Faculdade de Medicina de Baltimore, onde o doutor fez inúmeras apresentações, fato este que fez  tornarem-se amigos. Sua irmã Caterine era mais nova, e juntamente com o irmão administravam a fazenda após a morte dos pais. Confesso que por alguns segundos fiquei paralisado ao perceber a discreta entrada de Robert na luxuosa sala. Contrastando com o glamour do local onde estávamos, o jovem adentrou a biblioteca em passos lentos, suas roupas mesmo sendo confeccionadas em tecido da mais alta qualidade, demonstravam desleixo, o paletó de puro linho em tom marrom escuro, cobria uma camisa de seda branca, que totalmente para fora das calças do mesmo tecido do paletó, estava completamente amassada e desabotoada em seus três últimos botões. Pude perceber que Rosenwood também teve um sentimento de estranheza, pois sua testa franziu-se ao contemplar aquela figura, que mais parecia um andarilho do que um poderoso dono de terras de Swuan Valley. Após breves apertos de mão tratou o desalinhado jovem em dizer o motivo pelo qual trouxe-nos de tão longe, afirmando em sua carta que precisava falar sobre sua irmã. – Dr. Rosenwood, disse o jovem --  preciso muito de sua ajuda! E acrescentou. ---Por  várias vezes presenciei suas experiências com a mente humana, e preciso do seu diagnóstico sobre o que esta acontecendo. – Tem a ver com sua irmã?  Perguntou o médico. Neste momento o nosso anfitrião já demonstrava um certo desconforto, suas mãos pareciam-me um tanto trêmulas e sua fisionomia mudara completamente, deixando transparecer um olhar que beirava o terror, o medo. --- Sim. É sobre ela. Tem algo que quero mostra-lhes! Disse o jovem.    Meu amigo, sentado na poltrona ao lado da minha, levando a boca o cachimbo que acabara de ascender, perguntou ao Jovem…. – Quando poderemos vê-la? Levantando-se lentamente, Robert caminhou até a porta, seu estado de calmaria havia voltado e virando-se para nós disse em voz baixa…. ---Minha governanta vai mostrar-lhes seus aposentos. Descansem e quando for o momento certo eu mandarei chamá-los para ver Caterine. Imediatamente a mesma senhora, com seu uniforme preto levou-nos até nossos quartos que ficavam no segundo piso, na parte frontal da mansão. Lá havia um bule com chá de algum sabor que não pude distinguir qual e uma bandeja  com frutas e biscoitos. Posicionei uma cadeira frente a enorme janela que privilegiava uma bela visão da frente da propriedade, pois a noite havia chegado e a luz da lua trazia um espetáculo magistral sobre os campos que se perdiam ao longe. Pouco tempo foi nossa espera, a mesma senhora veio avisar-nos que éramos aguardados na varanda, um local que ficava na lateral da casa e que tinha algumas poltronas feitas em Vime, luz muito baixa, e tínhamos dali uma ampla visão da plantação de algodão. Um dos cultivos da fazenda. Ao chegarmos ao local, logo sentamo-nos cada um em uma poltrona individual, ao lado de Robert, que já estava devidamente acomodado. – Agora os senhores saberão o motivo de sua visita! Disse, e continuou... ---Após a morte de nosso pai, eu e Caterine ficamos com o dever de tocar os negócios da fazenda. Por diversas vezes disse a ela que não tínhamos conhecimento para administrar, e aconselhei vendermos as terras, assim eu poderia voltar a morar em Baltimore, e ela poderia viver no conforto com sua parte da venda. Mas ela sempre foi contra. Meu amigo Rosenwood tentou dizer algo mas antes mesmo de pronunciar uma só palavra, erguendo a mão o jovem pediu que ficássemos em silêncio para ouvir seu relato. --- Comecei a introduzir pequenas doses de Láudano em suas refeições,  para acalmar seus sentimentos pela perda de nosso pai, mas na verdade, queria eu tirar dela a lucidez deixando somente a mim e decisão de vender a propriedade. Enquanto falava sua expressão foi mudando dramaticamente, um tom de desespero foi tomando conta de sua voz, durante boa parte do relato seu rosto ficara entre suas mãos. Nós, os dois ouvintes, estávamos perplexos com o que  presenciávamos. Não podíamos crer que o irmão, sendo ele conhecedor dos métodos da medicina infringisse um tormento psicológico tão grande a própria irmã. Mas o mais inacreditável estava por vir.    A mente humana é sem dúvida um órgão incrível, o corpo ao sentir qualquer reação externa manda imediatamente sinais para o cérebro, Mas a maneira como o cérebro vai interpretar estas mensagens é uma questão muito delicada. É mais uma arte interpretativa do que uma ciência, eu creio. Pois é a partir desta interpretação que sabemos, ou pensamos que sabemos, o que esta a  acontecer. Esta flexibilidade de interpretação é que nos faz, em alguns momentos, pensar que algo não existe, quando na verdade temos plena certeza desta existência. Esta negativa vem, certamente do medo que temos de admitir algo ao qual não temos total, ou nenhum domínio. Antes que qualquer outra palavra fosse ouvida, os três sentados como estávamos, vimos sair da imensa plantação de algodão uma jovem belíssima com um vestido de cor rosa e um xale branco sobre os ombros, pés descalços, cabelo louro da cor de ouro, um sorriso que demonstrava uma alegria contagiante, com as mãos segurava as laterais do vestido, e assim rodopiava  mais e mais, freneticamente, como se estivesse a ouvir a mais bela canção já executada. Por alguns momentos ficamos todos a contemplar tamanha beleza, até que o jovem Robert interveio…. – Esta é minha irmã Caterine.  Imediatamente Rosenwood tratou de acrescentar…. – É muito bela, e parece-me muito bem. O jovem levantou-se e lentamente caminhou pela varanda que levava aos fundos da mansão…. – Sigam-me e entenderão tudo!  Disse ele. Após caminhar alguns metros, descemos as escadas da varanda e adentramos em meio a plantação até chegarmos próximo de uma área mais aberta, onde havia um grande carvalho, o tronco totalmente rodeado de flores das mais diversas cores e aromas. Era um local de beleza impar, e pelos seus detalhes demonstrava ser cuidado diariamente. – A seis meses marquei uma reunião na fazenda com alguns interessados na compra! Disse o Jovem --- E não querendo a participação de Caterine, administrei a ela uma dose de Láudano maior que o de costume, sua interferência inibiria qualquer negociação. O que aconteceu depois? Perguntei ---Fui ao seu quarto após a reunião para ver como estava! Disse Robert – Mas ao chegar lá,vi que havia exagerado na dose, minha irmã estava morta. Naquele momento uma confusão de pensamentos tomou conta de minha mente, estava eu delirante ao ver aquela jovem dançando entre a plantação?Seriamos os três loucos a ponto de deixar a imaginação dominar nossa razão? Estariam os dois irmão a brincar conosco, como crianças? – Mas e aquela que vimos a pouco? Perguntou Rosenwood. ---Aqui é o túmulo de minha irmã! Disse Robert enquanto prostrava seus joelhos ao chão...e acrescentou – O que vimos a pouco é o que me atormenta todas as noites, durante seis meses, deixando-me enlouquecido, aquela que dançava frente a nossa varanda, é o espírito de Caterine. Estas simples palavras, clara e friamente distintas, caíram no ouvido e como um liquido quente foi infiltrando-se imediatamente no cérebro. – Não pode ser, nós também a vimos. Falei ainda meio confuso. Já era impossível à minha alma negar, por mais tempo, a certeza de que qualquer coisa de terrível e de inquietante se tinha introduzido no meu espírito e que todos os meus pensamentos estavam influenciados pelos estranhos acontecimentos. Espíritos dançantes era demasiadamente forçado para minha compreensão. O jovem ajoelhado entre as flores que adornavam o túmulo de Caterine, a qual ele teria tirado a vida, estava a confessar o crime horrendo quer havia cometido.  A minha imaginação, desde o primeiro momento incendiou-se com um fogo desconhecido. O meu espírito foi desde logo atormentado pela convicção crescente de que nunca poderia definir a espectral aparição a qual presenciamos, e certamente jamais seria por mim esquecida.   Robert, em  voz muito baixa revelou o objetivo de nossa fantasmagórica missão.   ---Quero ser internado em sua clinica Dr. Rosemwood, ou levado a prisão, devo estar louco, preciso que acabe este tormento, mas se realmente a viram também, somos os três completamente loucos.    

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

O Dilema do Perdão

 

Alguns religiosos afirmam que a salvação da alma começa pelo perdão, ou seja, a redenção de nossos pecados.Pedir perdão a Deus e afirmar estarmos totalmente arrependidos pelo pecados cometidos até então.Buscar o perdão junto as pessoas as quais magoamos, ferimos de alguma forma, ou até mesmo as prejudicamos ou enganamos com nossas atitudes.Falando assim parece-nos fácil, mas na prática se torna irremediavelmente mais complicado do que parece.

Racionalizando a intenção, será que ao confessarmos a alguém que deposita em nós alguma confiança, que em algum momento a enganamos, traímos sua confiança, e talvez tenhamos causado a esta pessoa perdas emocionais e financeiras sem que ela soubesse da nossa tão grande culpa.Será que receberíamos o pleno perdão, e estaríamos nós salvos e libertos do peso deste erro?

É bem provável que após nossa confissão, mesmo que acompanhada de remorsos e arrependimentos, perderíamos a confiança e talvez até mesmo o respeito da pessoa ao qual prejudicamos ou enganamos.Mas este não é ainda o pior cenário para o perdão.Tudo fica ainda mais incerto quando este pedido de perdão esta velado ao ambiente familiar, marido, mulher, filhos, pais, irmãos, etc.

A confissão em busca do perdão, quando é feita no seio da família pode ser um atitude nobre, acompanhada de muita emoção, mas deixa profundas marcas.Um erro pode ser perdoado mas jamais esquecido, e certamente o subconsciente de quem nos esta perdoando hoje vai inevitavelmente alertá-lo que já erramos uma vez, e que é prudente tomar cuidado.Isto tem apenas uma explicação, nossa relação de confiança com esta pessoa acabou.

Se achamos que esta situação traz motivos para uma longa análise antes de pedir o tão divino perdão, melhor seria vermos por outro ângulo onde nós é que temos que perdoar.Nesta situação cabe a nós dizermos ”eu te dou o meu perdão”,quando somos bombardeados por verdades até então desconhecidas por nós, e o que é pior, confessadas por alguém que tinha de nós total confiança.

O dilema do perdão é algo que independente de crença ou credo, esta incrustado no âmago de todo ser humano.Creio não estarmos ainda totalmente prontos para assumir as conseqüências do perdão, seja ele quando nos é pedido, seja ele quando nos cabe a penosa missão de pedir.Enquanto existir um sinal de alerta em nossa mente, que chamamos de consciência, o perdão passa a ser uma formalidade emocional que deixa-nos sujeito a efeitos dos mais variados.        

 


sábado, 23 de setembro de 2017

Delírios da Noite

Salém – 1851 Enquanto dito estas palavras para que sejam escritas por minha irmã, Sandra Elisabeth, sinto-me agraciado por ainda estar vivo para contar, pois a experiência por mim vivenciada jamais sairá de minha memória. E espero que da sua também não. Há um ponto desta narrativa sobre o qual será bom fazer algumas observações, e sentirei uma grande satisfação se minhas reflexões tiverem como resultado, dar um certo crédito aos estranhos acontecimentos aqui contidos. Referindo-me aos insólitos e incomuns episódios que buscam dilucidar os diversos cenários ao qual esta exposta a mente humana, e onde a felicidade não esta, muitas vezes, na lucidez da vida terrena. A convite do amigo Nathaniel Hawthome, escritor e filósofo, fui até Salém (massachussetts) para auxiliá-lo na conclusão de seu romance The Scarlet Letter. Ele era órfão de pai, e criado apenas pela mãe e a governanta, meu amigo tinha uma educação rígida, e um desenvolvido talento para a escrita, permanecendo a maioria do tempo enclausurado em sua biblioteca. Nathaniel fazia parte de um pequeno grupo de famílias ricas de Salém, e fiquei sabendo posteriormente, que os Hawthome exerciam uma certa autoridade sobre os mais pobres que ali moravam, certamente devido grau de pobreza dos habitantes. Iniciando minha jornada em direção a Salém, cavalguei alguns dias pela estrada St. North, e antes de chegar a área mais povoada de Salém, passei pelo vilarejo St. Marie, onde havia em grande cemitério. Ao chegar a pequena vila, fiquei desolado com o estado de pobreza e abandono em que se achava a população. Encontrei ao longo da estrada, crianças que acompanhavam ao lado da montaria, famélicas, semi nuas, que mendigavam restos de comida. Nos casebres, todos de palha, centenas de doentes, abatidos pela febre morriam de inanição, mulheres com vestes esfarrapadas, com crianças no colo, ficavam esquálidas sentadas a porta de suas casas, talvez a espera de um mísero pedaço de pão jogado por algum viajante que por ali passava. O Quadro de miséria era imenso e assustador, a palavra alegria era desconhecida, tão profunda e invariável era a infelicidade humana naquele local. Depois de longa e fatigante viagem, parei para um necessário descanso de alguns minutos, pois eu e minha montaria precisávamos de água para chegar até Salém. Observei com alguma estranheza, que as cabanas da pequena vila, todas em estado demasiadamente miserável, eram rodeadas por cercas feitas com estacas, e nelas, presas com retalhos de trapos, pequenos crânios dececados, parecendo-me ser de algum animal de pequeno porte. Perguntei curioso a um ancião andrajoso e trôpego que se aproximou quando apeei da montaria, a razão de rodear as casas com algum tipo de amuleto tribal. Contou-me ele então, enquanto caminhávamos vagarosamente para a poço que havia no centro do vilarejo, única fonte de água dos habitantes daquele estranho lugar, que os pequenos crânios, colocados em estacas na frente das cabanas, eram de lobos mortos pelos moradores do local, e serviam para afugentar os maus espíritos e as bruxarias. Segundo o longevo morador, durante a noite, todos permanecem trancadas em suas casas, pois espíritos vagam pela região, e em algumas ocasiões, buscam comunicar-se com alguém da família. Após mais algum tempo de viagem, cheguei ao meu destino, a noite estava bastante escura, no céu nenhuma estrela, o vento, com rajadas fortes, varria as ruas desertas, e soava como o uivar de um animal faminto, em busca de sua caça. Mesmo que a noite estivesse apenas começando, as ruas de Salém encontravam-se desertas, e mesmo com a noite sombria, não foi difícil encontrar a casa de Nathaniel, era um belíssimo chalé de madeiras escuras, contrastando com as cabanas cobertas de pobreza que se espalhavam por toda vila. Fui recebido calorosamente pelo anfitrião, e na companhia de sua mãe Salett, jantamos e trocamos boas hilaridades, para que então fosse eu conduzido ao aposento, que esperava trazer descanso a meu corpo extenuado pela viagem, mas infelizmente o tempo não colaborou. Uma forte tempestade de nordeste, fez-se sentir durante toda a noite, e atirou contra minha janela, galhos dos ciprestes que haviam próximos a casa. Sua força era tanta, que cheguei a recear que as janelas romper-se-iam a força dos ventos. Devo dizer que foi uma noite um tanto quanto agitada, onde pouco foi o tempo em que consegui dormir. Na manhã seguinte, a terrível ventania já havia passado, então após degustarmos um café com ovos mexidos e torradas, saímos até a praça central do vilarejo, onde presenciei algo que me fez acreditar que a severidade dos métodos, estão muito além daqueles suportáveis pela raça humana. Na praça localizada no centro do vilarejo, um jovem, creio eu, estar ele nos seus vinte e poucos anos, era chicoteado severamente por um representante do comitê de justiça local, se é que isto pode ser chamado de justiça. Ao perguntar a Nathaniel o motivo, disse-me ele. – Este homem roubou um carneiro, foi pego quando levava o animal para  casa. Todos observavam, como se estivessem a ver um espetáculo, homens e mulheres, algumas delas usando toucas, talvez para esconder o rosto, assistiam ao teatro de horrores que ali era apresentado, sorriam e gritavam enquanto o chicote fazia sangrar as costas do infrator. Mais afastado, um homem com uma vasta capa escura, e chapéu com abas largas, que quase lhe ocultavam o rosto, se fazia presente e reverenciado pelos delirantes expectadores, era o reverendo Pricce, a maior autoridade de Salém. Uma cena por demais bizarra, quando personagens como aqueles, tomavam parte no espetáculo, sabendo não haver risco à autoridade ou à reverência devida a seus cargos e posições, era seguro concluir-se que a execução de uma sentença pública ganharia grave e eficaz significação, mostrando a todos a força da santa igreja e de seus honrados membros. Mas seria ele, realmente merecedor daquelas homenagens tão fervorosas, durante um castigo tão desumano? Não haveria, por acaso, um exagero, em gravar o nome deste homem com a epígrafe dos escolhidos por Deus. A cena não deixava de causar certo horror, como deve ser sempre que se está diante de um julgamento de culpa, vergonha e castigo, infligido a outro ser humano, é uma pena que a sociedade em questão, se tenha deixado corromper suficientemente, a ponto de sorrir, em vez de se arrepiar, diante do que estava vendo. O escárnio dos aldeões, com certeza, seria o castigo maior que as próprias chibatadas que sangravam as costas do penalizado. Permanecemos o restante do dia na biblioteca de Nathaniel, um local onde centenas de livros ficavam dispostos em prateleiras que cobriam as paredes de pedra que rodeavam a sala. Enquanto fazia a leitura de sua obra, que ainda estava inacabada, o jovem escritor contou-me de sua intenção de mudar-se para Boston, e com a influência de sua família, poderia galgar uma carreira política. Com nossa atenção na leitura dos textos, as horas passaram rápido, já era noite quando sua mãe bateu delicadamente a porta, chamando-nos para jantar. O jantar foi primoroso, pato ao molho de laranja, vinho tinto seco e mouse com as frutas do pomar da senhora Salett, e não ouve como evitar sucumbir ao pecado da gula, perante uma refeição tão deliciosa. Em seguida fui direto aos meus aposentos, pois pretendia ter uma serena noite de sono, porém, eu não poderia jamais imaginar o que estava por acontecer comigo, a partir daquela noite. Em poucos minutos adormeci, e em sono profundo, um devaneio invadiu meu subconsciente, nele, estava em um vale repleto de árvores, em uma estrada cercada por grandes acácias, e no final da estrada estava ela, Aurora. Em meu delírio ela retornou, com sua beleza singular e olhos brilhantes como rubi, os ombros cobertos por um fino manto de seda rosa, e um delicioso perfume de jasmim. Mesmo sabendo estar naquele momento, distante da realidade, que era apenas um sonho, era maravilhoso poder estar com minha falecida esposa novamente, mesmo que por breves instantes. Pela estreita trilha que se distanciava cada vez mais por entre as árvores, ela seguia lentamente, como se a me convidar a segui-la, sorrindo a demonstrar uma alegria carinhosa ao ver-me, era um momento quase indescritível. O que até então, nunca passara de mera utopia, agora se materializava diante de meus incrédulos olhos, aquela que por muitas vezes fez meu coração transbordar de felicidade, estava a alguns passos de mim. Mesmo distante, ouvia a meiguice de sua voz. – Senti sua falta Lawford. Dizia-me ela Mesmo sendo uma loucura extrema, gostaria que ela ficasse comigo, era insano de minha parte crer que minha amada esposa poderia voltar dos mortos para falar comigo, mas ali estava ela, bem diante de mim. – Sinto tanta saudade, não acredito no que está acontecendo. Respondi. Havia, porém, períodos em que a cena toda, parecia desaparecer diante de meus olhos, ou ao menos vacilar indistinta à minha frente, feito um amontoado de imagens espectrais delineadas de forma imperfeita. E a imagem foi aos poucos se desfazendo. – Aurora, Aurora, não vá. Implorei aos gritos. Ao escutar-me, Nathaniel foi até meu quarto e abriu vagarosamente a porta, chamou-me, primeiro em voz baixa, e sem fechar a porta, entrou silenciosamente, mas não obteve nenhuma resposta, não consegui pronunciar uma só palavra, ele fechou depois a pesada porta e falou-me num tom mais alto, e ainda mais alto, mas eu estava entorpecido, precisava de algum tempo para dissipar toda a confusão que havia em minha mente. Sentei-me na cama com o coração palpitando de impaciência, comecei a procurar os fósforos e as velas, precisa de luz no ambiente, me sentia perdido, esquecendo por completo a presença de Nathaniel, que segurava um lampião. Lembrava-me vagamente de os ter guardado em qualquer parte, antes de adormecer, deveria ser perfeitamente capaz de me lembrar do local preciso onde os tinha deixado. Mas agora era em vão que me esforçava por me lembrar de qualquer coisa, estava atordoado. Uma inquietação indefinível pesava em meu espírito já um bastante perturbado. Procurei, mas confesso que sem êxito algum, dominar a sensação de temor que me invadia. --- Lawford, esta tudo bem? Perguntou Nathaniel. --- Sim..creio ter passado por um pesadelo, ou sonho. Respondi. Meu corpo e minhas vestes estavam encharcados de suor, sem forças para levantar-me, deixei-me cair na cama novamente, e creio eu, ter adormecido até o amanhecer. No dia seguinte muito pouco foi meu auxílio a Nathaniel, embora seus esforços em levar-me novamente a conhecer Salém, e expressar seu contentamento por ter-me como apreciador de sua obra, mesmo ainda inacabada. Nada afastava de meu pensamento a figura de Aurora, Como se a dizer-me “Estou bem, fique comigo”. Fomos até a paróquia de Pricce, e logo na entrada, uma tela pintada na parede despertou por instantes minha atenção, a imagem de Jesus segurando um coração em suas mãos, chama-se “meu coração divino” e segundo a história, Jesus veio até Margaret Mary, seu coração estava tão cheio de amor, que não podia mais conter as chamas da caridade, e Margaret Mary, tomada pelo amor divinal, suplicou ao senhor que tirasse seu coração, e assim ele o fez, colocando ao lado do seu, até queimar com as chamas da paixão. Após isto, ele o devolveu a Margaret, fechando seu ferimento com o toque de sua abençoada mão. Lembrei-me imediatamente da morte de minha Aurora, quando meus dedos trêmulos de amor, cerraram suas lívidas pálpebras. Recordações que desejo esquecer, mas quando queremos esquecer algo, parece que mais ele se materializa em nossa memória. Tento não pensar a uma época anterior a esta, procuro focar só no que vejo e conheço agora. O passado é um sonho, ou pesadelo, do qual desperto todas as manhãs, e busco conciliar o que sou hoje, ou pelo menos o que sobrou de mim, com o que realmente gostaria de ser. O dia parecia retardar-se a anoitecer, eu poderia estar insano por conjeturar tal possibilidade, mas queria, mesmo na imaginária nuvem dos sonhos, estar mais uma vez com ela. E assim se sucedeu, até que dias e noites tornaram-se iguais para mim, ficava permanentemente em meus aposentos, com a ausência do sono, uma bebida era o caminho para entorpecer meus sentidos, e levar-me mais e mais ao encontro de minha amada. Descuidado com a alimentação, e ingerindo grande quantidade de bebidas, fui tornando-me demasiadamente debilitado, e por vezes, como louco demente, tinha estapafúrdios devaneios, o que fez Nathaniel escrever a minha irmã Sandra Elisabeth, em Black Rivers Falls, solicitando sua presença. Para meu amigo, eu havia enlouquecido completamente. Era extraordinariamente lindo os momentos que passava com Aurora, sentimentos magníficos afloravam a cada momento naquele bosque, como se a muito já estivéssemos lá. A realidade para mim era indesejada, queria eu permanecer naquele divino sonho. Alguns freudianos acreditam que o déjà-vu representa lembranças reprimidas escapando do inconsciente, e que significam um desejo de ter uma segunda chance, de corrigir algo, em algum lugar. Era o que eu tinha naquele momento, uma segunda chance. Quando Sandra Elisabeth chegou a Salém, depois de uma longa viagem, juntamente com o Dr. Hyde, meu estado já era bastante crítico. Mas dentro daquele moribundo corpo estava um coração repleto de sentimentos a muito não experimentados, alegria, felicidade e paixão. Em meus raros momentos lúcidos, relatei os fatos que me levaram a preferir a inebriante inconsistência dos sonhos, do que a fria e melancólica realidade. Talvez na próxima noite, que já se aproxima, possa eu, em definitivo, estar junto com quem mais amei, e amarei, por toda vida.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O Estranho Passageiro

O movimento dos demais passageiro que subiam apressadamente, e quase lotavam o luxuoso vagão do trem, que pelas próximas três horas, me conduziria a Baltimore, cidade que há muito não visitara, fazia a ansiedade da viagem ser felizmente trocada por uma breve euforia. Estava me dirigindo a terra de meus ancestrais, lembro que quando da minha última estada por lá, era um local um pouco solitário, mas pacífico, o que não deixa de ser convidativo, comparado a correria desenfreada das cidades em acelerado desenvolvimento, como era o caso de Londres. Ao sentir-me devidamente alojado,observei ao meu lado um cavalheiro, que pela aparência facial deveria estar na casa de seus trinta anos,trajava um sobretudo bastante pesado,o que era natural nesta época do ano, devido a queda relevante da temperatura. Apressava-se em abrir o jornal matutino,exemplar igual também tinha eu adquirido antes do embarque. Foi ao tentar acomodar-me, mais uma vez, na poltrona para iniciar a leitura do jornal, que fui surpreendido por um leve solavanco, e olhando pela janela, logo pude verificar que finalmente estávamos a caminho, e enquanto o trem deslocava-se lentamente pela estação, já quase encoberta pela neblina do final de tarde, ainda pude ver ao longe a figura dos lanterneiros com seus bastões de citronela, há acender os pomposos lampiões de rua. Pela janela, podia ver ao longe, a fumaça escura das chaminés das fábricas, era a evolução chegando através da máquina a vapor, trazida até nós por James Watts, que chamou seu invento de máquina de Newcomen. Durante o trajeto da viagem, pude apreciar as inigualáveis belezas da natureza, a relva que parece não ter fim, mesmo coberta por fina camada de gelo, nos remete a pensar onde começa e onde termina o universo. As pequenas janelas do vagão estavam todas fechadas, devido ao forte vento que soprara lá fora, causando um leve embaçamento nos vidros, fato este que já a muito tempo não presenciara, e que confesso, deixou-me um pequeno sentimento de nostalgia. A jornada se tornara agradável, visto que uma das minhas predileções é viajar, para buscar inspiração para meus textos, e compelido a revisar os rascunhos, que por mim seriam entregues ao editor do jornal, fui então interrompido pelo cabineiro, homem de elevada estatura, com um surrado uniforme azul escuro, que nem tão escuro era, devido ao tempo de uso, e me solicitou o bilhete de passagem, ao qual passei-lhe as mão de imediato. Após fazer um pequeno furo no canto do bilhete, estendeu a mão devolvendo-o, e em voz baixa e rouca desejou-me uma boa viagem. Notei uma certa inquietude em meu nobre companheiro ao lado ao lhe ser solicitado seu bilhete de viagem, colocando ao lado da poltrona o jornal, que pelo fato de tê-lo manuseado tanto e tão repetidamente, já estava em um estado de completo amassamento. O homem vasculhou cuidadosamente e por mais de uma vez todos os bolsas do grosso sobretudo, mas sem sucesso, então percebi então que meu companheiro de viagem, passava por um momento delicado e constrangedor. Tomado pelo impulso e sensibilizado com o fato, perguntei ao nervoso passageiro para onde se dirigia? ---Sant Merie – respondeu ele, e acrescentou ---Estou deveras envergonhado, parece que perdi meu bilhete. Olhando atentamente para mim, creio eu, esperando uma reação favorável, com certeza. Perguntei ao cabineiro a valor da passagem até o destino de meu inesperado amigo, e após obter a resposta, efetuei o pagamento, passando o tão desejado bilhete as mãos de seu dono por direito. ---Sou muito grato, senhor. Disse o estrango passageiro. Um silêncio marcou uma longa parte do restante do caminho, até que o homem levantou-se, e erguendo as mãos buscou uma pequena maleta que colocara no porta bagagem, na parte superior do vagão. Retornando ao assento, retirou da maleta um pequeno livreto, e estendendo sua mão ofereceu-me o exemplar. ---Descerei na próxima estação disse ele, e concluiu ---Como o senhor pode ver, estou temporariamente com dificuldades financeiras, agradeço a gentileza de pagar meu bilhete, e deixo-lhe o primeiro exemplar de meu livreto de contos e poemas. Colocando o livro sobre a velha maleta, pela primeira vez durante o percurso o homem sorriu brevemente, para depois entregá-lo a mim. Disse seu nome, e logo após fazer isto desceu rapidamente em seu destino. Por alguns momentos fique sem saber o que fazer, se observava o estranho viajante que se afastava rapidamente, ou me dedicava a conhecer suas qualidades literárias, visto que estou com seu trabalho em minhas mão. Resolvi então fazer da leitura meu próximo companheiro de viagem, já que minha estação de destino estava aproximando-se, o escrito que recebera estava em capa com gravuras e numa cor escura que aproximava-se muito do cobalto, e havia apenas a figura de um pássaro que assemelhava-se a um corvo, ou algo assim, sem nenhuma inscrição como título principal. Apenas na parte inferior da capa o nome de seu autor, meu inesperado e ainda desconhecido amigo de viagem. Edgar Allan poe

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

paris, Meu Amor

 

Um final de tarde chuvoso

Um frio agradável.

Minha atenção vacila

entre a xícara de chá

e o som suave do piano.

 

Uma apaixonante canção

“13 jours La France”.

Um ambiente convidativo

“ Le Blanc Café.”

Na Champs Elisees.

 

É fascinante observar o movimento.

Transeuntes com seus coloridos guarda chuvas.

Mas sem nenhuma pressa

Como a contemplar o entardecer

naquela fria tarde de inverno.

 

Paris transmite tranqüilidade

Paris é inigualável

Paris encanta

Paris,  reduto dos amantes

Âmago das paixões.

Paris, meu inesquecível amor.

 

 

 

 

 

 

 


terça-feira, 23 de agosto de 2016

A Carta de Edgar


Em fevereiro de 1851 recebi em minha residência na rua St.. Tooley 123,uma carta escrita por meu amigo e escritor Edgar A. Relatando em detalhes o infortúnio de ver o chalé em Boston,onde tinha sua biblioteca ser consumido totalmente pelas chamas.
Após tomar conhecimento do lamentável acontecimento, descrevo com muito pesar,palavra por palavra o seu conteúdo:

Prezado amigo Lawford...
Depois de restabelecido do calamitoso incêndio que transformou em cinzas minha moradia,escrevo-lhe retratando neste compêndio minha imensa aflição.
Já era madrugada de terça feira quando o coche  conduzia-me de retorno a minha casa no número 103 da rua Dorchestes,em Boston,após uma noite de frivolidades e bebidas no Le Chat Blanc Club.
O clarão que iluminava quase todo o quarteirão,e os estalidos das madeiras do chalé já denunciavam que algo de muito terrível estava acontecendo.Ao aproximar-me percebi o local que onde tinha,por algum tempo,escolhido para ser meu domicílio,estava sendo engolido pelas labaredas.
Tal foi minha tão grande angústia que esmorecido,sente-me ao chão, do lado oposto da rua.Ainda sob o efeito do que havia consumido durante a noite e tomado de grande aflição pelo que presenciava,veio-me um riso débil,uma hilaridade descontrolada,minhas pernas infirmes não  deixavam erguer-me.As árvores,a rua,o céu escuro,os bombeiros que corriam desordenadamente,tudo estava diferente,tremeluzindo em imagens difusas.Minha mente estava extremamente perturbada,e o  riso inadequado em um trágico momento,transformou-me em pândego em meio ao caos.
Perder tudo nos dá um certo censo de liberação.No início lamentamos,depois sentimo-nos desnorteados,mais tarde faze-se um inventário das perdas e imaginamos como a vida será empobrecida daí em diante.Passamos então a lastimar pelas coisas que foram repentinamente tiradas  de nós,e sabemos que muitas delas jamais as teremos novamente.Sem mais ter o que sempre tivemos tornamo-nos outra pessoa,tornamo-nos qualquer pessoa.É a máscara da liberdade escondendo a face do abandono.
Aos pouco a Dorchester foi ficando vazia,apenas a fumaça acinzentada que vinha dos escombros e entrava em minhas narinas como fogo,e uma gaiola que milagrosamente foi salva das chamas,faziam-me companhia naquele cenário de desolação .
Restava-me agora uma gaiola com um pequeno pássaro e um grande alívio,por não mais precisar preocupar-me com nada a não ser escrever.
Um abraço.. Edgar A.    




         





Filosofia Patrística

A Patrística, Escola Patrística ou Filosofia Patrística, foi uma corrente filosófica cristã da época medieval que surgiu no século IV. Receb...