segunda-feira, 10 de junho de 2019
Prazer e Pecado
A única maneira de livrar-se de uma tentação é incontrolavelmente entregar-se inteiramente a ela. O devanear é um prazer perfeito e deixa-nos maravilhados, não existe vergonha no prazer pois precisamos sentir felicidade, mas a sociedade hipócrita pede que sejamos lúcidos, mas quando somos lúcidos o tempo todo raramente somos felizes. Por outro lado quando deixamos fluir o que de insólido esta dentro de nós sentimo-nos felizes e isto é extremamente bom. Nenhum ser civilizado arrepende-se do prazer pois somos presenteados com duas coisas maravilhosas, a juventude e a beleza, elas devem ser vividas com toda sua força e irreverência, com seus inúmeros exageros. Nossa vida não é feita de momentos perdidos, mas sim, daqueles que vivemos intensamente e que ficam gravados em nossa memória. Sempre devemos fazer prevalecer a chama mais forte, seja ela branda ou encandessente.
Algumas coisas são preciosas demais justamente pelo fato de não serem duradouras, a natureza sabe muito bem disto e devemos muito a ela, ou ela a nós, não sei ao certo. Mas oque sabemos é que envelhecemos, ficamos com marcas no rosto e na alma porque os deuses são cruéis e possessivos, e fazem de nossos pecados pesadas cruzes a serem postas em nossas costas. Na juventude não existe limites para a beleza assim como na velhice
não existe limites para a deformidade. Somos sufocados por nossa servidão social e aprendemos que o que é sagrado não pode ser tocado, tememos nossas mais íntimas paixões, um temor que vem desde o berço, temer a Deus, temer os pais ,e temer a sociedade e suas devastadoras doutrinas.
Somos ensinados sempre a acovardar-nos em auto negação, mas a vida nos ensina que todo desejo reprimido acaba por envenenar a nós mesmos. A vida deve brilhar com sua chama forte e inebriante pois sua luz não cega a ninguém e seu calor a ninguém queima. É preciso submergir para os prazeres do mundo, mas sabendo que é por sua conta e risco e tudo que deixa-nos extasiados tem seu preço. Tudo acontece muito rápido e quando damo-nos por conta a vida já passou. Mas todo charme do passado, creio ser justamente este, algo que já passou, algo que transpassou seu limite de tempo e espaço.
Os vapores multicoloridos, as vozes em murmúrio, o giro deslumbrante de tudo ao nosso redor, não sei se é felicidade mas causa-no um extremo prazer, sem culpa e sem temores, pois em breve será passado. Vagamos pelas avenidas imprevisíveis do subconsciente pois a natureza humana é um mistério que a luz da razão não consegue alcançar.
sexta-feira, 10 de maio de 2019
Manicômio do Terror
Clínica Psiquiátrica Real
Derbyshire-1890 -
A insanidade, o desespero, a fúria incontrolável, a loucura violenta que deteriora a mente, a deformação do ser humano. O fogo que lacera a carne, a lama que congela os pés, a fuga de uma lucidez sem rumo.
O abandono absoluto da realidade, os trapos encardidos que cobrem as minúsculas janelas, a angustia e a agonia incontida da alma. A luz precária, a chama trêmula, o ruído amedrontador das correntes, o odor ferruginoso das grades.
Deus chora por nós, pelos desequilibrados, pelos alienistas, por onde o cavaleiro das sombras cavalga, onde a espada do inferno nos ataca barbaramente. O maligno infiltrando-se em nossa alma, e a constante inconsciência que nos atormenta. Transborda o cálice do demônio escorrendo seu néctar de terror pelas fétidas paredes de pedras.
O caos extremo do espírito, a degradação humana, a razão refém da bestialidade, a alienação devastadora da alma.
A revelar-se o animal adormecido dentro de cada ser humano, delirante, enfurecido, bizarro. A cruz que não alimenta a fé, a luz que não dissipa as trevas, a crença que desmorona como as pilastras de um templo em ruínas.
E o mal se propaga promiscuo e voraz a dominar as criaturas que a debilidade recrutou.
Convulsões, histeria, gritos, tudo para ser estudado em uma ciência imprecisa, experimentos vão ao limiar da inconsciência e só então o choque elétrico libertara o espírito do hediondo sofrimento. Amarre-se aquele que está com o maligno, deixe debater-se pois vamos estudá-lo. Tudo pela evolução da ciência, tudo pelo bem do conhecimento .
Na sombra tirânica da cruz a violência está a brotar pelos escuros e sujos corredores, pelas celas úmidas, nos colchões esfarrapados onde ficam aqueles que a irmandade chama de escória. O cheiro de éter se espalha pelo mórbido ambiente. A cabeça a bater na parede, mostrando a violência do instinto incontrolável, é mais um delirante a escorrer seu sangue pela parede pútrida da cela, aí vem a morfina, e o sono profundo.
O lunático com o olhar estático como se pudesse atravessar paredes, ver o infinito, as mãos trêmulas, os pulsos esqueléticos, as cicatrizes na alma, uma fuga da vida em vão, sem propósito. Do outro lado das grades estão as freiras, o hábito, o rosário, mas também o chicote, o ferro em brasa a transpor a carne, o castigo divino em forma de fogo.
O tilintar dos cascos dos cavalos, é o carroção fechado, o cadeado a bater na grossa porta de ferro, alguém a espreitar pela ventana, é mais uma remessa de miseráveis indesejados pela confraria mesquinha.
Somente Deus pode lançar uma praga como punição por nossos possíveis pecados, mas nem toda praga é obra de Deus, existem homens que acreditam terem o imenso poder de Deus.
Já é noite, pelos sujos e pequenos vidros da minha janela a luz da lua invade o acanhado cômodo realçando a precariedade do mobiliário, ouço gritos de desespero e gemidos vindos das imensas alas do manicômio.
Tento não sucumbir naquele mar de insanidade e tortura, cobrirei
meu rosto com as mãos e chorarei de remorso por ver no que me transformei, e então farei como faço todas as noites, uma dose de ópio e adormecer até o próximo dia.
quarta-feira, 10 de abril de 2019
O relógio de Ouro
Para esclarecimento ao leitor parece-me oportuno entrar em alguns detalhes deveras necessária a esta explicação pois é feita com o intuito de narrar com a mais pura veracidade possível a terrível cena de que foi teatro o local a que irei me referir.
Já era noite alta e a taverna O Gato Azul, na verdade nunca consegui entender porque este nome nem tampouco teria visto alguma vez um animal com tal cor, mas emfim o local estava como sempre lotado, entre marinheiros e trabalhadores do cais londrino misturavam-se escritores, filósofos, médicos, e o mais variado tipo de clientela. Pelo exame comparativo de suas dependências e mobiliário posso afirmar que o local desde a
sua origem teve o mesmo aspecto que atualmente conserva. Quanto a data desta origem sinto não ter conhecimento, e se assim posso considerar em face a antiguidade seriam dos primórdios da área portuária londrina.
O taberneiro Edmondo acabara de trazer-me uma caneca com a mais pura bebida destilada da região quando chamou-me a atenção um marinheiro que descobri chamar-se Aron Kominski. Gabava-se de façanhas no mar e em terra, e é claro, pelas suas narrativas nunca teria perdido uma briga. Naquela noite Kominski estava a pagar rodadas de bebidas aos acompanhantes que o rodeavam, fato que era de se estranhar, pois sua condição financeira era sempre muito precária, já embriagado falava com muita fluência e balançava em sua mão direita um relógio
de bolso, aparentemente pelo seu brilho do objeto em sua mão coberto com uma camada de ouro, com um brasão em sua parte frontal e seguro por grossa corrente, provavelmente do mesmo material. Em sua alegria desmedida o marinheiro gritava enquanto era abraçado pelos seus colegas de infortúnio de beira do cais:
--Hoje eu bebo e pago, estou com meus amigos e ninguém vai me colocar pra fora desta espelunca. Fato que por diversas vezes já acontecera quando o beberrão marinheiro não pagava o que consumia e Edmondo o colocava para fora da taverna.
Mas o inimaginável ainda estava por vir. Em meio a fraca iluminação que vinha dos lampiões colocados nas paredes laterais ergueu-se de uma mesa ao fundo do estabelecimento um jovem que aparentava estar entre os seus vinte e cinco e trinta anos e lentamente se aproximou do balcão onde estava nosso alegre marinheiro. Tinha o vem a cabeça altiva e os cabelos bem penteados, seu traje compunha-se de uma capa preta ajustada típica da burguesia londrina e de e um dos bolsos saíra a ponta de um lenço aparentemente de fina seda vermelha. Calças de nanquim preto, sapatos
pretos com saltos elevados a carregava debaixo do braço esquerdo um chapéu pequeno de abas estreitas no mesmo tecido da capa.
Mesmo sendo discreto o indivíduo apesar do aspecto muito nobre tinha qualquer coisa na fisionomia que nada de bom pressagiava. Sua maneira de olhar me dizia que nenhum pensamento positivo vociferava em sua mente naquele momento.
Aproximou-se do balcão da taverna e se postou a frente de Kominski falando em voz clara e solene.
– Gostaria de comprar seu relógio, será que posso vê-lo?
Já imaginado uma vantagem financeira o marinheiro passou de imediato o objeto a ser negociado as mãos do jovem comprador e acrescentou.
– Seu antigo dono era um nobre cavalheiro de londrino e por isto não posso vendê-lo barato.
---Realmente pelo brasão que esta gravado nele posso ver que se trata de um objeto de uma tradicional família. Retornou o jovem.
– O sr. poderia me dizer como este relógio chegou em suas mãos?
Marinheiro mostrou-se incomodado com a pergunta.
– Se não quer comprá-lo não tem problema, eu o venderei para outra pessoa.
Então o jovem colocando seu chapéu sobre o balcão levou sua mão esquerda no bolso de sua capa, sua mão direita pousou no ombro do falastrão negociador e disse-lhe.
– Sei que este relógio pertenceu a um nobre homem e também sei como chegou a suas sujas mãos.! E continuou
--Este homem era meu pai e você o matou para roubar-lhe esta joia e o dinheiro com o qual esta bebendo hoje.
Sem que alguém pudesse pensar em alguma reação o jovem retirou do bolso um punhal enfiando-o totalmente no peito de Kominski que foi empurrado violentamente contra a parede da taverna.
Por breves instantes um silencio mortal tomou conta do local enquanto o velho falastrão esparramava-se ao chão, já sem vida, e segui-se um burburinho ao redor do morto. Tempo este em que o jovem chegara até a porta de saída da taverna para fugir, mas não sem antes virar-se aos olhares perplexos de todos que ali estavam e dizer-lhes;
– Nada fazeis que fique oculto pois isto abreviará tua morte.
Pela pequena janela da taverna pude ver o cavalo em desabalada carreira passar levando em seu dorso o jovem justiceiro.
sexta-feira, 22 de março de 2019
A Última Viagem
Rapidamente atravessei o porto de Londres pois estava deveras atrasado para a viagem mais esperada por mim até então.
A data era 19 de maio de 1872. Meu amigo e capitão John Franklin estava para partir com seu gigantesco navio cargueiro Erebus, tendo como destino o Ártico Canadense. Abordo estavam 84 oficiais, 35 homens de expedição e 6 cientistas. Nosso objetivo era navegar através das águas traiçoeiras que separavam os oceanos Atlântico e Pacífico. A embarcação liderada por John Franklin tinha como missão coletar amostras e realizar estudos científicos por regiões que julgávamos serem ainda inexploradas.
Como havia recebido o convite do amigo John integrei-me a expedição para registrar por escrito as aventuras nos mares gelados pelo qual
tencionávamos passar. Era uma expedição de pesquisa e não sabíamos ao certo o que iriamos encontrar pelo caminho, mas a tripulação era formada por homens com vidas espartanas, frugais pesquisadores, dispostos a qualquer sacrifício para permitir a realização de seus ideais.
Tratei imediatamente de acomodar-me em uma pequena cabine, sabia haver outras de tamanho e acomodações mais agradáveis porém aquela tinha algo de especial para mim pois ficava ao lado da ponte de comando, fato que me era muito favorável visto que tinha que estar atento a todos os detalhes daquela magnífica aventura.
Após todos estarem devidamente acomodados e as últimas providências tomadas partimos lentamente do porto de Londres. Muitas pessoas vieram dar seu acesso de despedida a tripulação, que retribuía também com acenos e sorrisos. Por três longos dias permaneci em minha cabine tentando entender aquela pilha de cartas náuticas sobre em minha mesa e degustando o mais puro malte escocês que foi gentilmente destinado a mim pelo capitão. Durante a noite circulava pelo convés na companhia de John enquanto ouvia do capitão uma breve narrativa de suas inúmeras aventuras pelos sete mares. Somente em uma determinada noite enquanto caminhávamos percebi na penumbra da noite que envolvia a embarcação como um escuro manto, que algo de diferente parecia se ocultar na nimbosa noite. Aproximei-me o máximo possível da borda do tombadilho e esforçando-me para ver mais distante percebi uma singularíssima nuvem isolada no lado noroeste do céu.
Distinguia-se não só pela sua cor acinzentada mas também por formar um gigantesco véu. Mesmo mergulhados em uma escuridão profunda da noite aquela nuvem se aproximava rapidamente. O capitão disse sem dúvida que se tratava de um forte nevoeiro, o que confesso me deixou um tanto quanto temeroso quanto ele concluiu sua observação afirmando que diversas vezes havia navegado naquela região e jamais avistara qualquer nevoeiro.
A nuvem aproximou-se com uma velocidade espantosa e em meio
ao gélido nevoeiro que já começava a penetrar a polpa do navio pude ouvir a
capitão John perguntar ao imediato;
--- Em que ponto do pacífico estamos? E a resposta foi imediata
--- Desculpe senhor, mas os instrumentos de navegação pararam.
Jonhn e os marinheiros assumiram seus postos na cabine de comando para tentar resolver o problema enquanto o restante da tripulação dormia sem saber o que se passava naquele momento, e repentinamente houve um silêncio mortal que permaneceu por quase um minuto, durante o qual a queda de uma folha ou o flutuar de uma pena poderiam ser ouvidos, isto porque os motores paralisaram totalmente e a densa nuvem engoliu o majestoso cargueiro sem que pudéssemos visualizar a um metro de nosso olhos.
Não sei bem por que motivo, mas imediatamente me veio a mente a casa onde morava na St. Toole 123 e a imagem de Aurora, minha já falecida esposa. Minha amada faleceu aos vinte e três anos de idade e deixou um vazio martirizante em minha alma, e em devaneios a vejo chegando e sorrindo e por efêmeros minutos sinto retornar o sentimento de afeto que ela por três magníficos anos dedicou a mim. Mas jamais imaginaria oque estava por acontecer naquela noite.
Um sopro de vento gelado percorreu todo o convés e a nuvem aos poucos foi se tornando menos densa e foi possível visualizar a proa do navio quase por completo causado-me a reação mais apavorante que se possa imaginar, encontrava-me sozinho envolto naquela névoa que me tirava o fôlego. Agarrado as bordas do tombadilho vaguei cambaleante, estonteado que estava pela imersão naquela neblina diabólica, tentei sem sucesso encontrar
alguém da tripulação ou do grupo de pesquisa, as luzes completamente apagadas, os motores desligados, e um silêncio mais apavorante que o uivo de um animal feroz. O cargueiro Erebus estava abandonado nas águas gélidas do Canadá.
O descontrole e o pavor tomou conta de meus sentidos, desesperadamente dirigi-me a escada que levava a sala de comando, subi a correr e não foi surpresa o que encontrei, a sala estava vazia e o leme girava como se alguém o controlasse, a bússola gravitava para todas as direções. Estávamos a deriva no oceano e encobertos pela escuridão.
Gritei duas vezes pelo nome de John mas foi em vão, já pensava em esconder-me esperando amanhecer para entender o que de tão inacreditável havia acontecido quando um som cortou a tenebrosa neblina e chegou aos meus ouvidos, pareceu-me uma voz longingua, alguém chamando ou pedindo socorro, então desci a correr as escadas da sala de comando tentando identificar a direção daquela voz que poderia ser de
algum tripulante, que certamente como eu deveria estar tomado pelo mais terrível pavor. Enquanto me aproximava mais e mais da proa do fantasmagórico navio o som chegava com mais clareza e um sentimento aterrador dominou-me quando, gelando até o fundo de minha alma em meio aquela infernal neblina alguém chamava por mim.
Meu nome era ouvido em todas as direções acompanhado com o som de lamentações, um lamento com uma voz feminina e por demais aterrorizante, lembrando-me novamente de minha esposa Aurora em seus momentos finais de vida, mas tudo aquilo parecia absurdo, talvez fosse um pesadelo.
Tentei permanecer lúcido, racionalizar aquele momento ilógico, mas o som vindo sei lá de onde perecia-me sair dos cantos mais profundos do inferno e ressoava entre a escuridão e neblina em uma combinação diabólica entranhando-se em meus ouvidos.
Pensei ser aquele momento o meu juízo final e muito provavelmente aqueles que não mais vejo estariam todos salvos, somente eu havia ficado para vagar pela eternidade neste mar de lamentações e penúrias.
Caindo de joelhos no convés da embarcação, com a cabeça entre
as mãos desejei fervorosamente nunca ter estado ali, nunca ter embarcado naquele navio pois não sabia qual destino seria traçado para mim.
Continua…
domingo, 10 de fevereiro de 2019
A Violinista Cega
Os Finais de
tarde do St. James Parks’s na Picadilly Street, durante o Outono londrino eram o ambiente ideal para um passeio, principalmente para quem busca no cotidiano de Paris uma inspiração para escrever. Figuras de todos os tipos circulavam por ali.
Foi em um destes belíssimos entardecer que conheci mademoiselle Ninna, uma encantadora jovem de origem polonesa, doce e meiga como as mais belas flores que embelezam o St. James’s. Eu havia saído da Real Academia Londrina após assistir a uma audição de
piano de Madame Margot Challen quando vi aquela bela jovem sentada solitária em um banco do Park. Sentei-me ao seu lado e em poucos instantes a conversa adveio naturalmente. Apesar de sua inegável beleza, as adversidades que a vida traz levou Ninna até o Le Blanc Club, onde na condição de acompanhante buscava na noite o dinheiro para seu sustento.
Contou-me que morava sozinha, falou-me de sua família e sobre a morte de seu irmão marinheiro assassinado em um bar do cais. Após algum tempo convidou-me para caminhar e disse que gostaria de apresentar-me alguém, então passamos por alguns caminhos entre os coloridos jardins até chegarmos a magestosa fonte que situava-se na parte central do lugar. Um
chafariz em forma de pássaro lançava suavemente jatos de água ao centro da belíssima fonte construida certamente no periodo vitoriano.
Sentada ao lado da fonte uma jovem tocava com extrema habilidade um violino, tinha cabelos loiros e encaracolados, cobertos por um belíssimo chapéu com plumas e uma rosa no centro, no mais nobre estilo londrino.
---Venha. Disse ela; quero que conheça Clarett !
Ninna segurou minha mão conduzindo-me até a bela violinista que tocava com maestria e sorria.
Ao aproximar-me pude observar pela maneira como a jovem musicalista se
movimentava que ele era completamente cega.
---Oí Ninna.
Disse ela notando nossa chegada mesmo que não tivéssemos pronunciado uma só palavra.
---Estas acompanhada hoje? Completou ela.
---Sim amiga Clarett, quero que conheça meu amigo Lawford. Respondeu Ninna.
Aquela apresentação foi o suficiente para que pudéssemos conversar alegremente, até minha tão linda acompanhante pedir licença para sair pois já estava na hora de dirigir-se para o Le Blanc, mas não sem antes colocar uma generosa gorjeta no estojo do violino da instrumentista cega.
E assim sucedeu-se por incontáveis tardes, nossos encontros tinham inicio nos jardins do parque e findavam nos aconchegantes aposentos do Le Blanc Club.
Até que em uma fria tarde de inverno londrino minha linda polonesa não apareceu, a neblina era intensa, pessoas pareciam emergir da bruma, de início cinzentas como fantasmas e depois pouco a pouco e com muito custo tornavam-se reconhecíveis. Sem saber o motivo de Ninna não aparecer imediatamente procurei sua amiga Clarett.
---Ela passou aqui mais cedo que o de costume Sr. Lawford, estava com outro cavalheiro, discutiam muito e ela chorava a soluçar.
---Ela disse o nome dele ? Perguntei
Teria ela encontrado outro amigo tão chegado quanto eu?
estes pensamentos e outros igualmente terríveis atravessaram-me o espírito com uma rapidez extraordinária.
---Não, ela não falou comigo, apenas deixou algumas moedas no meu estojo e saiu.
Aquelas palavras caíram pesadas e geladas nas profundas trevas das escuras regiões mais recônditas da minha alma, fiquei muito decepcionado, mas esperar demonstrações de fidelidade de uma mulher que busca na noite londrina sua sobrevivência seria totalmente irracional.
Por três dias consecutivos ela não apareceu nos jardins do parque tampouco esteve a noite no clube. Sem saber ao certo onde procurar fui ao encontro de um velho amigo,o inspetor Thormann.Com certeza ele poderia dar-me alguma orientação de como encontrar minha desaparecida amiga.
---Primeiramente meu amigo Lawford, deverias procurar no necrotério da cidade.Pois você sabe tão bem quanto eu que prostituas estão exposta a todo tipo de perigo.
A afirmação de Thormann levou-me a um desfecho irremediavelmente terrível e nunca por mim imaginado. No necrotério municipal, mesmo com a fraca luz dos pequenos lampiões não foi difícil identificar o corpo de Ninna. Uma perfuração embaixo do seio esquerdo foi certeiramente mortal atingindo o coração da jovem. Segundo o esculápio que examinou o corpo,podia afirmar que o golpe foi feito por alguém que sabia onde
fazer a incisão, pois não havia outros ferimento no corpo.
A morte da Ninna abalou-me de tal maneira que por alguns dias permaneci trancado em meu chalé na St. Tooley 123. Abrandava na bebida minhas lembranças da linda jovem que por alguns dias fez-me sentir novamente a utópica felicidade. Até que em uma tarde retornei ao St. James’s e fui direto ao local onde Clarett, como fazia em todas as tardes, enchia o local com os sons melodiosos de seu Violino em troca de algumas
moedas.
---Aproxime-se Sr. Lawford ! Disse ela.
---Como sabia que era eu Clarett? Perguntei intrigado
---Quando Deus tira-nos um dom deixa os outros sentidos mais aguçados, meu olfato e minha audição são previlegiados. Respondeu ela
Sentei-me ao seu lado na esperança de buscar alguma informação.
---Sinto muita falta de Ninna. Comentei em voz baixa.
---Havia um homem com ela a três dias atrás, mas nenhum do dois retornou ao parque.
---Como sabe que não voltaram?
Meu coração apressou-se de maneira desordenada.
---O perfume que ele usava eu reconheceria se o sentisse novamente, e ela não iria embora sem se despedir de mim. Algo de muito ruim aconteceu.
Aquele comentário ascendeu uma chama de esperança de saber onde e com quem Ninna estivera antes de morrer.
---poderia identificar a pessoa somente pelo perfume? Perguntei .
E a resposta deixou-me ainda mais esperançoso.
---Não só pelo perfume Sr. Lawford, mas também pela voz, ele tinha uma voz rouca e sotaque carregado. Como os Irlandeses.
Saí imadietamente,quase a correr até o distrito policial pois lá o meu velho amigo e também Irlandês inspetor Thormann com certeza poderia ajudar.
---Meu bom amigo Lawford,quantos irlandeses vivem em Londres ? você esta procurando uma agulha em um palheiro. Respondeu Thormann sorrindo.
---E porque preocupar-se tanto com uma prostituta? a cada esquina tem uma sujando a cidade, é como uma praga.e esqueça esta moça, ela não merece sua preocupação.
Mas eu não estava disposto a abdicar da busca pelo assassino.
---Por favor Thormann, um crime foi cometido e você é policial, pelo menos vamos investigar.
---Lawford, você diz ter uma testemunha cega, que loucura é esta ?
Thormann zombava de minha afirmação, não acreditava ele que uma deficiente visual poderia identificar um criminoso apenas pelo olfato. Após muito persistir o inspetor concordou em ir até o parque interrogar a testemunha.
---Devo avisa-lo Lawford. Disse Thormann; estás perdendo seu tempo e o meu, mas vamos lá e depois vamos degustar uma deliciosa xícara de chá com torradas no Café Blanchê.
E assim foo feito, ao chegarmos no parque fomos diretamente onde estava Clarett.
---É esta a testemunha. Disse eu apontado para a jovem violinista que permanecia sentada ao lado da fonte. Thormann agachou-se bem Próximo da jovem e falou-lha baixo e calmamente.
---Senhorira, meu nome é Thormann e sou da policia londrina, meu amigo Lawford disse-me que podes ajudar na identificação de um homem que esteve neste parque com a jovem de nome Ninna, isto é verdade?
Ouve um breve silêncio e a violinista parecia-me assustada, suas mãos tremiam como se sentisse medo de algo, ou de alguém.
---Senhores! Disse ela; aqui no parque existem muitos ruídos e o perfume das flores se misturam com outros odores dos jardins. Conheço Ninna, é minha amiga, mas não posso ajudá-los.
Aquela declaração de Clarett deixou-me sem palavras, eu não entendia porque ela havia mudado tão repentinamente sua opinião.
Porque não queria ajudar?
Thormann ergueu-se calmamente e colocou algumas moedas no estojo do violino.
---Estou esperando você no Blanchê para o chá, não demore.
Disse ele saindo calmamente do local em direção a cafeteria.
A atmosfera fria da noite em breve tinha produzido o seu efeito habitual a energia mental
tinha cedido espaço à influência e a percepção confusa. Era quase impossível imaginar toda a extensão do meu nervosismo, que vem juntamente com o sentimento de decepção deixando-me bastante inquieto sem ter a menor idéia do que deveria fazer.
---Porque mudou de idéia?
porque não quer ajudar a encontrar quem matou sua amiga?
Perguntei em tom mais áspero quase a gritar.
Clarett chorava em silêncio, sentei-me ao seu lado pois sabia que havia sido muito brusco com minhas palavras.
--- Desculpe.Disse a ela; não tinha a intenção de magoá-la, sei que sente tanto quanto eu a falta de Ninna.
Porém o que ela, entre soluços falou-me deixou-me perplexo e ainda mais confuso.
---Sr Lawford. Se eu identificar o possível assassino de Ninna talvéz também serei morta, pois o homem que trocava palavras ríspidas como nossa amiga Ninna levando-a as lágrimas era o inspetor Thormann.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2019
A Dama do Retrato
Estimulado ao vício por incontáveis meios, fiz também incontáveis amigos ou assim me pareciam, entre as frivolidades da noite Parisiense. Havia entre meus amigos um Jovem de Yorkshire, com sua estatura extremamente pequena mas de um talento impar para pintura, seu nome Henri de Toulouse-Lautrec, que dedicava seu tempo a pintura que ele mesmo denominava de pós-impressionista. Em umas de noites de devaneios em que o absinto misturado a conhaque e gelo que batizamos de coquetel terremoto, conduzia-nos a alucinações indescritiveis, Henri regozija-se a beber com os demais enquanto eu me vi subitamente atraído pela beleza de uma das inúmeras mulheres que frequentavam o Bataclâm. Emily era seu nome ou pelo menos foi o que disse-me quando aproximei-me e fiz minha apresentação a ela, impossível com palavras descrever a beleza da encantadora dama.
Porem algo mais deixara-me intrigado na alegre acompanhante, tinha eu a vaga impressão de já ter visto aquele lindo sorriso em outra ocasião, ou talvez em meus mais intensos e perturbadores sonhos. E este pensamento inquietava-me. Não poderia definir melhor a sensação que me dominou se não dizendo que me era difícil libertar-me da ideia de já haver conhecido a pessoa que se encontrava diante de mim em alguma época muito longínqua, em algum ponto do passado mesmo que infinitamente remoto.
Minha natureza explodiu em uma breve confusão trazendo a mente imagens já a muito esquecidas, com um certo temor e na louca embriaguez de minhas devassidões calquei os pés nas mais vulgares lembranças. Encontrava-me agora com infinitos motivos para duvidar do testemunho de meus próprios sentidos. Mas a debilidade do vício deixa- nos na terrível sombra cinza de qualquer recordação por mais irregular que possa ser, trazendo-nos uma confusão de fracos prazeres e desgostos fantasmagóricos. Mas porque me envolver em pensamentos dispersos se na minha solitária vida uma luz brilha com intensa magia e jovialidade.
Enquanto meu pequeno amigo tinha sua atenção direcionada as bailarinas que rodeavam nossa mesa, as quais ele pacientemente reproduzia em forma de arte através de suas pinturas a óleo, o anjo ou demônio que estava a meu lado fazia-me entender, através de seus lindos lábios, que compartilhávamos diversas predileções, fato este que devo dizer não era muito comum para mim. Visto que tinha eu vícios em demasia e não havia me relacionada com nenhuma pretendente depois da morte de minha esposa já a bastante tempo.
Mas afinal de onde teria vindo, de que passado nebuloso teria ela voltado, de qual vida passada, se é que tenho alguma, surgiu este manto de candura.
Durante toda noite me foi presenteado momentos de intensa alegria, felicidade, sentimentos estes que até então pensara não mais existir em minha alma cansada e fracassada.
Ao amanhecer, já inebriado pela noite inesquecível na companhia da agradável dama, tratei de despedir-me da maneira mais formal possível, beijando-lhe as mãos e conduzindo-a até o coche que a levaria ao seu destino, local este que ela não revelou por mais insistentes que fossem minhas tentativas de descobrir em qual vale iluminado esta magnífica fada se escondia.
Feito isto, e ainda sobe forte efeito do absinto que ingeri toda noite sem medir consequências, causando-me uma tontura que confesso quase me impossibilitava de andar, e do ópio que chegou até mim pelas mãos do amigo Henri, mistura diabólica que me lavava e histeria e ao delírio insano de sonhos irreais, direcionei-me para minha casa a qual cheguei depois de perambular perdido pela noite londrina. Agarrando-me ao velho corrimão de madeira que levara ao primeiro andar do chalé onde tencionava jogar-me na cama como um desfalecido quando, não sei dizer porque, um quadro entre os muitos pendurados na parede subindo a escada chamou-me a atenção em particular.
Aproximado-me de tal maneira quase encostando o rosto na envelhecida tela pintada a óleo e vi ali, iluminada pelas fracas luzes dos pequenos lampiões uma pintura que a princípio me tinha passado despercebida. Era o retrato de uma Linda Jovem já amadurecida, creio eu com idade por volta dos trinta anos e de uma inigualável beleza. Direcionei ao quadro um olhar rápido e fechei os olhos pois aquele rosto me era deveras familiar. Ao princípio eu próprio não soube identificar a dama que servira de modelo para o a bela pintura, mas enquanto mantinha as pálpebras fechadas analisei rapidamente a causa que me obrigara a fechá-las assim. Fora um movimento voluntário para ganhar tempo e para pensar e me certificar de que a vista não me enganara, para acalmar e preparar o espírito para uma contemplação mais a frio e mais segura. Ao fim de alguns instantes olhei de novo fixamente para o quadro.
Não podia duvidar, mesmo que quisesse, de que via então com toda a nitidez, pois a luz que vinha das fracas lamparinas laterais elucidavam o espanto e o devaneio de que os meus sentidos estavam possuídos, e chamara-me num instante à vida real. Na vasta escadaria da casa que herdara de meus pais, havia inúmeros retratos pintados a óleo representando uma descendência decadente e recheada de escândalos.
Um pavor descomunal mesclado com o efeito das extravagâncias daquela noite me fizera cair de joelhos perante o maldito retrato de alguém que a morte já tinha a muito carregado, com certeza para o inferno.
Na parte inferior do quadro estava gravado em uma pequena placa de metal já quase ilegível pelo tempo o nome de sua modelo, ou melhor dizendo, da minha acompanhante naquela insólida noite.
* Emily Elisabeth Crosec.*
segunda-feira, 10 de dezembro de 2018
coche 128
Quando rapidamente desci a escadaria buscando a porta de saída do velho prédio em que residia a alguns anos, e confesso são cinco longos anos de subir e descer escada, percebi que havia chovido e que a rua estava totalmente coberta pela lama que se espalhava cada vez mais ao passar constante dos coches e seus cavalos. Saí esgueirando-me pelas vielas até chegar a rua principal pois não poderia me dar ao luxo de ficar em meus aposentos visto que deveria entregar o material escrito ao redator do jornal matutino e rogar a ele que publicasse na edição de amanhã.
Minha urgência se dava ao fato de que no momento me via desprovido financeiramente, situação esta que além de comprometer minha estadia em tal aposento ainda não suficientemente cobria minhas necessidades de manutenção. E é claro estava por acabar o fumo para meu cachimbo.
Assim disposto adentrei ao coche de numero 128 passando de imediato ao condutor o local de meu destino. Sentado ao coche revisei novamente o material a ser entregue e por um momento chamou-me a atenção, ao passar os olhos sobre minhas vestes, as marcas que o impiedoso tempo deixara em minhas já não tão novas roupas, e em minha vida confusa que até em alguns momentos sem significado parecia-me. Situação que não posso vos negar me deixara um tanto quanto preocupado. Sentia o tempo passar a cada batida de meu coração, os segundos pulsam em meu peito como num relógio de pêndulo. Os mistérios inefáveis que pareciam tão absurdamente distantes e irreais até poucos minutos, ameaçavam se aclamar e desvendarem-se na presença de uma verdade tão pessoal e que até então ficara escondida em minha sombria e medíocre vida. Verdade esta que já me vem sendo apresentada a mim desde a infância e que por desejo meu permanecia equivocadamente adormecida no íntimo de meu ser.
Enquanto o coche segue seu trajeto pelo imenso lamaçal sinto como se este entendimento tirasse de mim o peso de uma vida sem valores. Meu fardo de agruras será compartilhado com meus leitores, pois a ninguém mais confio meus mais secretos segredos por mais insanos que possam ser.
Aquele que por deveras se aventurar a acompanhar-me pelos caminhos da leitura terá como júbilo conhecer meu coração, e olhando no fundo de meus sentimentos encontrará a memória e a experiência de um escritor que entre e debilidade e a genialidade busca um incentivo para não ver perdida por completo suas forças e sua esperança. Se é que alguma delas ainda lhe resta. Quando olhamos para trás percebemos que somos os escritores da nossa própria história, é bem provável que não possamos controlar todo o desenrolar dela mas certamente poderemos escolher qual caminho seguir e que personagem queremos ser, e certamente esta escolha vai traçar o próximo passo. Então certo é que devo seguir em frente pois considero mais nobre enfrentar uma batalha por dia do que viver na ociosidade de uma ilusão. Nenhum esforço será em vão pois sei que o custo do sucesso é o trabalho e o custo da excelência será sempre o máximo esforço.
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