sexta-feira, 10 de maio de 2019

Manicômio do Terror

Clínica Psiquiátrica Real Derbyshire-1890 - A insanidade, o desespero, a fúria incontrolável, a loucura violenta que deteriora a mente, a deformação do ser humano. O fogo que lacera a carne, a lama que congela os pés, a fuga de uma lucidez sem rumo. O abandono absoluto da realidade, os trapos encardidos que cobrem as minúsculas janelas, a angustia e a agonia incontida da alma. A luz precária, a chama trêmula, o ruído amedrontador das correntes, o odor ferruginoso das grades. Deus chora por nós, pelos desequilibrados, pelos alienistas, por onde o cavaleiro das sombras cavalga, onde a espada do inferno nos ataca barbaramente. O maligno infiltrando-se em nossa alma, e a constante inconsciência que nos atormenta. Transborda o cálice do demônio escorrendo seu néctar de terror pelas fétidas paredes de pedras. O caos extremo do espírito, a degradação humana, a razão refém da bestialidade, a alienação devastadora da alma. A revelar-se o animal adormecido dentro de cada ser humano, delirante, enfurecido, bizarro. A cruz que não alimenta a fé, a luz que não dissipa as trevas, a crença que desmorona como as pilastras de um templo em ruínas. E o mal se propaga promiscuo e voraz a dominar as criaturas que a debilidade recrutou. Convulsões, histeria, gritos, tudo para ser estudado em uma ciência imprecisa, experimentos vão ao limiar da inconsciência e só então o choque elétrico libertara o espírito do hediondo sofrimento. Amarre-se aquele que está com o maligno, deixe debater-se pois vamos estudá-lo. Tudo pela evolução da ciência, tudo pelo bem do conhecimento . Na sombra tirânica da cruz a violência está a brotar pelos escuros e sujos corredores, pelas celas úmidas, nos colchões esfarrapados onde ficam aqueles que a irmandade chama de escória. O cheiro de éter se espalha pelo mórbido ambiente. A cabeça a bater na parede, mostrando a violência do instinto incontrolável, é mais um delirante a escorrer seu sangue pela parede pútrida da cela, aí vem a morfina, e o sono profundo. O lunático com o olhar estático como se pudesse atravessar paredes, ver o infinito, as mãos trêmulas, os pulsos esqueléticos, as cicatrizes na alma, uma fuga da vida em vão, sem propósito. Do outro lado das grades estão as freiras, o hábito, o rosário, mas também o chicote, o ferro em brasa a transpor a carne, o castigo divino em forma de fogo. O tilintar dos cascos dos cavalos, é o carroção fechado, o cadeado a bater na grossa porta de ferro, alguém a espreitar pela ventana, é mais uma remessa de miseráveis indesejados pela confraria mesquinha. Somente Deus pode lançar uma praga como punição por nossos possíveis pecados, mas nem toda praga é obra de Deus, existem homens que acreditam terem o imenso poder de Deus. Já é noite, pelos sujos e pequenos vidros da minha janela a luz da lua invade o acanhado cômodo realçando a precariedade do mobiliário, ouço gritos de desespero e gemidos vindos das imensas alas do manicômio. Tento não sucumbir naquele mar de insanidade e tortura, cobrirei meu rosto com as mãos e chorarei de remorso por ver no que me transformei, e então farei como faço todas as noites, uma dose de ópio e adormecer até o próximo dia.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

O relógio de Ouro

Para esclarecimento ao leitor parece-me oportuno entrar em alguns detalhes deveras necessária a esta explicação pois é feita com o intuito de narrar com a mais pura veracidade possível a terrível cena de que foi teatro o local a que irei me referir. Já era noite alta e a taverna O Gato Azul, na verdade nunca consegui entender porque este nome nem tampouco teria visto alguma vez um animal com tal cor, mas emfim o local estava como sempre lotado, entre marinheiros e trabalhadores do cais londrino misturavam-se escritores, filósofos, médicos, e o mais variado tipo de clientela. Pelo exame comparativo de suas dependências e mobiliário posso afirmar que o local desde a sua origem teve o mesmo aspecto que atualmente conserva. Quanto a data desta origem sinto não ter conhecimento, e se assim posso considerar em face a antiguidade seriam dos primórdios da área portuária londrina. O taberneiro Edmondo acabara de trazer-me uma caneca com a mais pura bebida destilada da região quando chamou-me a atenção um marinheiro que descobri chamar-se Aron Kominski. Gabava-se de façanhas no mar e em terra, e é claro, pelas suas narrativas nunca teria perdido uma briga. Naquela noite Kominski estava a pagar rodadas de bebidas aos acompanhantes que o rodeavam, fato que era de se estranhar, pois sua condição financeira era sempre muito precária, já embriagado falava com muita fluência e balançava em sua mão direita um relógio de bolso, aparentemente pelo seu brilho do objeto em sua mão coberto com uma camada de ouro, com um brasão em sua parte frontal e seguro por grossa corrente, provavelmente do mesmo material. Em sua alegria desmedida o marinheiro gritava enquanto era abraçado pelos seus colegas de infortúnio de beira do cais: --Hoje eu bebo e pago, estou com meus amigos e ninguém vai me colocar pra fora desta espelunca. Fato que por diversas vezes já acontecera quando o beberrão marinheiro não pagava o que consumia e Edmondo o colocava para fora da taverna. Mas o inimaginável ainda estava por vir. Em meio a fraca iluminação que vinha dos lampiões colocados nas paredes laterais ergueu-se de uma mesa ao fundo do estabelecimento um jovem que aparentava estar entre os seus vinte e cinco e trinta anos e lentamente se aproximou do balcão onde estava nosso alegre marinheiro. Tinha o vem a cabeça altiva e os cabelos bem penteados, seu traje compunha-se de uma capa preta ajustada típica da burguesia londrina e de e um dos bolsos saíra a ponta de um lenço aparentemente de fina seda vermelha. Calças de nanquim preto, sapatos pretos com saltos elevados a carregava debaixo do braço esquerdo um chapéu pequeno de abas estreitas no mesmo tecido da capa. Mesmo sendo discreto o indivíduo apesar do aspecto muito nobre tinha qualquer coisa na fisionomia que nada de bom pressagiava. Sua maneira de olhar me dizia que nenhum pensamento positivo vociferava em sua mente naquele momento. Aproximou-se do balcão da taverna e se postou a frente de Kominski falando em voz clara e solene. – Gostaria de comprar seu relógio, será que posso vê-lo? Já imaginado uma vantagem financeira o marinheiro passou de imediato o objeto a ser negociado as mãos do jovem comprador e acrescentou. – Seu antigo dono era um nobre cavalheiro de londrino e por isto não posso vendê-lo barato. ---Realmente pelo brasão que esta gravado nele posso ver que se trata de um objeto de uma tradicional família. Retornou o jovem. – O sr. poderia me dizer como este relógio chegou em suas mãos? Marinheiro mostrou-se incomodado com a pergunta. – Se não quer comprá-lo não tem problema, eu o venderei para outra pessoa. Então o jovem colocando seu chapéu sobre o balcão levou sua mão esquerda no bolso de sua capa, sua mão direita pousou no ombro do falastrão negociador e disse-lhe. – Sei que este relógio pertenceu a um nobre homem e também sei como chegou a suas sujas mãos.! E continuou --Este homem era meu pai e você o matou para roubar-lhe esta joia e o dinheiro com o qual esta bebendo hoje. Sem que alguém pudesse pensar em alguma reação o jovem retirou do bolso um punhal enfiando-o totalmente no peito de Kominski que foi empurrado violentamente contra a parede da taverna. Por breves instantes um silencio mortal tomou conta do local enquanto o velho falastrão esparramava-se ao chão, já sem vida, e segui-se um burburinho ao redor do morto. Tempo este em que o jovem chegara até a porta de saída da taverna para fugir, mas não sem antes virar-se aos olhares perplexos de todos que ali estavam e dizer-lhes; – Nada fazeis que fique oculto pois isto abreviará tua morte. Pela pequena janela da taverna pude ver o cavalo em desabalada carreira passar levando em seu dorso o jovem justiceiro.

sexta-feira, 22 de março de 2019

A Última Viagem

Rapidamente atravessei o porto de Londres pois estava deveras atrasado para a viagem mais esperada por mim até então. A data era 19 de maio de 1872. Meu amigo e capitão John Franklin estava para partir com seu gigantesco navio cargueiro Erebus, tendo como destino o Ártico Canadense. Abordo estavam 84 oficiais, 35 homens de expedição e 6 cientistas. Nosso objetivo era navegar através das águas traiçoeiras que separavam os oceanos Atlântico e Pacífico. A embarcação liderada por John Franklin tinha como missão coletar amostras e realizar estudos científicos por regiões que julgávamos serem ainda inexploradas. Como havia recebido o convite do amigo John integrei-me a expedição para registrar por escrito as aventuras nos mares gelados pelo qual tencionávamos passar. Era uma expedição de pesquisa e não sabíamos ao certo o que iriamos encontrar pelo caminho, mas a tripulação era formada por homens com vidas espartanas, frugais pesquisadores, dispostos a qualquer sacrifício para permitir a realização de seus ideais. Tratei imediatamente de acomodar-me em uma pequena cabine, sabia haver outras de tamanho e acomodações mais agradáveis porém aquela tinha algo de especial para mim pois ficava ao lado da ponte de comando, fato que me era muito favorável visto que tinha que estar atento a todos os detalhes daquela magnífica aventura. Após todos estarem devidamente acomodados e as últimas providências tomadas partimos lentamente do porto de Londres. Muitas pessoas vieram dar seu acesso de despedida a tripulação, que retribuía também com acenos e sorrisos. Por três longos dias permaneci em minha cabine tentando entender aquela pilha de cartas náuticas sobre em minha mesa e degustando o mais puro malte escocês que foi gentilmente destinado a mim pelo capitão. Durante a noite circulava pelo convés na companhia de John enquanto ouvia do capitão uma breve narrativa de suas inúmeras aventuras pelos sete mares. Somente em uma determinada noite enquanto caminhávamos percebi na penumbra da noite que envolvia a embarcação como um escuro manto, que algo de diferente parecia se ocultar na nimbosa noite. Aproximei-me o máximo possível da borda do tombadilho e esforçando-me para ver mais distante percebi uma singularíssima nuvem isolada no lado noroeste do céu. Distinguia-se não só pela sua cor acinzentada mas também por formar um gigantesco véu. Mesmo mergulhados em uma escuridão profunda da noite aquela nuvem se aproximava rapidamente. O capitão disse sem dúvida que se tratava de um forte nevoeiro, o que confesso me deixou um tanto quanto temeroso quanto ele concluiu sua observação afirmando que diversas vezes havia navegado naquela região e jamais avistara qualquer nevoeiro. A nuvem aproximou-se com uma velocidade espantosa e em meio ao gélido nevoeiro que já começava a penetrar a polpa do navio pude ouvir a capitão John perguntar ao imediato; --- Em que ponto do pacífico estamos? E a resposta foi imediata --- Desculpe senhor, mas os instrumentos de navegação pararam. Jonhn e os marinheiros assumiram seus postos na cabine de comando para tentar resolver o problema enquanto o restante da tripulação dormia sem saber o que se passava naquele momento, e repentinamente houve um silêncio mortal que permaneceu por quase um minuto, durante o qual a queda de uma folha ou o flutuar de uma pena poderiam ser ouvidos, isto porque os motores paralisaram totalmente e a densa nuvem engoliu o majestoso cargueiro sem que pudéssemos visualizar a um metro de nosso olhos. Não sei bem por que motivo, mas imediatamente me veio a mente a casa onde morava na St. Toole 123 e a imagem de Aurora, minha já falecida esposa. Minha amada faleceu aos vinte e três anos de idade e deixou um vazio martirizante em minha alma, e em devaneios a vejo chegando e sorrindo e por efêmeros minutos sinto retornar o sentimento de afeto que ela por três magníficos anos dedicou a mim. Mas jamais imaginaria oque estava por acontecer naquela noite. Um sopro de vento gelado percorreu todo o convés e a nuvem aos poucos foi se tornando menos densa e foi possível visualizar a proa do navio quase por completo causado-me a reação mais apavorante que se possa imaginar, encontrava-me sozinho envolto naquela névoa que me tirava o fôlego. Agarrado as bordas do tombadilho vaguei cambaleante, estonteado que estava pela imersão naquela neblina diabólica, tentei sem sucesso encontrar alguém da tripulação ou do grupo de pesquisa, as luzes completamente apagadas, os motores desligados, e um silêncio mais apavorante que o uivo de um animal feroz. O cargueiro Erebus estava abandonado nas águas gélidas do Canadá. O descontrole e o pavor tomou conta de meus sentidos, desesperadamente dirigi-me a escada que levava a sala de comando, subi a correr e não foi surpresa o que encontrei, a sala estava vazia e o leme girava como se alguém o controlasse, a bússola gravitava para todas as direções. Estávamos a deriva no oceano e encobertos pela escuridão. Gritei duas vezes pelo nome de John mas foi em vão, já pensava em esconder-me esperando amanhecer para entender o que de tão inacreditável havia acontecido quando um som cortou a tenebrosa neblina e chegou aos meus ouvidos, pareceu-me uma voz longingua, alguém chamando ou pedindo socorro, então desci a correr as escadas da sala de comando tentando identificar a direção daquela voz que poderia ser de algum tripulante, que certamente como eu deveria estar tomado pelo mais terrível pavor. Enquanto me aproximava mais e mais da proa do fantasmagórico navio o som chegava com mais clareza e um sentimento aterrador dominou-me quando, gelando até o fundo de minha alma em meio aquela infernal neblina alguém chamava por mim. Meu nome era ouvido em todas as direções acompanhado com o som de lamentações, um lamento com uma voz feminina e por demais aterrorizante, lembrando-me novamente de minha esposa Aurora em seus momentos finais de vida, mas tudo aquilo parecia absurdo, talvez fosse um pesadelo. Tentei permanecer lúcido, racionalizar aquele momento ilógico, mas o som vindo sei lá de onde perecia-me sair dos cantos mais profundos do inferno e ressoava entre a escuridão e neblina em uma combinação diabólica entranhando-se em meus ouvidos. Pensei ser aquele momento o meu juízo final e muito provavelmente aqueles que não mais vejo estariam todos salvos, somente eu havia ficado para vagar pela eternidade neste mar de lamentações e penúrias. Caindo de joelhos no convés da embarcação, com a cabeça entre as mãos desejei fervorosamente nunca ter estado ali, nunca ter embarcado naquele navio pois não sabia qual destino seria traçado para mim. Continua…

domingo, 10 de fevereiro de 2019

A Violinista Cega


Os Finais de tarde do St. James Parks’s na Picadilly Street, durante o Outono londrino eram o ambiente ideal para um passeio, principalmente para quem busca no cotidiano de Paris uma inspiração para escrever. Figuras de todos os tipos circulavam por ali.
Foi em um destes belíssimos entardecer que conheci mademoiselle Ninna, uma encantadora jovem de origem polonesa, doce e meiga como as mais belas flores que embelezam o St. James’s. Eu havia saído da Real Academia Londrina após assistir a uma audição de piano de Madame Margot Challen quando vi aquela bela jovem sentada solitária em um banco do Park. Sentei-me ao seu lado e em poucos instantes a conversa adveio naturalmente. Apesar de sua inegável beleza, as adversidades que a vida traz levou Ninna até o Le Blanc Club, onde na condição de acompanhante buscava na noite o dinheiro para seu sustento.
Contou-me que morava sozinha, falou-me de sua família e sobre a morte de seu irmão marinheiro assassinado em um bar do cais. Após algum tempo convidou-me para caminhar e disse que gostaria de apresentar-me alguém, então passamos por alguns caminhos entre os coloridos jardins até chegarmos a magestosa fonte que situava-se na parte central do lugar. Um chafariz em forma de pássaro lançava suavemente jatos de água ao centro da belíssima fonte construida certamente no periodo vitoriano.
Sentada ao lado da fonte uma jovem tocava com extrema habilidade um violino, tinha cabelos loiros e encaracolados, cobertos por um belíssimo chapéu com plumas e uma rosa no centro, no mais nobre estilo londrino.   
---Venha. Disse ela; quero que conheça Clarett !
Ninna segurou minha mão conduzindo-me até a bela violinista que tocava com maestria e sorria.
Ao aproximar-me pude observar pela maneira como a jovem musicalista se movimentava que ele era completamente cega.
---Oí Ninna.
Disse ela notando nossa chegada mesmo que não tivéssemos pronunciado uma só palavra.
---Estas acompanhada hoje? Completou ela.
---Sim amiga Clarett, quero que conheça meu amigo Lawford. Respondeu Ninna.
Aquela apresentação foi o suficiente para que pudéssemos conversar alegremente, até minha tão linda acompanhante pedir licença para sair pois já estava na hora de dirigir-se para o Le Blanc, mas não sem antes colocar uma generosa gorjeta no estojo do violino da instrumentista cega.
E assim sucedeu-se por incontáveis tardes, nossos encontros tinham inicio nos jardins do parque e findavam nos aconchegantes aposentos do Le Blanc Club.
Até que em uma fria tarde de inverno londrino minha linda polonesa não apareceu, a neblina era intensa, pessoas pareciam emergir da bruma, de início cinzentas como fantasmas e depois pouco a pouco e com muito custo tornavam-se reconhecíveis. Sem saber o motivo de Ninna não aparecer imediatamente procurei sua amiga Clarett.
---Ela passou aqui mais cedo que o de costume Sr. Lawford, estava com outro cavalheiro, discutiam muito e ela chorava a soluçar.    
---Ela disse o nome dele ? Perguntei
Teria ela encontrado outro amigo tão chegado quanto eu?
estes pensamentos e outros igualmente terríveis atravessaram-me o espírito com uma rapidez extraordinária.

---Não, ela não falou comigo, apenas deixou algumas moedas no meu estojo e saiu.
Aquelas palavras caíram pesadas e geladas nas profundas trevas das escuras regiões mais recônditas da minha alma, fiquei muito decepcionado, mas esperar demonstrações de fidelidade de uma mulher que busca na noite londrina sua sobrevivência seria totalmente irracional.
Por três dias consecutivos ela não apareceu nos jardins do parque tampouco esteve a noite no clube. Sem saber ao certo onde procurar fui ao encontro de um velho amigo,o inspetor Thormann.Com certeza ele poderia dar-me alguma orientação de como encontrar minha desaparecida amiga.

---Primeiramente meu amigo Lawford, deverias procurar no necrotério da cidade.Pois você sabe tão bem quanto eu que prostituas estão exposta a todo tipo de perigo.

A afirmação de Thormann levou-me a um desfecho irremediavelmente terrível e nunca por mim imaginado. No necrotério municipal, mesmo com a fraca luz dos pequenos lampiões não foi difícil identificar o corpo de Ninna. Uma perfuração embaixo do seio esquerdo foi certeiramente mortal atingindo o coração da jovem. Segundo o esculápio que examinou o corpo,podia afirmar que o golpe foi feito por alguém que sabia onde fazer a incisão, pois não havia outros ferimento no corpo.

A morte da Ninna abalou-me de tal maneira que por alguns dias permaneci trancado em meu chalé na St. Tooley 123. Abrandava na bebida minhas lembranças da linda jovem que por alguns dias fez-me sentir novamente a utópica felicidade. Até que em uma tarde retornei ao St. James’s e fui direto ao local onde Clarett, como fazia em todas as tardes, enchia o local com os sons melodiosos de seu Violino em troca de algumas moedas.     

---Aproxime-se Sr. Lawford ! Disse ela.
---Como sabia que era eu Clarett? Perguntei intrigado
---Quando Deus tira-nos um dom deixa os outros sentidos mais aguçados, meu olfato e minha audição são previlegiados. Respondeu ela

Sentei-me ao seu lado na esperança de buscar alguma informação.
---Sinto muita falta de Ninna. Comentei em voz baixa.
---Havia um homem com ela a três dias atrás, mas nenhum do dois retornou ao parque.
---Como sabe que não voltaram? 

Meu coração apressou-se de maneira desordenada.

---O perfume que ele usava eu reconheceria se o sentisse novamente, e ela não iria embora sem se despedir de mim. Algo de muito ruim aconteceu.
Aquele comentário ascendeu uma chama de esperança de saber onde e com quem Ninna estivera antes de morrer.
---poderia identificar a pessoa somente pelo perfume? Perguntei .
E a resposta deixou-me ainda mais esperançoso.
---Não só pelo perfume Sr. Lawford, mas também pela voz, ele tinha uma voz rouca e sotaque carregado. Como os Irlandeses.
Saí imadietamente,quase a correr até o distrito policial pois lá o meu velho amigo e também Irlandês inspetor Thormann com certeza poderia ajudar.

---Meu bom amigo Lawford,quantos irlandeses vivem em Londres ? você esta procurando uma agulha em um palheiro. Respondeu Thormann sorrindo.
---E porque preocupar-se tanto com uma prostituta? a cada esquina tem uma sujando a cidade, é como uma praga.e esqueça esta moça, ela não merece sua preocupação.

Mas eu não estava disposto a abdicar da busca pelo assassino.
---Por favor Thormann, um crime foi cometido e você é policial, pelo menos vamos investigar.
---Lawford, você diz ter uma testemunha cega, que loucura é esta ?

Thormann zombava de minha afirmação, não acreditava ele que uma deficiente visual poderia identificar um criminoso apenas pelo olfato. Após muito persistir o inspetor concordou em ir até o parque interrogar a testemunha.

---Devo avisa-lo Lawford. Disse Thormann; estás perdendo seu tempo e o meu, mas vamos lá e depois vamos degustar uma deliciosa xícara de chá com torradas no Café Blanchê.

E assim foo feito, ao chegarmos no parque fomos diretamente onde estava Clarett.

---É esta a testemunha. Disse eu apontado para a jovem violinista que permanecia sentada ao lado da fonte. Thormann agachou-se bem Próximo da jovem e falou-lha baixo e calmamente.
---Senhorira, meu nome é Thormann e sou da policia londrina, meu amigo Lawford disse-me que podes ajudar na identificação de um homem que esteve neste parque com a jovem de nome Ninna, isto é verdade?

Ouve um breve silêncio e a violinista parecia-me assustada, suas mãos tremiam como se sentisse medo de algo, ou de alguém.

---Senhores! Disse ela; aqui no parque existem muitos ruídos e o perfume das flores se misturam com outros odores dos jardins. Conheço Ninna, é minha amiga, mas não posso ajudá-los.

 Aquela declaração de Clarett deixou-me sem palavras, eu não entendia porque ela havia mudado tão repentinamente sua opinião.
Porque não queria ajudar?
Thormann ergueu-se calmamente e colocou algumas moedas no estojo do violino.

---Estou esperando você no Blanchê para o chá, não demore.
  Disse ele saindo calmamente do local em direção a cafeteria.

  A atmosfera fria da noite em breve tinha produzido o seu efeito habitual a energia                  mental tinha cedido espaço  à  influência e a percepção confusa. Era quase impossível imaginar toda a extensão do meu nervosismo, que vem juntamente com o sentimento de decepção deixando-me bastante inquieto sem ter a menor idéia do que deveria fazer

---Porque mudou de idéia?
porque não quer ajudar a encontrar quem matou sua amiga?
Perguntei em tom mais áspero quase a gritar. Clarett chorava em silêncio, sentei-me ao seu lado pois sabia que havia sido muito brusco com minhas palavras.

--- Desculpe.Disse a ela; não tinha a intenção de magoá-la, sei que sente tanto quanto eu a falta de Ninna.

Porém o que ela, entre soluços falou-me deixou-me perplexo e ainda mais confuso.

---Sr Lawford. Se eu identificar o possível assassino de Ninna talvéz também serei morta, pois o homem que trocava palavras ríspidas como nossa amiga Ninna levando-a as lágrimas era o inspetor Thormann.  












quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

A Dama do Retrato

Estimulado ao vício por incontáveis meios, fiz também incontáveis amigos ou assim me pareciam, entre as frivolidades da noite Parisiense. Havia entre meus amigos um Jovem de Yorkshire, com sua estatura extremamente pequena mas de um talento impar para pintura, seu nome Henri de Toulouse-Lautrec, que dedicava seu tempo a pintura que ele mesmo denominava de pós-impressionista. Em umas de noites de devaneios em que o absinto misturado a conhaque e gelo que batizamos de coquetel terremoto, conduzia-nos a alucinações  indescritiveis, Henri regozija-se a beber com os demais enquanto eu me vi subitamente atraído pela beleza de uma das inúmeras mulheres que frequentavam o Bataclâm. Emily era seu nome ou pelo menos foi o que disse-me quando aproximei-me e fiz minha apresentação a ela, impossível com palavras descrever a beleza da encantadora dama. Porem algo mais deixara-me intrigado na alegre acompanhante, tinha eu a vaga impressão de já ter visto aquele lindo sorriso em outra ocasião, ou talvez em meus mais intensos e perturbadores sonhos. E este pensamento  inquietava-me. Não poderia definir melhor a sensação que me dominou se não dizendo que me era difícil  libertar-me da ideia de já haver conhecido a pessoa que se encontrava  diante de mim em alguma época muito longínqua, em algum ponto do passado mesmo que infinitamente remoto. Minha natureza explodiu em uma breve confusão trazendo a mente imagens já a muito esquecidas, com um certo temor e na  louca embriaguez de minhas  devassidões calquei os pés nas mais vulgares lembranças. Encontrava-me agora com infinitos motivos para duvidar do testemunho de meus próprios sentidos. Mas  a debilidade do vício deixa- nos na terrível sombra cinza de qualquer recordação por mais irregular que possa ser, trazendo-nos uma confusão de fracos prazeres e desgostos fantasmagóricos. Mas porque me envolver em pensamentos dispersos se na minha solitária vida uma luz brilha com intensa magia e jovialidade. Enquanto meu pequeno amigo tinha sua atenção direcionada as bailarinas que rodeavam nossa mesa, as quais ele pacientemente reproduzia em forma de arte através de suas pinturas a óleo, o anjo ou demônio que estava a meu lado fazia-me entender, através de seus lindos lábios, que compartilhávamos diversas predileções, fato este que devo dizer não era muito comum para mim. Visto que tinha eu vícios em demasia e não havia me relacionada com nenhuma pretendente depois da morte de minha esposa já a bastante tempo.   Mas afinal de onde teria vindo, de que passado nebuloso teria ela voltado, de qual vida passada, se é que tenho alguma, surgiu este manto de candura. Durante toda noite me foi presenteado momentos de intensa alegria, felicidade, sentimentos estes que até então pensara não mais existir em minha alma cansada e fracassada. Ao amanhecer, já inebriado pela noite inesquecível na companhia da agradável dama, tratei de despedir-me da maneira mais formal possível, beijando-lhe as mãos e conduzindo-a até o coche que a levaria ao  seu destino, local este que ela não  revelou por mais insistentes que fossem minhas tentativas de descobrir em qual vale iluminado esta magnífica fada se escondia. Feito isto, e ainda sobe forte  efeito do absinto que ingeri toda noite sem medir consequências, causando-me uma tontura que confesso quase me impossibilitava de andar, e do ópio que chegou até mim pelas mãos do amigo Henri, mistura diabólica que me lavava e histeria e ao delírio insano de sonhos irreais, direcionei-me para minha casa a qual cheguei depois de perambular perdido pela noite londrina. Agarrando-me ao velho corrimão de madeira  que levara ao primeiro andar do chalé onde tencionava jogar-me na cama como um desfalecido quando, não sei dizer porque, um quadro entre os muitos pendurados na parede subindo a escada chamou-me a atenção em particular. Aproximado-me de tal maneira quase encostando o rosto na envelhecida tela pintada a óleo e vi ali, iluminada pelas fracas luzes dos pequenos lampiões uma pintura que a princípio me tinha passado despercebida. Era o retrato de uma Linda Jovem já amadurecida, creio eu com idade por volta dos trinta anos e de uma inigualável beleza. Direcionei ao quadro um olhar rápido e fechei os olhos pois aquele rosto me era deveras familiar. Ao princípio eu próprio não soube identificar a dama que servira de modelo para o a bela pintura, mas enquanto mantinha as pálpebras fechadas analisei rapidamente a causa que me obrigara a fechá-las assim. Fora um movimento voluntário para ganhar tempo e para pensar e me certificar de que a vista não me enganara, para acalmar e preparar o espírito para uma contemplação mais a frio e mais segura. Ao fim de alguns instantes olhei de novo fixamente para o quadro. Não podia duvidar, mesmo que quisesse, de que via então com toda a nitidez, pois a luz que vinha das fracas lamparinas laterais elucidavam o espanto e o devaneio de que os meus sentidos estavam possuídos, e chamara-me num instante à vida real. Na vasta escadaria da casa que herdara de meus pais, havia inúmeros retratos pintados a óleo representando uma descendência decadente e recheada de escândalos. Um pavor descomunal mesclado com o efeito das extravagâncias daquela noite me fizera cair de joelhos perante o maldito retrato de alguém que a morte já tinha a muito carregado, com certeza para o inferno. Na parte inferior do quadro estava gravado em uma pequena placa de metal já quase ilegível pelo tempo o nome de sua modelo, ou melhor dizendo, da minha acompanhante naquela insólida noite.                                                     * Emily Elisabeth Crosec.*

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

coche 128

Quando rapidamente desci a escadaria buscando a porta de saída do velho prédio em que residia a alguns anos, e confesso são cinco  longos anos de subir e descer escada, percebi que havia chovido e que a rua estava totalmente coberta pela lama que se espalhava cada vez mais ao passar constante dos coches e seus cavalos. Saí esgueirando-me pelas vielas até chegar a rua principal pois não poderia me dar ao luxo de ficar em meus aposentos visto que deveria entregar o material escrito ao redator do jornal matutino e rogar a ele que publicasse na edição de amanhã. Minha urgência se dava ao fato de que no momento me via desprovido financeiramente, situação esta que além de comprometer minha estadia em tal aposento ainda não suficientemente cobria minhas necessidades de manutenção. E é claro estava por acabar o fumo para meu cachimbo. Assim disposto adentrei ao coche de numero 128 passando de imediato ao condutor o local de meu destino. Sentado ao coche revisei novamente o material a ser entregue e por um momento chamou-me a atenção, ao passar os olhos sobre minhas vestes, as marcas que o impiedoso tempo deixara em minhas já não tão novas roupas, e em minha vida confusa que até em alguns momentos sem significado parecia-me. Situação que não posso vos negar me deixara um tanto quanto preocupado. Sentia o tempo passar a cada batida de meu coração, os segundos pulsam em meu peito como num relógio de pêndulo. Os mistérios inefáveis que pareciam tão absurdamente distantes e irreais até poucos minutos, ameaçavam se aclamar e desvendarem-se na presença de uma verdade tão pessoal e que até então ficara escondida em minha sombria e medíocre vida. Verdade esta que já me vem sendo apresentada a mim desde a infância e que por desejo meu permanecia equivocadamente adormecida no íntimo de meu ser. Enquanto o coche segue seu trajeto pelo imenso lamaçal sinto como se este entendimento tirasse de mim o peso de uma vida sem valores. Meu fardo de agruras será compartilhado com meus leitores, pois a ninguém mais confio meus mais secretos segredos por mais insanos que possam ser. Aquele que por deveras se aventurar a acompanhar-me pelos caminhos da leitura terá como júbilo conhecer meu coração, e olhando no fundo de meus sentimentos encontrará a memória e a experiência de um escritor que entre e debilidade e a genialidade busca um incentivo para não ver perdida por completo suas forças e sua esperança. Se é que alguma delas ainda lhe resta. Quando olhamos para trás percebemos que somos os escritores da nossa própria história, é bem provável que não possamos controlar todo o desenrolar dela mas certamente poderemos escolher qual caminho seguir e que personagem queremos ser, e certamente esta escolha vai traçar o próximo passo. Então certo é que devo seguir em frente pois considero mais nobre enfrentar uma batalha por dia do que viver na ociosidade de uma ilusão. Nenhum esforço será em vão pois sei que o custo do sucesso é o trabalho e o custo da excelência será sempre o máximo esforço.

sábado, 10 de novembro de 2018

A Aldeia da Morte

Gostaria de contar-lhes sobre a aventura do capitão Charlie Evans, da Academia Militar Inglesa. Nossa amizade teve início quando partilhávamos o mesmo alojamento na Academia militar de Westpoint,meu amigo ao contrário de mim seguiu uma brilhante carreira nas fileiras da armada inglesa, ao oposto do que se sucedeu-se comigo que fui convidado a retirar-me de Westpoint devido a minhas frequentes visitas as cantinas e bodegas que rodeavam o local. Mas o que aconteceu comigo é assunto para outra oportunidade. A mando do Primeiro ministro Lorde Jonh Ruschel, Evans partiu no dia onze de fevereiro de 1862 do porto de Woolwick, em Londres, uma cidade naval banhada pelo rio Tâmisa área portuária era extensa, Tinha na parte mais afastada do cais mantinha-se ancorado permanentemente uma embarcação de reclusão onde prisioneiros faziam a limpeza e manutenção de toda a orla do porto. O destino do capitão era uma região distante chamada de Gloucestershire, na nascente do rio Tâmisa. Chegando lá deveria deslocar-se até a aldeia de Kemble, que ficou conhecida por ter conservado em suas terras um cemitério pagão anglo- saxão do século passado. Lorde Ruschel sabia que o capitão Evans tinha vasto discernimento no que se referia a procedimentos médicos, visto que boa parte de sua permanência em Westpoint foi como auxiliar direto do Dr. Maknamara, major e professor na instituição. O motivo de sua jornada até esta remota aldeia seria elucidar a causa de proliferação de uma enfermidade até então desconhecida pela ciência. A pedido de Evans acompanhei sua jornada, o que sabíamos até o momento de nossa partida eram informações chegadas por navegadores que passaram pela região de que alguns habitantes da aldeia de Kemble apresentavam sinais de demência, erupções na pele, e que após manifestarem os sintomas teriam apenas alguns dias até sua morte. Nossa equipe que havia saído pelo mar, terminaria sua viagem de pesquisa utilizando quatro coches. Alem de Evans e eu vieram dois enfermeiros, seis combatentes e inúmeros equipamentos que o capitão poria em uso para temtar desvendar a estranha enfermidade. Foi uma longa viagem por terras áridas e com com poucas ou quase nenhuma vegetação, mas por fim vagarosamente os coches adentraram em Kemble. A vila era certamente muita antiga e toda construída por pedras de tamanhos desproporcionais e irregulares, suas casas eram como fortalezas com enormes portas em madeira bruta, coladas umas as outras formavam um retângulo sem que por lugar algum se pudesse entrar ou sair da aldeia sem passar pelo portão principal, aliás era o único. Nas casas não havia nenhuma abertura para o lado de fora da vila e suas janelas, feitas com madeira ficavam todas direcionadas para a praça central, alguns carroções ficavam em frente as casas, enormes tinas eram pendurados nas paredes externas das casas, certamente serviam para banho, pois a água vinha do poço que havia na praça do povoado e deveria ser retirada com baldes. Percebi que em algumas casas as trepadeiras repletas de flores amarelas cobriam boa parte da frente e os telhados, isto era sem dúvida uma bela imagem naquele mundo perdido.    Na formação da aldeia, a mais de cem anos, nativos da nova guiné foram trazidos para trabalharem da construção das casas, toda mão de obra era escrava. Depois de algum tempo, estes nativos foram considerados membros da comunidade e tiveram família, ainda hoje existem descendentes destes escravos morando no povoado. Certamente havia uma imensa miscigenação de raças e credos naquele local. Ao redor da aldeia se podia ver um grande cultivo de hortaliças e uma pequena plantação de milho, cenário bem diferenre do que encontramos no caminho. Ao avistarem nossa chegada alguns aldeões reuniram-se na praça central, onde havia um palanque, também construído por imensas pedras e toras de madeira, que servia pelo visto para reunir os habitantes locais em alguma festividade ou algo assim.  A igreja da vila, a poucos metros do pomposo palanque tinha um enorme portão estilo romano e uma torre altíssima, que me parecia um original estilo gótico do século passado mas tabé, apresentava em aspecto de abandono. Por este portão caminhou lentamente até nós um homem de cabelos brancos, creio que na faixa dos setenta anos, com uma longa batina, ou algo assim, na cor lilás e um pequeno e encardido manto branco sobre os ombros. Extraordinariamente alto e delgado, curvava-se muito a andar, talvez pela estatura elevada, tinha as mãos trêmulas e faltava-lhe alguns dentes, seus olhos eram fundos e com olheiras acentuadas pela fisionomia cadavérica. --- Sejam bem vindos senhores, sou o prelado e conselheiro Samuel Tollins e venho da Abadia de Yorkshire. Disse o religioso. -– Sigam-me até a igreja e poderemos conversar com mais privacidade, pois imagino o motivo de sua visita. Completou.  Descemos dos coches e caminhamos por alguns metros e adentramos na pequena igreja do local, já de chagada pude observar que mesmo sendo uma igreja de origem católica, ou assim me parecia, nenhuma imagem sacra era vista ali. Apenas uma enorme cruz em madeira estava colocada sobre o altar. Fileiras de bancos também em madeira estavam colocados nas laterais do local, pequenas janelas com vidros bastante sujos deixavam entrar um mínimo de luz ao ambiente. O prelado conduziu nosso grupo ao fundo da velha igreja, lá adentramos em uma pequena sala que tinha ao centro com uma mesa de madeira escura e três cadeiras ao seu redor. ----sentem cavalheiros. Disse o pontífice. O capitão sentou-se ao meu lado, enquanto nosso anfitrião sentou-se mais distante,no lado oposto da mesa. ---Sei que os senhores vieram por causa da praga que se abateu sobre esta lugar. Falou ele enquanto abria uma bolsa de couro que havia sobre a mesa, nela estavam muitas folhas de papel com nomes escritos, era desnecessário dizer que se tratava das inúmeras pessoas já mortas pela tão famigerada doença. – Quais os sintomas desta praga.Perguntei. ---Confesso que não sei como a informação chegou até o Lorde Ruschel tão rápido, mas são muitos os sintomas. Disse ele –- Primeiramente parece haver uma paralisia mental, depois surgem acessos de risos histéricos e a estrutura física vai ficando terrivelmente debilitada, então tumores afloram por todo corpo, este é o estado terminal, do início até a morte passam-se nada mais doque 15 dias. A lista de pessoas que já haviam morrido pela doença era enorme, mas segundo o prelado, era uma questão de tempo para que tudo voltasse ao normal. ---Tem alguma ideia da causa disto ? Perguntei ao prelado ---Creio eu, não ser isto uma obra de Deus mas sim a soturna sombra do demônio que encravou neste esquecido lugar suas mais terríveis malignidades. Estou nesta aldeia a dezoito anos e nunca houve nada igual. Era visível a preocupação do prelado com as mortes, mesmo sendo obra de Deus, ou do Diabo, prefiria crer naquele momento que a ciência iria encontrar a origem de todo este trágico relato, antes que toda aldeia tenha perecido. Mas e se fosse um castigo de Deus, pensei eu, por quais pecados? A que mandamentos desobedeceram este povo para merecerem castigo tão assombroso? Após mais alguns detalhes fomos encaminhados a uma casa abandonada, no final da vila. Lá ficaríamos alojados e poderia o capitão instalar seus equipamentos de pesquisa. Nossa missão mostrava-se muito desafiadora, estávamos a frente de algo ainda desconhecido pela ciência, se é que a ciência poderá explicar algo tão terrivelmente cruel. Não sei dizer como, mas tudo ali cheirava a morte, como um veneno, uma praga mais cruel e impiedosa que a própria guerra havia dominado o povoado, creio eu, uma peste que exterminava barbaramente os moradores e de uma maneira nunca por mim presenciada. Enquanto caminhávamos até o local onde por algum tempo seria nosso laboratório e hospedaria percebi que no vilarejo não havia hospital e com certeza também não seria encontrado nenhum médico. Durante nosso trajeto alguns moradores chagavam as pequenas janelas e acenavam timidamente. Devo admitir que esta reação gerou inúmeras ponderações em minha mente, estariam eles depositando em nós a última esperança de livrar-lhes do extermínio completo ou zombando de nossa presença pensando não sermos capazes de acabar com as misteriosas mortes? Mas qual seria a origem desta pestilenta moléstia, de onde vem? E de que maneira se espalha vertiginosamente entre os moradores? Pouco depois, já em nossos aposentos e subjugado decerto pela força da viagem e pela minuciosa incumbência de instalar seu material de pesquisa, o capitão deixou-se cair sobre uma cadeira. Pensava fazer o mesmo quando um passo rápido ecoou na rua e bateram à porta com violência. Abri apressadamente com o intuito de prevenir nova batida, quando um deparei-me com um menino com olhos arregalados frente a porta. – O prelado os chama com urgência...na capela. Já havia chegado a noite, de uma maneira estranha, a atmosfera era fúnebre e maléfica. Por algum motivo aquele lugar me dava calafrios. Atendemos de pronto ao chamado quase a correr Evans e eu chegamos a capela, que parecia estar totalmente escura pois apenas duas pequenas velas serviam de iluminação, estendido ao chão do altar,(que já mencionei anteriormente só tinha uma cruz de madeira,sem nenhuma imagem.) um corpo totalmente coberto por panos. O prelado e mais duas pessoas, um homem bastante velho e uma mulher permaneciam ajoelhados junto ao que suponho, seria outra vítima da epidemia. ---Aproximem-se senhores.Disse Tollins ---Este é o corpo de Suzzane. Tinha vinte anos, estes são seus pais. Os limites que separam a vida e a morte são quando muito sombrios, e imensamente vagos. Eu estava cônscio do horror pavoroso daquela situação. A cena que se oferecia aos meus olhos, embora sem merecer um nome tão teatral, apresentava um aspeto indescritível de lúgubre desolação, com o o ato final em uma peça de Shakespeare. O corpo envolto em trapos tinha na cabeça um volume maior de bandalho, como se a conter um sangramento, e uma imensa mancha de sangue denunciava que eu estava certo na minha dedução. – Podemos ver o corpo para fazer algumas análises? Perguntei. – Infelizmente não! Respondeu rapidamente o prelado. – Nosso povo purifica seus mortos e os envolve em panos para evitar o ataque de maus espíritos. Ele será agora levado ao sepulcro onde sua alma descansara em paz. O corpo foi erguido por Tollins juntamente com os dois participantes do estranho velório e lavado ao fundo da igreja, lá fora foi colocado em uma carroça para ser conduzido ao cemitério. Uma velha carroça atrelada a um magro cavalo e um homem com uma capa escura e uma longa barba grisalha guiava o carro fúnebre e o funesto cortejo. Na carroça um corpo coberto por trapos sujos, galhos e folhas verdes(existe uma crença que os ramos verdes servem para livrar a alma dos maus espíritos). Uma lanterna presa na lateral do carroção servia como iluminação pelo penumbrante caminho. Em outro coche, de tamanho menor seguiu tollins, juntamente comigo e Evans. ---Precisamos examinar os corpos. Disse Evans ao Prelado... – Caso contrário, de que maneira vamos chegar as causas da doença? Afirmou. Tollins permaneceu olhando fixamente o préstito a nossa frente. ---Este povo tem suas crenças cavalheiros, eu não sou o único que não considera o catolicismo a única religião existente no mundo, Deus se manifesta de várias formas mas o Diabo também. Desafiar os costumes locais seria inflar uma revolta e já temos problemas demais. Não estamos em Londres senhores. A névoa foi se tornando mais espessa à nossa volta, o que me obrigava, em algumas ocasiões a forçar a visão para ver a frente. A bruma espessa e tão singular característica da região, estendia-se pesadamente sobre tudo e era tão densa que não se distinguia o carroção a nossa frente a não ser pela fraca luz da lanterna. O cemitério ficava oito quilômetros longe da aldeia, oculto atrás de muros altíssimos de pedras e um enorme portão. Para os moradores locais a entrada de estranhos era profanar a memória dos mortos, e o prelado Samuel era o responsável pelo local. Não havia caixões, os corpos eram envoltos em panos a jogados em covas, não se podia ver o cadáver nem fazer qualquer tipo de exame pós-mortem. Ao adentrar no horrendo cemitério, mesmo entre a forte neblina podíamos ver esculpidos nos muros carrancas com chifres, figuras com orelhas enormes e olhos malignos mostrando a expressão de pavor na face. Era um panteão de deuses e demônios. Nenhuma cruz, nenhuma imagem sacra, apenas aquela terrível impressão que se estar entrando nos portais do inferno. Sem dúvida havíamos encontrado o cemitério pagão anglo-saxão. Rapidamente o corpo foi colocado em uma cova, a mulher e o velho usando as mãos cobriram Suzzane totalmente com terra. ---Agora dormes a sombra do teu sepulcro. Que a tua sabedoria passe aos teus descendentes. Com estas palavras Tollins encerrou a cerimônia, se é que assim posso chamar, e silenciosamente retornamos ao vilarejo.  Mesmo sem haver feito nenhum comentário, Evans sabia que não estávamos dispostos a aceitar os costumes locais, e deveríamos imediatamente investigar a respeito, mesmo que sigilosamente. Na mesma noite, acompanhado de dois soldados atrelamos os cavalos e saímos a galope em direção ao local do enterro, lá teríamos nossas respostas ou pelo menos assim pensava, mas algo de mais terrífico estava por ser descoberto. O caminho era longo, era tão estreita a entrada do desfiladeiro e de tal maneira estava oculta que se a tivessemos descoberta naquela noite pareceria inacessível, aumentando minha certeza que minha teoria não era nem um pouco disparatada. Havia algo de muito misterioso neste povoado. Chegamos ao local e fomos de imediato ao sepulcro de Suzzane, que a poucas horas recebera seu mais novo lar, Evans ordenou aos soldados que retirassem as pás que haviam trazidos em suas montarias para desenterrarem o corpo. Enquanto a terra era tirada o local cobriu-se de intenso nevoeiro, era aterrador o que eu sentia naquele momento, uma mistura maligna de medo, pavor e curiosidade invadiu meu corpo. Rapidamente o corpo foi retirado e Evans imediatamente foi logo a região onde deveria estar a cabeça do cadáver, mas o que vimos deixou a todos paralisados, encontramos um rosto disforme e onde deveria haver um cérebro havia apenas um enorme buraco,oque deveria estar na cabeça de Suzzane fora retirado violentamente, quebrando de maneira rudimentar os ossos do crânio. Enquanto Evans desenrolava o restante do corpo era possível verificar feridas enormes. Nem mesmo a peste negra que a pouco tempo devastara a Europa deixara tão horrível terror em suas vítimas. – Precisamos investigar mais, vamos abrir outros túmulos.Disse o capitão. E assim foi feito, e a cada corpo a mesma bizarra imagem, o cérebro extirpado e erupções múltiplas. Adentramos a noite naquele local a a cada túmulo sempre a mesma cana. Após devolver os mortos aos seus devidos lugares retornamos ao vilarejo ainda um tanto aterrorizados com o que vimos, era necessário colocar em ordem nossos pensamentos. Semelhante a um espelho quebrado, que multiplica as imagens da dor e da deformidade, ali proliferavam o obscurantismo e a brutalidade. Disto eu não tinha a menor dúvida. Estávamos a menos de um dia na aldeia e as incertezas e a incredulidade já tomavam conta de nossos pensamentos. Fatos dignos do mais voraz circo dos horrores, uma terra esquecida por Deus mas dominada por uma força sinistra e fatal. Evans notou minhas mãos trêmulas de maneira quase descontrolada e puxou de dentro de seu baú de viagem um garrafa de Brandy, tirando a tampa estendeu sua mão oferecendo-a a mim. – Vamos beber e descansar, precisamos colocar as ideias em ordem, amanhã falaremos com o prelado.  Disse ele. É irrelevante dizer que os fatos daquela noite ficaram irremovíveis de minha mente, não poderia ser de outra forma, como fechar os olhos para buscarmos um minuto de calmaria se estava impregnada em nossa mente os momentos apavorantes que passamos naquele macabro cemitério. Não demorou muito para que outra batida a porta me fizesse erguer-me rapidamente de minha cama, pensei logo ser o anúncio de outra morte, mas felizmente esta errado. -– Senhor,desculpe a hora, mas preciso falar-lhes. Estas foram as palavras de Fernando, um dos soldados de Evans quando me viu abrir a porta. Era um homem de grande estatura, pele escura e a expressão em seu rosto e o adiantado da hora mostravam uma certa urgência na conversa. Evans apenas sentou-se em seu leito e falou em voz alta ao soldado.. – O que desejas Fernando? Não pode esperar até amanhecer? – Capitão. Disse o soldado. Creio saber de algo de pode ser um dos motivos para estas tão horríveis mortes. A sua declaração fez Evans quase saltar de onde estava e ficar de pé ao lado da cama. – Entre Fernando, parece que temos muito que conversar.Disse ele. ---Como sabe, meu capitão. Disse o soldado. Em minha infância fui criado em uma aldeia na Somália, quando era menino fugi escondido em um barco de mercadores de peles, fugi para não ser morto por uma peste semelhante a esta. Toda minha família estava doente. – Mas qual a causa desta doença Fernando? Perguntei antecipando-me ao capitão. O Soldado parecia bastante nervoso, continuava de pé à nossa frente, esfregava as mãos de uma maneira quase descomedida. ---Meus ancestrais. Continuou ele. Cozinhavam o cérebro de seus parentes após sua morte na intenção de absorver seus conhecimentos, mas em vez de conhecimento,trouxeram a morte, despertaram algo que não puderam controlar. As palavras de Fernando foram para mim e para Evans como se a sorver de uma só vez um copo da mais pura Vodka Russa. Evans olhou rapidamente para mim com seus olhos arregalados e incrédulos, enquanto eu recostei-me na porta, que já havia fechado, sem saber qual pensamento antepor em minha mente já tão confusa. ---Não vamos esperar mais.Disse o Capitão.Vamos de imediato falar  com Tollins. Ao sairmos da velha casa, fomos novamente surpreendidos, os habitantes da aldeia com certeza já haviam descoberto nossa visita ao cemitério e se encaminhavam todos ao palanque da praça. Um estranho e profundo sentimento de hostilidade fez-me sentir quando fomos avistados por eles e rapidamente fomos para a capela evitando a praça central do vilarejo. Estávamos certamente a profanar ou descobrir algo muito mais obscuro que uma simples enfermidade. É certa a afirmação de Novalis quando diz que estamos mais perto de despertar quando sonhamos que sonhamos. Mas posso afirmar que o que passava-se naquele momento era um imenso pesadelo. Gostariamos que tudo não passasse de um enorme pesadelo, mas infelizmente era tudo muito real. Ao abrirmos a pesada porta da igreja, Fernando, Evans e eu percebemos que já estavam a nossa espera. Dispostos nos bancos laterais os aldeões observavam nossa chagada silenciosamente, o Prelado Tollins estava de pé enfrente ao altar que estava iluminado por pequenos lampiões. – Aproximem-se senhores. Disse ele. Aproximamo-nos lentamente do religioso (se assim posso chamá-lo) ao mesmo tempo em que ouvíamos o ruído da porta sendo fechada as nossas costas. Certamente tínhamos a certeza que algo de muito ruim estava prestes a acontecer. --- Os senhores desrespeitaram nossos mortos, profanaram seus corpos, deixaram suas almas a mercê do mensageiro das trevas. – Devo lembrá-lo Prelado, que eu e meus homens estamos a serviço de vossa majestade. Disse o capitão, já prevendo algum tipo de represália. ---Seus Homens.Disse Tollins em tom de sarcástico. – Seus homens, meu capitão dormem agora o sono eterno e seus cérebros serão servidos em um banquete a todos, todos menos os senhores, pois também estarão mortos, os senhores estão sozinhos, aquelas pessoas que viram lá fora estão neste momento destruindo seu laboratório. Fernando e Evans desembainharam suas espadas e puseram-se em posição defensiva em segundos estávamos cercados por homens com facões e foices. Graças a um presente de meu padrinho em Westpoint, Coronel Konrad, tinha comigo um pistola fabricada em aço e madeira com detalhes em prata, e foi com ela que, com um único disparo joguei ao chão um dos três lampiões que estavam sobre o altar. O fogo propagou-se rapidamente atingindo as veste de Tollins que não conseguiu livrar-se das chamas debatendo-se envolto em labaredas, a fumaça tomou por completo o infernal local. Naquele momento o diabo despejava sua fúria em forma de fogo e sangue. Um pavor indescritível em um local de deveria ser sagrado. A ouvir gritos enlouquecidos e o ruído de foices e facões a golpearem as espadas de Evans e Fernando fiz alguns disparos a esmo, sem nada ver a frente, até cair quase desfalecido,com os pulmões repletos de fumaça e um desespero nunca antes por mim sentido por não poder respirar, acompanhado pelo medo aterrador da morte. Arrastei-me até um púlpito de pedra que ficava sobre o altar e aos poucos os sons foram ficando mais distantes, e os meus sentidos sensivelmente enfraquecidos. Minhas visões eram como vapores que se perdem ao vento. Quando recuperei minha consciência, ainda jogado ao chão do altar e com muita dificuldade de respirar, senti que parte de minhas roupas haviam queimado, minhas mãos e meu rosto pareciam incender devido as queimaduras, o local estava destruído por completo. Com muito esforço, pois não podia apoiar as mãos totalmente deformadas pelo fogo, consegui erguer-me e caminhei entre cadáveres fumegantes até chegar ao que restava do portal, o odor de carne humana queimada era nefando. Suportando toda dor consegui chegar até a saída e avistei alguns aldeões que permaneciam em frente aos escombros do inferno. Quando surgi cambaleante sobre as cinzas do portão da demoníaca capela certamente causei espanto e curiosidade,deveria estar morto, sacrificado em nome de seus ancestrais. Ainda não recobrado da horrenda experiência, mantinha-me sempre de pé no limite de minha resistência, e deveria naquele momento ostentar aos olhos dos bárbaros uns ares de figura fantasmagórica, de uma aparição de mau agouro com o corpo quase a decompor-se pelos ferimentos, e então perpassei ante eles em direção ao centro da praça. Enquanto passava entre a multidão que se abria dando espaço para o moribundo sobrevivente, um silencio horripilante caiu sobre o vilarejo. Caminhei lentamente até uma de nossa carruagen que estava atrelada na praça sem que nenhum aldeão tentasse impedir, com muita dificuldade subi ao coche e parti em meio a escura noite sob os olhares daquelas criaturas demoníacas, fugindo aterrorizado por entre a neblina do lugar que posso chamar de A Aldeia da Morte.

Filosofia Patrística

A Patrística, Escola Patrística ou Filosofia Patrística, foi uma corrente filosófica cristã da época medieval que surgiu no século IV. Receb...