quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Moscou 1906



Um silêncio inquietante...Uma calma desesperadora.
Lá fora o frio congela as folhas,a neve cai sobre os telhados,dentro deste gélido apartamento  a solidão me abraça.Pela janela do quarto andar observo os transeuntes,apressados em meio a névoa que cobre o final de tarde em Moscou.
O apartamento sombrio reflete o sentimento de abandono que domina minha alma.As sombras produzidas pelas fracas chamas da lareira são como spectros a deslizarem pelas velhas paredes,formando um bailado de figuras horrendas a minha volta.Sombras do meu passado.
Porque toda esta calmaria me assusta?
Porque este silencio me apavora?
Sinto-me impotente,submisso ao meu destino,entregue  já sem forças aos cruéis carrascos de minha consciência.Permaneço sentado em minha poltrona,contemplando o horizonte distante e gelado.Como se o mundo todo estivesse coberto de branco.
Devo estar talvez,esperando alguém,ou alguma coisa.Não sei ao certo,estou confuso.Quem sabe esteja ficando louco,talvez nem encontre-me realmente aqui.Quem sabe isto não passe de um terrível pesadelo.
Mas o que devo fazer para acordar?
A será que ao acordar não estarei aqui,no mesmo local.? 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

A hora Morta


Existem coisas que não podemos ver,não podemos tocar,mas sabemos que estão aqui.
Em nossa mente formamos imagens,tentamos dar forma para aquilo que sabemos existir,mas não conseguimos corporizar.Sombras,calafrios,ruídos,sobressaltos em meio  sono,tudo indica que algo nos vigia,alguma coisa nos acompanha.
Mas o que seria?
E porque?
De onde vem?
Talvez venha originar-se da região mais profunda de uma caverna,das entranhas mais sombrias do oceano,ou até mesmo da soturna e lamacenta cratera no centro da terra.
Tudo é incógnita.
Tudo é mistério.
Mas extremamente real.
Na hora morta,onde o sol já se pôs,mas a lua ainda não surgiu,é neste momento que a sombra maligna cobre toda terra.As nuvens movimentam-se com maior rapidez,tocadas que são pelo sopro malévolo do vento,empurradas por aquilo,ou aquele,que não vemos mas sabemos existir.É como se o canto mortal e inebriante de uma sereia adentrasse em nossos ouvidos sem que percebamos,e inconscientemente deixamos fluir o que de mais perverso existe em nosso ser,tomados que somos por estranhas e perigosas sensações.Começa ali,nosso caminho pelo o que é misterioso,oculto e perigoso.
Por alguns instantes os sinos ficam em silencio,calam-se as orações,os templos cerram suas portas.Algo de pernicioso esta no ar,cada segundo parece arrastar-se lentamente,Como se a agonizar pelo pavor que carrega.Sonhos são destruídos,vidas são arrancadas,almas são possuídas.
A hora morta parece interminável,E o mais assustador é saber que ela pode durar sessenta minutos,um dia inteiro,ou até mesmo uma vida inteira.    


sábado, 23 de agosto de 2014

Páginas ao vento


Meus olhos perdidos ao longe,em um horizonte distante.O vento sopra forte sobre a mesa da varanda onde estou.Pouco a pouco o vento foi jogando ao ar as páginas do que um dia seria um livro,e uma após a outra tomaram seu lugar no espaço,como um estranho bando de pássaros,sem pés,sem bicos,apenas asas,asas de papel,asas da imaginação soltas ao vento.Algumas girando lentamente,como se estivessem a acenar,a dizer adeus e o brigado pela história que carrego comigo.Indo em busca da liberdade.
É maravilhoso.Talvez esteja ali o sonho de todo escritor.Um silencioso balé de suas páginas,levando seus sonhos,suas emoções,soltas ao ar,tocadas pela sinfonia do vento,
girando desordenadamente.Cada uma com sua história,cada uma delas procurando o melhor local para pousar.Um local onde sua mensagem possa ser contada,talvez em uma roda de crianças,ou até mesmo quem sabe,em uma sala de aula.Cada página com seu sentimento,seu significado,seguindo seu destino.


quarta-feira, 23 de julho de 2014

A Última Cena

Desci apenas alguns degraus e sentei-me na primeira poltrona que encontrei, ao lado do corredor. Estava bastante escuro, poucas e pequenas luzes laterais iluminavam a velha sala do cinema Phoenix. Um forte odor de umidade adejava no ar, talvez vindo dos enxovalhados carpetes, arruinados pelas incontáveis goteiras do antigo prédio. Apenas algumas pessoas, poucas pessoas, estavam presentes quando a película teve seu início, todas intencionalmente alojadas em poltronas distantes umas das outras. No começo da película, imagens de um hospital muito antigo, em um local muito distante. Uma noite chuvosa, um homem magro aguarda na sala de espera, a noite adensa rapidamente, surge a inquietação, e então ouve-se pelo corredor o choro, o choro de uma criança, e toda história tem início. Enquanto as imagens vão alternando-se na antiga tela, já manchada pelo tempo, pessoas saem da sala de exibição, enquanto outras chegam, ouço ruídos dos sapatos, risos, e o cheiro de mofo das velhas poltronas. As imagens tremem, é as peculiaridades da história, muitas e muitas vezes contada, e a cada exibição, incluem-se novas cenas. Poderia ser um filme como qualquer um outro, uma sessão de final de tarde, mas não para mim, não este filme. Tudo nele me é familiar, as brincadeiras, a teimosia, amigos, a escola, a indiferença, a juventude, o medo e a tristeza. E os expectadores vão alternando-se a cada nova cena, dispersivos, desatentos, apenas cuidando de suas próprias vidas. A cada novo episódio, uma lembrança, o engano, a ingenuidade, a mão estendida ao carrasco, esta tudo lá, tudo no filme, sem cortes,sem dublê, sem ensaio, tudo feito no momento exato, sem uma segunda chance para refilmar. Nada me parece estranho, ninguém é a mim desconhecido, talvez estivessem apenas jogados na caixa do esquecimento, e poderiam ter ficado lá, Como antigas fotografias em um velho álbum. Com o decorrer da película, as luzes parecem definhar a cada cena, a plateia vai reduzindo-se rapidamente, a sala vai ficando silenciosa, sombria, melancólica. Procuro acompanhar com toda atenção as últimas cenas, mas a imagem já é turva, difusa, sem quem eu possa distinguir quem nela esta. A sala esta agora quase completamente vazia, um sopro gelado circula por entre as fileiras de poltronas, antes do desfecho final, e as luzes,já extremamente fracas, se extinguirem por completo, jogando um breu sobre o velho cinema, percebo que além de mim, apenas mais três pessoas ficaram, como eu, até o final. Um jovem magro, muito parecido com o magro homem do início do filme, uma jovem muito bela, e uma senhora de cabelos longos e grisalhos. Faltando segundos para que a última cena termine e finalmente, as luzes se apeguem, consigo ver que os três, sentados na mesma fileira que eu, estão olhando-me e sorrindo docemente, com carinho, fecho meus olhos, e uma paz acalentadora invade meu coração.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

As Moedas do Rei Eledur

Pessoa alguma que me conheça colocará dúvida que para executar essa missão que me impus, eu não desenvolva todo o talento de que disponho com a rígida imparcialidade, o escrupuloso testemunho que habitualmente se exigem daquele que deseja ganhar os louros de historiador. Pois este reconhecimento pouco me é desejado, Porem quero em meu relato, mostrar minha visão do acontecido. Em um Local muito distante daqui,existia um rei chamado Eledur, seu reinado era com braço de ferro e com tamanha crueldade, que enquanto seu povo penava por fome e péssimas condições de vida, seu reino era de soberba e luxo. Seu povo deveria todo mês lhe entregar tributos no palácio, sob pena de serem levados as masmorras se nada lhe fosse entregue. Neste mesmo palácio morava Farfan, o bobo da corte, homenzinho de apenas um metro e vinte centímetros  de altura, que com sua roupa multicolorida, seu chapéu de cinco pontas e seus sapatos de tecido com longos bicos, trazia entretenimento ao rei e sua débil corte de beberrões. Farfan fora levado ao palácio quando tinha apenas 5 anos, retirado da tenda de uma trupe de anões atuadores que passava pelo povoado, seus pais não tiveram escolha, pois seria deixar o menino ou assistirem sua morte pela mão do próprio rei. O pequeno palhaço, com suas curtas pernas arqueadas, não tinha motivos para admirar seu rei, e com imensa tristeza aguardava o momento de poder por fim aquela vida de humilhação e desonra. Certa noite, sentado em uma das pilastras do palácio, enquanto costurava os retalhos com os quais fazia suas vestes, Farfan viu passar dois guardas palacianos com uma enorme sacola de couro, extremamente pesada, acompanhados pelo rei, e depositaram a sua carga nos aposentos reais e voltaram todos para o salão. Naquela noite havia uma grande festa e todos os seus conselheiros e nobres amigos do soberano se regozijavam do melhor vinho e de belas mulheres que vendiam seus carinhos por comida e míseras moedas. O maquiavélico pequenino não pensou duas vezes, adentrou ao quarto real e foi direto averiguar a pesada carga, seus pequenos olhos brilharam ao contemplar tamanha quantidade de moedas de ouro, seria o suficiente para viver o resto de sua vida sem precisar mendigar favores de um rei tirano, e quem sabe até reencontrar sua família. Tirando rapidamente seu gorro de cinco pontas da cabeça, tratou de enchê-lo com algumas moedas e furtivamente, pelos escuros corredores do gigantesco palácio, correu, se é que posso assim definir, até a torre do Sino na praça central do povoado. Esta torre tinha,aproximadamente 30 metros de altura, nela existia quatro lados, cada um dos lados tinha um antigo relógio, todos perfeitamente funcionando, porem o mais assombroso é que cada um dos sete relógios marcava um horário diferente. Fato este, que devo admitir, era um tanto quanto curioso, e até mesmo um pouco perturbador. Aproveitando o desenrolar da grande festa palaciana, Farfan fez incontáveis idas e vindas a torre, até ver concluído seu intento por completo, deixando totalmente vazia a sacola do tão desejado tesouro. Já preparava-se Farfan para deixar a torre antes que sua falta fosse sentida pelo malvado rei, quando escutou passos na escada que levava a torre, imediatamente olhou em direção a pequena porta do campanário e o que viu o fez gelar até os ossos. Parado em sua frente, alguém exatamente como ele, sua própria imagem, parecia ao confuso anão que estava a ver-se em um enorme espelho. Os pequenos olhos arregalados e as tremulas e tortuosas pernas demonstravam quão perplexo ficou o  ladrãozinho real . Aquela diabólica imagem se aproximou, e falou sussurrando ao assustado e paralisado ouvinte:  – O que fizeste não esta  certo, devolva o que não lhe pertence. Sem saber o porquê, sem mesmo entender o que estava acontecendo, Farfan respondeu; – Ele já tem muito, e eu fui muito humilhado, esta é minha passagem para liberdade. Respondeu ele, sentindo-se como um insano a falar com a própria imagem.. – Sua família teria vergonha de você. Disse o estranho visitante, enquanto pulava como um macaco ao redor do monte de moedas. – Mas que é você? Perguntou ainda confuso Farfan. --Sou você mesmo, seu idiota, sua  consciência, o íntimo do seu ser. Respondeu o intruso. – Ainda tem tempo, devolva o que roubou e ninguém ficará sabendo. Completou o estranho homenzinho. Farfan pensou delirar, tinha que fazer algo, e rápido --isto só pode ser coisa da minha mente. Pensou o bobo larápio. Chegou então bem próximo a sua própria imagem, pois era ainda incrédulo do que se passava naquela velha torre. Se olharmos com muita convicção, veremos qualquer coisa que estivermos procurando, seja ela o que for, mas para que isto possa acontecer, teremos que ignorar uma infinidade de outras coisas, e uma destas coisas pode ser a verdadeira resposta, mas a ignoramos. Mas para ele não havia outra realidade, aquilo não podia estar acontecendo, era loucura. Talvez não seja real, seja um pesadelo diabolicamente vivido em plena lucidez. Mas a maldade do palhaço real iria muito além. Dizem que não morremos quando estamos sonhando, que nossa alma é imortal, e ele estava a ponto de comprovar a veracidade desta tese. Instintivamente Farfan, jogando-se sobre seu terrível algoz, empurrou o seu inimigo espiritual da alta torre do sino, mas enquanto fazia isto, o pequenino homem sentiu esvaírem-se suas forças, e um breu, como a mais escura nuvem do fundo das trevas cobriu por completo sua visão, sentiu então a terrível dor de seus ossos partindo-se em pedaços, sua respiração aos poucos foi ficando mais escassa.   Naquela mesma  manhã, após o final da grande festa palaciana, o rei foi comunicado pelo capitão de sua guarda, que o bobo da corte havia caído da torre do relógio, que ele havia salvado o tesouro que estava sendo roubado, Farfan estava morto, e as moedas de ouro no sino do campanário.   

sábado, 23 de novembro de 2013

Um Conto Árabe

Conta-se que na província de Asir, nas terras áridas da Arábia,havia um rei de nome Alfar, ele tinha o respeito e admiração de seu povo, pois seu reinado era de justiça e benevolência. Certo dia, o rei foi informado pelo seu conselheiro Kandir, que Tenir, seu cozinheiro real, furtava durante a escuras horas da noite, alimentos da cozinha do palácio para levá-los aos enfermos excluídos do povoado, pelo contagio da praga que devastava a região. Estes desvalidos moravam em cavernas, nas tortuosas montanhas de Jabal. Sem retardamento, mandou o monarca, que fosse imediatamente levado a casa de seu serviçal, acompanhado de seus oito conselheiros e sua guarda real. Onde faria ele, justiça pela pilhagem descoberta.  O que de pronto foi feito, seguindo o cortejo até o local de destino. Ao ver o grande soberano frente a casa de Tenir, foi logo formando-se uma multidão de curiosos. Tomados de viva curiosidade. ---Tenir. Gritou o capitão da guarda real. ---Sua Majestade, o grande Alfar quer falar-te. Completou. O cozinheiro era um homem de estatura pequena e roupas modestas, saiu a porta de sua envelhecida casa e reverenciou o grande governante. ---Em que posso servi-lo ? Meu rei ! Disse o homem. ---Trais-te minha confiança, enganou-me o tempo todo, perdeste por certo a luz da razão. Disse o rei. ---Ó grandioso soberano, se falhei, por Alá peço-te perdão. Mas o rei era justo e severo. ---Por este motivo perderas a vida na forca, e tua casa será queimada, não há,dentro do razoável, possibilidade qualquer de perdão. Sentenciou! Neste momento a esposa de Tenir, de nome Gladis, saiu de dentro da velha  casa e aproximou-se respeitosamente de vossa majestade. – Senhor..Disse ela. Nada tenho a não ser esta casa, se meu marido errou, deixa-me levar comigo pelo menos o que meus humildes braços poderem carregar. A justiça e benevolência sempre andavam juntas, nas decisões de Alfar, e na sua imperturbável calma, sua palavra jamais era contestada ou revogada nem por ele mesmo. ---Minha senhora. Disse o Rei. Nada tens a ver com os logros de teu marido, então entra e pega o que puderes carregar, pois o que tirares da casa estará livre de minha punição.. Após ouvir tão sábia sentença de justiça,Tenir e sua esposa adentraram na moradia novamente, e após alguns segundos, para grande assombro da multidão que ali estava, Gladis saiu de sua velha casa carregando nos ombros seu marido Tenir. Fazendo-se cumprir a palavra do soberano, de que o que ela carregasse em seus braços seria livre de punição. livrando-o assim dos suplícios indizíveis do fogo do inferno.        

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A Morte de Thomas

Para relatar com a mais pura veracidade o ocorrido no início do inverno de Janeiro de 1928, no Vale de Yorkshire, Inglaterra, devo eu, transporta-me para a pessoa a qual me refiro nesta narrativa, o novelista, poeta e grande amigo,Thomas H. homem que dedicou boa parte de sua vida a restauração de velhas igrejas, e somente depois de uma idade já avançada deixou fluir seu talento literário. O estilo um tanto prosaico e bastante objetivo da sua linguagem, cuja temática sempre voltava-se para as agruras da velhice, o amor e irremediavelmente a morte, influiu na reação anti-romântica daquele período. Por tudo isso, foi considerado  pelos críticos como " o último dos grandes vitorianos". Segue um trecho de sua última escrita, encontrada em sua cabana, onde passou seus derradeiros dias. Eu,Thomas H. Por muito tempo permaneci recluso neste chalé, na parte mais distante do vale, talvez tomado pela angustiante saudade de minha falecida esposa Emma, ou quem sabe pela impiedosa velhice que enfraquece-me a cada interminável dia, tirando-me  o que havia de mais pertinente em meu cérebro, a imaginação, a capacidade de escrever e colocar em meus poemas os sentimentos mais puros e verdadeiros de minha alma. Amargurado, vejo, mesmo que com muita dificuldade, pela janela deste solitário refúgio, o passar fantasmagórico de uma vida, e a neblina que envolve a imensidão esverdeada das montanhas, parece invadir este fúnebre local, trazendo consigo um ar de desalento e inércia. Já sem forças e entregue a mercê do meu  algoz destino, em meu leito, percebo que a doença leva-me a um desfecho inevitável, desfecho este, que a algum tempo aguardo ansiosamente, pois estaria a livrar-me de meus tormentos, dos fantasmas do passado que me assombram a cada noite, fazendo-me penar a cada dia em um tormento sem fim.  Ouço o ruído dos passos que se aproximam de meu leito, não posso saber quem chega a minha velha cabana, tento identificar o vulto que de mim se aproxima, mas é em vão, maldita visão, que diminuiu demasiadamente  com o tempo, e me deixa  impotente, sem saber o que esta a acontecer. Seria a própria morte, que diabolicamente estava a bater a minha porta? Seria um anjo, que veio buscar-me, e conduzir-me sei lá pra onde? Ou talvez, Henry, o filho que com 14 anos, partiu logo após o enterro de sua mãe? Mas agora já não faz a menor diferença quem esteja a rodear meu leito de morte, meus cansados olhos, como a névoa mais profunda das florestas, já não distinguem com facilidade a fisionomia de quem quer que seja, nada tenho de valor, que possa interessar a qualquer pessoa. Mas os passos ficam mais próximos, até não acreditar nas palavras ,que pronunciadas em voz baixa e lentamente, chegaram aos meus ouvidos. ---Papai, sou eu....Henry! Pronunciou o visitante. Não sei dizer ao certo, se fui tomado pela alegria do retorno de meu filho, ou pela imensa tristeza pelo tempo em que por ele fui abandonado, pelas marcas que este abandono deixou em minha alma, mas agora isto já não importa, de meus velhos olhos deixam precipitarem-se algumas lágrimas, pois o passado me era desagradável. No momento final de minha existência, Henry estava ali, no meu lado. Pude perceber quando sentou-se ao lado do meu debilitado corpo, segurou carinhosamente minha mão entre as suas. Era o momento da redenção de todos os infindáveis dias de tristeza. – Sei que estás muito doente, meu pai! Sussurrou ele. – E quero ficar contigo neste momento! Completou.   Naquele anoitecer no Vale de Yorkshire, a névoa cobria a terra, sobre as águas flutuavam, ondas fluentes e o esplendor do intenso inverno, o fundo branco do gelo na relva, era como um arco-íris caído do firmamento, mas trazendo também uma tristeza, que é a mais duradoura das impressões, tão duradoura quanto o fardo desta melancolia que vem amargamente me perseguindo pela vida toda. As horas da minha felicidade com certeza a muito já se foram, e o prazer não se colhe duas vezes na mesma vida, como as rosas de Possidônio, que não brotam duas vezes por ano. Quando vemos a vida se esvair de nós, como fino líquido por entre os dedos, tentamos esquecer aquilo que nos faz mal, porem,esquecer é um ato involuntário, pois quanto mais se quer deixar algo para trás, mais isso nos persegue. É quase débil crer que Deus possa dar a alguém um toque de talento, mas completar o restante de sua vida com sofrimento e miséria. Uma terrível sombra caía sobre a minha alma naquele momento, fazendo-a empalidecer e estremecer mortalmente a cada minuto que passava, justamente agora, quando eu mais queria ficar ao lado daquele que foi fruto de um amor divinal, que traz em seus mais simples traços a imagem encantadora de sua mãe.  Mas o cavaleiro da morte se aproximava a galope, podia sentir o vento gélido e aterrador tocar todo meu corpo, o momento de deixar este horrendo mundo estava por chegar. Juntando todas as forças em um último e derradeiro esforço, balbuciei em tom muito baixo…. – Tens então, meu amado filho...Disse eu,em um sopro de voz... – Que registrar em tua memória este último momento comigo. Meu olhar direcionou-se para o lado, como se a procurar algo, ou alguém, as lágrimas escorreram sem controle pelo meu pálido rosto. O medo vem causar-me arrepios, juntamente com a paz que a morte irremediavelmente traz, o limbo das trevas já toma conta de minhas mãos, dos meus braços, minhas pernas, de todo o  interior do meu gélido corpo. Um silêncio tomou conta da velha cabana, que envolveu-se em uma nebulosa escuridão. E inexplicavelmente, meus olhos puderam ver, ao lado daquele leito mortal, a figura linda, divinal, de Emma, mãe de Henry, sorrindo docemente, com o mesmo manto lilás com o qual a cobri seu caixão no dia de sua morte. Como um triunfo final aos meus miseráveis dias.  Então, não mais ouço, nada mais vejo, creio eu, já estar morto.

O Dom da Transcendência

Transcendência é um termo que, em filosofia, pode conduzir a dois diferentes períodos, embora relacionados, todos eles originários da raiz ...