terça-feira, 23 de julho de 2013

Pensamento Vazio

Sobre a pesada mesa de carvalho descansa uma folha de papel em branco, sentado inquietamente seguro a pena e levo-a até o tinteiro, umedecendo na grossa tinta azul-escuro. Tenho a intenção fervorosa de colocar nesta folha, os sentimentos mais profundos que minha alma puder transmitir neste momento, observo com certa paciência, que a pena ao ser levada sobre o papel, se permite gotejar a escura tinta sobre a lividez ternurante da folha, que aguarda para relatar minha imaginação. Colocando um dos braços sobre a pomposa mesa, que o tempo levou-lhe o brilho, mas deixou-lhe a robustez, coloco minha face sobre a palma da mão, buscando quem sabe lampejos de memórias quase já esquecidas, para saciar em parte esta angustia, este desalento que invade meu peito, talvez se a imaginação permitir, eu consiga um alento a esta efêmera solidão que domina por completo toda esta casa, todos os meus dias. Um pequeno relógio de pêndulo, colocado na parede, sobre a lareira, parece mostrar que apesar das avançadas horas da noite, naquela tórrida sala, o tempo parou, como se negando a acompanhar o infortúnio de uma alma quase perdida. Uma pequena lâmpada colocada sobre a mesa, tenta, porém sem sucesso, com sua branda luminosidade, apascentar o sentimento de desespero que me domina, por nada ter a escrever, seu fraco brilho ameniza nas sombras o tremor, que já a algum tempo, se apossa de minhas mãos. Ao meu redor uma casa vazia, sobre a mesa uma folha de papel em branco, dentro de mim uma alma fúnebre, imersa em uma sufocante névoa de abandono. Como transferir para a ponta da pena, que pinga pausadamente ferindo a candura do papel, algum sentimento, seja ele qual for? Como transformar em palavras o sentimento de coisa alguma?

domingo, 23 de dezembro de 2012

As Crônicas de Lawford


Madri - Espanha - 1904

Lentamente fui colocando meus poucos objetos dentro de uma caixa.Já estava na hora de ir,talvez para sempre,o destino é incerto e sempre traz surpresas com ele.
Inevitavelmente  devo levar comigo,além dos objetos,as lembranças,os sorrisos,as lágrimas,abraços,sonhos,uma abundante bagagem impalpável.Fica para traz um vazio,a ser preenchido certamente,por alguém.
Vou abrindo gavetas,revirando papéis,velhas fotografias,cartas declarando sentimentos  que agora já não importam mais,e a pequena lixeira enche-se cada vez mais.
Bem sei que devo levar somente o indispensável.
Mas o que seria de tão indispensável para quem sabe que deve sair,mas não sabe ao certo para onde ir?
Talvez deva levar em minha bagagem bastante coragem,otimismo,a certeza que estou fazendo a coisa certa.Mas isto não cabe em uma caixa de objetos.
Vou então remexer a lixeira,será que existe algo ali que eu deveria levar?
Não.Certamente não tem.
Ao findar a partilha do que vai e do que fica,devo sair em silêncio,sem nada dizer,sem fazer ruído.Não tenho a quem dizer adeus,saio sem o desconforto da despedida.Observo a caixa com as poucas coisas que nela coloquei.Vem-me então um riso tímido,tanto tempo,tantos anos,e nada tenho de valor,nem dentro deste velho apartamento,nem dentro de mim.
Será que para recomeçar a vida,se é que isto é possível,terei que juntar retalhos de velhas lembranças?
Pedaços de antigas fotos já rasgadas? E remontando-as ainda reconhecerei algum rosto?
Terei que montar um quebra cabeças com minhas emoções,tudo é incerto,mas inevitável.
Vou a janela,uma última olhada.Os prédios,as pessoas passando rápido no final de tarde,a catedral de Nossa Senhora de Almudena ao fundo,Madri é uma cidade linda.Um cenário que por longos anos não teve de mim qualquer atenção,mas agora me faz ficar imóvel,contemplando-o como pela primeira vez.
Observo o rosto das pessoas que passam,cada uma delas carrega uma história,distintas ,únicas,mas ao mesmo tempo interligadas por tristezas,alegrias e superações.  
Porque só agora tenho a percepção destas coisas?
Certamente ao descer as escadas e sair do edifício,juntar-me-ei a elas,pessoas felizes,pessoas melancólicas,pessoas como eu,pessoas comuns.
Deveria colocar um agasalho ao sair?será que faz frio lá fora?
Não importa,é minha alma que está gelada,uma sombria insignificância.
Quem sabe um dia possa voltar,não sei.Quando somos crianças queremos crescer,quando estamos velhos queremos voltar a infância.Tudo culpa deste nosso espírito  inconstante,que a cada minuto muda seus desejos,e nos faz perambular como sonâmbulos despertos pelos caminhos de nossa existência.
Mas que insano,filosofar em um momento tão impróprio.Talvez seja o nervosismo.
Tudo,por fim está arrumado,se assim posso dizer.O meu tudo,que é tão pouco,que se assemelha a quase nada.Uma ausência preenche minha vida por completo,e a destrói.
Minha amada a muito já se foi,era seu maior desejo.
Já posso ir,mas detenho-me por alguns instantes ao chegar a porta,existe uma dúvida que preciso elucidar antes de girar pela última vez a maçaneta e sair.
Será este,também,meu maior desejo?   








sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O Pássaro Negro


O pássaro negro pousa
sobre a lápide do escritor
e a grunhir sua lamúria
demonstra sua imensa dor.

Uma ave agourenta
por todos indesejada
era fonte inspiradora
da literatura assombrada.

Hoje presta homenagem
em um sinistro ato de amor
a quem transformou esta ave
em um símbolo do horror.

Desde os contos de mistério
aos mais velados segredos
tornou-se a estranha ave
a expressão de infindos medos.

E nesta sombria visita
que a todos é despercebida
o espírito do morto se alegra
com a gratidão recebida.



terça-feira, 23 de outubro de 2012

A Despedida do Inconsciente


Olha demoradamente para meu corpo, que já sem vida descansa neste gelado ataúde.
Perceba o angustiante silêncio desta fúnebre capela totalmente vazia.
Estás agora completamente sozinha, nem eu contigo mais estou.
Mas onde estão aqueles que em momentos festivos brindavam e sorriam ao seu lado?
Onde estão aqueles aos quais tu defendia tão fervorosamente quando por mim
eram criticados?
Onde esta o ombro amigo para consolar-te neste momento de infortúnio?
Todos se foram!
Apenas meu cadáver,inerte,continua a teu lado.

Se lágrimas caírem em tua face,certamente não será pela perda,
mas pelo desolador sentimento de abandono.
Nesta congelante noite de inverno,despede-te daquele
que em sentimento já deixaste a muito tempo. 

Parece-me que a vida imita a morte,
pois estivemos sempre sós 
mesmo quando rodeados por muitos.
Nossa soturna solidão era de mágoa,dor.

Se o ambiente lúgubre deste local causar-te arrepios,
e sentir-te envolvida em um sufocante desespero...
Acostume-se...
Pois toda minha vida ao teu lado foi assim!
  



domingo, 23 de setembro de 2012

A Conversa

Por que ainda venho aqui? Ao sair sempre me pergunto. Talvez pela infinita admiração que tenho por ti, pelo respeito que tenho pelas tuas opiniões, ou quem sabe somente para contar-te coisas que sei, somente a ti posso contar. Acredito que estando contigo posso ficar, mesmo que por breves instantes, mais próximo de Deus. Minha alma tão carregada de impurezas e pecados pode por alguns momentos ficar alheia aos melindres da consciência.      Instintivamente me ponho a falar tão precipitadamente, que suponho tardas a entender, devido ao redemoinho de acontecimentos que vou misturando e divagando como um delirante interlocutor. Se me queres dar uma resposta ? Não sei. Pois tão entusiasta estou em meus relatos que tempo não te dou sequer para um comentário. O tempo vai rápido e ainda há muito o que contar, sempre vai haver. Enquanto caminho ao teu redor dissertando meus pensamentos mais íntimos,talvez deixando-te estonteante pela minha eloquência,sinto que meu ser parece estar coberto de uma branda paz. E isto me basta. A noite já chegou, tenho que ir. Eu sei, e tu sabes também, que voltarei muito em breve, e muitas outras vezes até que finalmente possa definitivamente morar contigo. O frio da noite esta a gelar meus ossos, afinal os cemitérios são normalmente muito gelados. Até a próxima visita meu amado pai.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A Jaula

Na jaula, no pátio do circo o tigre é uma atração a parte. Seu olhar inquieto de tanto observar através das grossas barras deixou-o tão confuso e sem raciocínio que não mais  fixa coisa alguma. Para ele é como se tivesse mil barras a segurá-lo e atrás das mil barras um mundo vazio, solitário. Enquanto caminha repetidamente em círculos, seus Passos são como uma dança De algum ritual tribal onde no centro esta encravado o grande desejo de liberdade. Parece-me que em alguns Momentos seus olhos se levantam, ao longe Paralisando o impetuoso animal, e uma imagem parece entrar e se esgueirar pela retina atingindo o coração do felino, trazendo um alento, uma calmaria. Mas que logo Se esvai, e o nosso ilustre prisioneiro em sua jaula retorna ao seu círculo de solidão e tristeza.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A Sociedade sem máscaras

Aqui estamos nós, símbolos da nova sociedade, tecnológica mecanizada, eletrônica e pouco humana, pela luta do homem pela grandeza. Pelos seus próprios e inescrupulosos recursos. De nada adianta ser poderoso se nos falta dignidade. Ás vezes chego a imaginar que vivo com sabedoria, mas volto sempre a percorrer trilhas conhecidas porque o caminho novo me assusta. Talvez eu tenha perecido pela arrogância e autoconfiança no passado, e nesta vida sou cuidadoso. Há momentos que uma segunda chance é pedido em forma de prece, que sobe ao céu com uma luz tão clara como a luz que a morte traz. Vejo então que ao longo da vida existem borrões, e cacos estão suficientemente espalhados pela nossa existência para que possamos recolhê-los e manter vivas nossas memórias. Grandes e refinados salões, sorrisos falsos, damas vulgares, mentiras compartilhadas, pessoas dissimuladas. Por debaixo da fina seda esta a podridão da alma, junto com o doce beijo tem o néctar da maldade, por detrás dos belos olhos esta a mais pura visão da hipocrisia. O abraço afetuoso deixa transbordar o ódio escondido em seus corações, o aperto da mão transmite livremente a febre da arrogância desmedida.(se é que para isto existe medida). Como sobreviver ao caos humano? Ao desfecho catastrófico de nossas vidas? Como sair ileso do ataque avassalador dos predadores de caráter? Como ser desumanamente humano em uma sociedade mesquinha? Com o passar do tempo temos a opção de saber quem somos, a quem deveríamos dar nosso perdão, e a quem pedir, quem são as pessoas que realmente devemos proteger e defender. Temos que romper o limite do que é feito e do que necessariamente é preciso fazer, para podermos, em fim, entender o que acontece ao nosso redor. No final, olhando a essência da minha vida, para ver o que deixei para trás, vejo que a maior parte do que trabalhei para construir está em ruínas. E agora, quando se aproxima a escuridão, descobri que não deixei nenhum verdadeiro legado. Um homem nunca deve viver tanto a ponto de ver seus filhos ou suas obras destruídas.

O Dom da Transcendência

Transcendência é um termo que, em filosofia, pode conduzir a dois diferentes períodos, embora relacionados, todos eles originários da raiz ...